08 de julho de 2026
Geral

Uma nova leitura da Revolução de 1932

Redação
| Tempo de leitura: 6 min

Segundo historiadora, Revolução pode ser compreendida a partir de diversas leituras, distintas da versão oficial

Qual acontecimento histórico será comemorado amanhã, dia 9 de julho? A Revolução Constitucionalista de 1932 tem versões ainda pouco exploradas e bastante relevantes para aqueles que desejam entender as comemorações sob uma leitura distinta da visão oficial. É o que acredita a historiadora Lídia Possas, professora do Departamento de Ciências Políticas e Econômicas do câmpus de Marília da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

Graças a uma lei promulgada em 1997 pelo ex-governador Mário Covas, morto este ano, 9 de julho é feriado estadual em comemoração ao aniversário da Revolução Constitucionalista de 1932. A revolução foi um movimento militar no qual o Estado de São Paulo lutou contra as tropas do estão presidente Getúlio Vargas, que havia derrubado o governo dos grandes latifundiários de São Paulo e Minas Gerais e abolido todas as instituições, do Congresso Nacional às câmaras municipais. O 9 de julho é o momento em que São Paulo decreta a sua insubordinação frente ao Governo Federal de Vargas, que era apoiado pelos tenentes - o movimento mais forte em termos de exército, explica Lídia.

A historiadora enfatiza a importância da reflexão sobre os fatos históricos comemorados, como no caso do 9 de julho. Comemorar nos permite rever versões. Toda vez que você comemora, você está no presente. E é esse presente que faz com que você reveja o passado, porque no passado ninguém mexe. O passado está dado, disse.

O papel feminino na Revolução de 32 é destacado por Lídia, já que, apesar de sua extrema importância no período, foi praticamente esquecido durante muitos anos. As mulheres paulistas tiveram maior visibilidade em 32. Elas, assumindo suas posições ainda de dependentes, subordinadas a seus maridos numa sociedade patriarcal, foram solicitadas enquanto enfermeiras, costureiras, mobilizadoras de alimento para mandar para o fronte. Houve uma mobilização em São Paulo jamais vista. Elas sentiram que poderiam ter outro papel fora do doméstico. Neste momento, as mulheres adentraram ao espaço público e com apoio do discurso machista da época. Isso, para elas, representou um avanço, colocou.

Outro aspecto salientado pela professora é o não-envolvimento da classe operária de São Paulo na revolução, aspecto comumente omitido nas versões oficiais da história. Uma classe não foi envolvida. Foi a classe operária, que tinha organização. Os paulistas tinham medo de dar armas aos operários, porque eles já estavam organizados dentro do partido comunista. Os operários, então, não se envolveram na Revolução de 32 por uma decisão do governo revolucionário paulista. Existe toda uma versão que vai mostrar que a revolução se deu, mas os operários, os assalariados de São Paulo não participaram. É um enfoque que praticamente ninguém tem ciência. Na versão oficial, a revolução foi um movimento de todos os paulistas, expôs.

Os exemplos citados pela historiadora indicam que o fato histórico pode ter significados distintos, de acordo com os aspectos enfatizados por quem conta a história. Para os operários significou uma coisa, para a classe média outra, para os militares outra, para a oligarquia paulista outra. Você vê as criações e os interesses diversos, que o discurso oficial não vislumbra, observou.

A revolução paulista

A característica tipicamente paulista é mais um aspecto destacado por Lídia, já que muitas versões deste fato histórico passam a mensagem de que o movimento teve coesão nacional e mobilização de todos os estados do País por uma nova Constituição. Ela explica que o presidente Vargas havia criado um projeto político que excluía os paulistas que, até então, eram donos do poder. Nitidamente, foi uma briga política, de dois projetos políticos: um varguista, altamente centralizador. De outro lado, um projeto político federativo, que pretendia que o Brasil permanecesse nas mãos das oligarquias rurais. A Revolução de 32 é uma revolução realmente paulista no sentido de retomada da hegemonia do poder. São Paulo ficou sozinho. A revolução não é um movimento de expressão nacional pela constitucionalização do País. Os paulistas utilizaram essa versão para ter uma adesão nacional, interpretou Lídia.

A derrota paulista, após três meses de guerra, é utilizada com perspicácia pela elite detentora da versão oficial sobre o 9 de julho e atenuada nas comemorações. Em contrapartida, o ato de rebeldia dos paulistas é exaltado. Essa derrota não pode ser trabalhada pelo discurso oficial. Ela é minimizada, e sobra o ato de rebelião, que é comemorado. Ninguém fala na derrota. A força está na instituição do fato: os paulistas se rebelaram em 9 de julho de 32, disse Lídia.

A construção da História

A professora encara o fato histórico como produto de uma construção. Determinados olhares projetam mais o político, ou o social, o econômico, o cultural. Há muitas possibilidades de versões e de análises. São todas versões. Nós podemos fazer novas leituras. Isso até consolida outros sujeitos. Você amplia e se remete a outros segmentos sociais.

Lídia acredita que a tendência atual é de ampliação da História, buscando sua totalidade e dando vozes a outros sujeitos históricos. O grande momento é de tirar da História essa predominância de que um grupo faz a história. Se você fica numa versão que representa um segmento, você restringe a possibilidade de ter uma realidade mais ampla, opinou.

Essa é uma preocupação da historiadora também no que tange ao conteúdo ensinado nas escolas. O que deveria ser trabalhado nas escolas são as possibilidades de reconstrução. Cada presente tem a possibilidade de colocar novas questões, reafirma.

Essa concepção de História estaria relacionada às atitudes dos indivíduos de uma sociedade enquanto cidadãos e personagens de uma História que se cria diariamente. O grande problema da História é que ela nos tirou da História, privilegiando alguns cidadãos. Grande parte da nossa cidadania é comprometida por essa visão: uns fazem a História, os outros observam e aguardam - é uma versão messiânica, sempre estamos esperando um messias, um líder. Nós estamos esperando que a nossa solução alguém vai nos dar. E nós aguardamos, acrescentou a historiadora.

Singularidades

O movimento iniciado em 9 de julho, há 69 anos, teve muitas peculiaridades que fogem às leituras convencionais. Uma delas é a utilização do avião na guerra. De acordo com Lídia, ele era usado para panfletar, estimulando os paulistas a permanecer na guerra e mobilizando o meio rural. Foi a primeira vez que se usou o avião como arma de guerra, principalmente para panfletagem. Aviões tipo teco-teco lançavam panfletagens estimulando os paulistas a permanecer na guerra, criando clima e motivação para permanecer no movimento. A panfletagem nos campos era muito comum: permaneça conosco, ganharemos a guerra, venceremos o governo do Getúlio Vargas. Isso foi muito usado, conta.

Outra singularidade do movimento de 1932 foi a invenção de falsas matracas, usadas para enganar as tropas inimigas. Eles inventaram uma matraquinha que fazia barulho para dizer que tinha bala, para assustar o inimigo. Como eles não tinham recursos financeiros e técnicos para montar uma metralhadora, eles faziam com madeira, pregos e arames, que faziam o mesmo barulho das matracas verdadeiras, disse a professora.

O fato histórico comemorado amanhã foi também um grande marco na história dos meios de comunicação, no Brasil, ainda que muitos não saibam. Como foi importante o uso do rádio na revolução de 32! A década de 30 era o momento do rádio, com que o Brasil inteiro passou a se comunicar, a partir de então. A revolução de 9 de julho usou muito o rádio, até para dar notícias de que estavam ganhando a guerra, afirmou a professora.