08 de julho de 2026
Geral

As veias abertas do Mercosul

(*) João Herrmann Neto
| Tempo de leitura: 3 min

Terão sido apenas dez os anos de sua existência agora completados? A reunião de Assunção é a crônica de uma morte anunciada? O Mercosul é um projeto de hegemonia brasileira em detrimento de seus parceiros? Estas e tantas outras dúvidas assolam o futuro do Tratado de Ouro Preto, que em 31 de dezembro de 1994 consolidou o Mercado Comum dos Países do Cone Sul (Mercosul). O fincar da afirmação do Mercosul enquanto bloco se deu a um acidente de tráfego. O vestibular do grande mercado americano foi o Nafta congregando EUA, Canadá e México. Que foi interrompido ao Norte com a luta separatista entre Montreal e Quebec, no Canadá, e ao Sul com a sublevação social de Chiapas, no México. Estes dois percalços inconcebíveis ensanduicharam os interesses dos EUA e detiveram o avanço da aliança ao Sul. Neste intervalo de tempo, possibilitou-se a implantação do bloco e até a sua ampliação. Bolívia e Chile transformaram-se em estados agregados, positivando o expansionismo. As suas entradas transformaram o Mercosul de bloco Atlântico a bioceânico, possibilitando que sua história de 500 anos de colonização e desenvolvimento oriental se dirigisse ao Pacífico e a novos mercados de três bilhões de pessoas ao Ocidente.

A cláusula democrática possibilitou que nunca dantes tivéssemos governos constitucionalmente postos e durante tanto tempo estabelecidos, permitindo uma trégua convulsional que se espraiou por toda a América do Sul, apesar das enormes dificuldades de Equador, Venezuela, Colômbia e Peru. A existência de um Parlamento Conjunto entre os quatros países infiltra a presença social, indicando num não inimaginável, a curto prazo, Parlamento do Mercosul eleito pelo voto direto de seus cidadãos. O mercado gerado entre os países, em volume crescente, desonerou a necessidade de moedas fortes na sua realização, apesar da debilidade das economias e da existência de regimes econômicos distintos entre Argentina e Brasil. A complementaridade das cadeias produtivas, desde a agrícola à industrial, passando agora pela energia, impulsionou um nunca visto entrelaçamento de empresas, negócios, culturas e mixagem de interesses antes nacionais.

A questão da Defesa deslocou-se e não se vislumbram mais os aquartelamentos militares ao Sul, que se destinam agora aos reais problemas de ocupação da Amazônia Legal e dos espaços aéreo e marítimo, na proteção e exploração das riquezas naturais e coibição do tráfico internacional. A posição ante a geografia econômica do mundo também mudou, pois o PIB do Mercosul é aquele hoje que, se aliado a um ou a outro, desequilibra os quase iguais entre si produtos da Comunidade Econômica Européia e do Grande Mercado ao Norte. A moeda mercosulina é a cobiça do euro e do dólar americano.

Enquanto os EUA erguem a Muralha do Século XXI na fronteira com o México, os povos mercosulistas se invadem entre si ocupando pacificamente os espaços que vão do mercado de trabalho ao turismo da neve e da areia. Uma história de integração é lenta e repleta de barreiras. Imensas, porém não irremovíveis. A da União Européia tem 52 anos e ainda não terminou. A do Mercosul, embora venha de San Martin, de Bolivar, de Sandino e de Rio Branco, sempre foi feita sob o viés de interesses internacionais. Pela primeira vez se faz ao sabor dos seus povos. Sabor que o será amargo por vezes pelas agressões, traições, conluios e covardia. Porém, o futuro é feito de audácia, sonhos, utopias e coragem. O caminho está traçado. Avançar para o Oeste e ao Norte. Combinar-se interesses com o Pacto Andino e os países Amazônicos. Ao invés do Mercosul, o Amercosul! Auto-suficiente em petróleo, a primeira biodiversidade do planeta, 26% da água doce superficial, a segunda maior província mineral, a maior fronteira de terras agrícolas não exploradas, 300 milhões de pessoas e praticamente uma só língua.

Lá na frente, realizada a nossa comunidade sul-americana e fortalecidos nossos interesses econômicos, culturais e sociais, poderemos abraçar outras fronteiras. Que não cairão sobre nós, mas se abrirão para nós.

(*) O autor, João Herrmann Neto é deputado federal pelo PPS/SP, membro da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional e membro da Comissão Parlamentar Conjunta do Mercosul. E-mail : jhnsp@uol.com.br