09 de julho de 2026
Geral

"Cuesta abajo"

(*) Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 3 min

Os capitalistas de alguns países que mandam no mundo econômico dizem entre eles que o Brasil corre risco justamente porque não segue à risca o receituário liberal. Está às voltas com déficits em seus balanços de pagamento e com suas despesas públicas maiores do que as receitas. Deixou de fazer a reforma tributária que iria facilitar o ingresso de novos capitais externos; quis economizar onde não devia provocando a crise energética; tornou-se dependente do Mercosul, o que significa da Argentina, país que vive das ilusões passadas, como na letra do velho tango - cuesta abajo en derrocada.

Ia esquecendo a crise política. O recém- falecido geógrafo Milton Santos, em entrevista reprisada post-mortem pela TV Cultura, dizia que nós, brasileiros, não vivemos numa democracia. Um país democrático é aquele onde suas necessidades básicas são discutidas pelos cidadãos, há uma participação de todos os setores interessados em planejar a melhor destinação dos recursos. Aqui, não. Tudo obedece a uma lógica eleitoral. Os administradores públicos agem de acordo com a conveniência político-partidária. Conquistado o poder, divide-se o butim. Cada qual com o seu pedaço do bolo até que, de repente, alguém resolve tomar o quinhão do outro para reforçar a sua própria ração de poder ou de votos. O dinheiro do povo é usado para manter coesa a base partidária que dá sustentação aos governos. Fora daí, nada é importante.

Banqueiros, empresários e aplicadores jamais iriam assistir a tudo sem procurar proteger o próprio patrimônio diante de um país fragilizado pelas próprias mazelas. Percebe-se no cheiro aquela atmosfera de fim-de-feira. Nota-se que a oposição vai ganhar as eleições. Pelo menos o primeiro turno está garantido. A classe média já decidiu a experimentar o operário. Se o metido a Sartre não deu em nada, quem sabe o seu oposto, um metalúrgico de menas importância intelectual, mas hoje amadurecido pelas sucessivas pelejas.

Enquanto isso, quem tem o que perder trata de se garantir com moeda forte. Bobagem maldizer o poder econômico desse mundo global. Qualquer dono de oficina, se tiver algum, trata de fazer hedge, ou seja, de se garantir com os retratinhos de Benjamin Franklin. Não há Banco Central que segure. Nem adianta tentar seduzir o capital especulativo com juros altos.

No Brasil, o Estado liberal é confundido com Estado fraco. O acervo intelectual do liberalismo ensina algo bem diferente. Em Investigação sobre as Causas da Riqueza das Nações, por exemplo, Adam Smith dizia, em 1776, que a economia de mercado deve respeitar o interesse individual, assegurado pelo estado de direito. Os movimentos de compra de dólar, a meu ver, desta vez não são especulativos. Os especuladores já caíram fora há tempo. Aqueles que ficaram porque não podem de uma hora para outra abandonar o que foi construído com tanto esforço, são justamente os que procuram, desesperadamente, o guarda-chuva do dólar.

Salta aos olhos - os custos das dívidas públicas são cruéis para o Brasil. A crise energética deixa evidente que as contas não vão fechar. A entrada de divisas com que se contava no início do ano para equilibrar as contas, não vai acontecer, mesmo porque é impossível privatizar hidrelétricas sem água em seus reservatórios. Essa perda substancial de autonomia vai nos empurrando gradativamente para uma submissão irrestrita ao FMI. Para podermos atrair investimentos. Submissão que também não opera milagres se o aluno não faz os deveres de casa.

Quem quiser ajuda do FMI deve ler direitinho na cartilha onde a lição número um só tem uma frase: gastar menos e produzir mais.

(*) Zarcillo Barbosa é jornalista