Vincent sentia um forte desejo de fazer de sua vida algo de especial e realizar o bem às pessoas. Aquele jovem idealista, filho de família cristã, começou então bem cedo a trabalhar na pastoral de sua igreja. Mais tarde, fez a opção de doar toda sua vida à pregação da Boa Nova de Jesus Cristo e de viver concretamente o amor à Deus e ao próximo. Apesar de seu entusiasmo e alegria no serviço às comunidades, Vincent foi rejeitado por sua igreja para o trabalho pastoral. Esta decisão deixou o jovem desorientado. Sem saber para onde ir e muito menos o que fazer, Vincent possuía uma única certeza: sua vontade de ser feliz e contribuir para a felicidade dos outros. Como não havia aprendido nenhum ofício, o jovem começou a desenhar e a vender seus desenhos nas ruas da cidade onde vivia. Com o tempo, Vincent foi desenvolvendo um amor especial pela arte e descobrindo que seus desenhos sensibilizavam as pessoas para a beleza da vida e para a existência do Criador. Não demorou muito para Vincent deixar o preto e branco do desenho e fazer experiências com as tintas. Com sua pintura de cores fortes e traços firmes, Vincent conseguiu dar espaço de criação para aquele impulso de vida que possuía em si. Apesar de não ter trabalhado na pastoral de sua igreja, Vincent não perdeu sua força religiosa, pelo contrário, foi justamente dela que nasceu sua expressão artística. E se Vincent tivesse permanecido na pastoral de sua igreja, hoje provavelmente o mundo não conheceria os famosos quadros do artista plástico Vincent van Gogh.
Movido por uma força, quase um instinto, um desejo natural de realizar-se e ser feliz, o ser humano está em constante transformação e processo de aprendizado. Este impulso de vida leva-o a um desenvolvimento físico e mental, a tentar superar as barreiras e as dificuldades que a vida lhe impõem. Esta força interior o motiva a transformar sua realidade quando esta o escraviza, o reprime, enfim, quando esta o faz infeliz. Este desejo libertador faz com que o ser humano aproxime-se de outros seres humanos e viva um processo de socialização, levando-o à comunicação com os outros e com o mundo. Este mesmo desejo de viver e ser feliz leva-o a aproximar-se de alguém e a viver um relacionamento de amor. Esta força, este desejo que move o ser humano para a vida denominamos de religioso. O fenômeno religioso não possui necessariamente uma ligação com religião ou credo oficial. Ele é, em primeiro lugar, um impulso natural que nos movimenta para o autoconhecimento, para a descoberta do sentido da vida e para nossa realização como pessoa. O religioso (religio - religere - religare) é a força que nos leva a encontrar nossa origem, que nos faz buscar a felicidade algum dia perdida. O religioso constitui-se no processo de auto-realização do ser humano, ou seja, em seu movimento de transcendência, como também, em sua relação com o Transcendente, com aquele que chamamos de Deus.
Por meio do religioso, o ser humano transcende seu ser biológico, deixa de ser simplesmente animal e somente a partir daí torna-se, na verdade, um ser verdadeiramente humano. O fenômeno do religioso em nós é todo movimento de/pela vida: o nosso desenvolvimento físico, a nossa sexualidade, a exteriorização de nossas emoções, o desenvolvimento intelectual e a nossa espiritualidade.
Ele é o processo que nos humaniza, tornando-se assim a base da relação social.
Enfim, o religioso nos coloca em constante transrealização.
Quando o ser humano procura viver este impulso de vida de forma consciente, surgem, então, os diversos tipos de religiosidade e de religião. A religiosidade é uma expressão individual deste movimento de transcendência e da relação do homem com um ser transcendente. Esta relação possui um caráter íntimo e particular. Por isso a religiosidade difere de pessoa para pessoa. A Religião, ao contrário, é uma forma coletiva de viver este impulso de/pela vida.
Através da religião pertencemos a uma comunidade de fé que através de doutrina, normas e culto procura viver de forma coletiva o religio. Desta forma, o ser humano pode ser religioso, sem ter contato com uma religião oficial, como também uma religião oficial pode afastar-se do fenômeno religioso, podendo até mesmo reprimi-lo. Isso acontece quando a religião torna-se instrumento de repressão, manipulação ou exploração, quando a religião gera tabus, pré-conceitos ou medos, inibindo, assim, o processo de transcendência humana. Por isso é fundamental a consciência crítica diante de qualquer manifestação religiosa e a confrontação desta com nosso anseio de vida e de felicidade. Afinal, não existe um caminho para a felicidade. A felicidade é o caminho (Ghandi).
Padre BetoEspecial para o JC Cultura
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