09 de julho de 2026
Geral

Inovação é atual tônica para empresas

Fabiano Alcântara
| Tempo de leitura: 6 min

Economista e mestre em Administração, Sandra Regina da Rocha Pinto defende que termos como recursos humanos e carreira são coisas do passado. Para ela, a gestão de pessoas assume novos desafios com o ambiente em mudanças. Cada vez mais os profissionais experientes vão colaborar com redes de empresas, desenvolver projetos especiais e firmar parcerias. A vida profissional seria gerida como em uma empresa. Estas são algumas das projeções de Sandra, que vai coordenar o Master of Business Administration - Gestão de Pessoas em Ambiente de Mudanças, em Bauru, pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e Diagrama Consultoria.

A pesquisadora entende que as empresas de hoje devem ser pró-ativas, ou seja, elas só vão sobreviver se conseguir causar impacto no ambiente que opera. Segundo ela, a inovação é a nova tônica e precisa de pessoas capazes de ter novas idéias e de colocá-las em prática. Esta semana, ela concedeu entrevista para o Jornal da Cidade, no Garden Trade Center, pouco antes de proferir a palestra O Novo Papel do Gestor de Pessoas.

Jornal da Cidade - Por que deixou-se de usar o termo recursos humanos para adotar gestão de pessoas?

Sandra Pinto - Esta é uma boa pergunta. É porque recursos humanos incute a idéia de que seja alguma coisa que esteja disponível na organização para ser utilizada de uma forma instrumental. A idéia é a seguinte: você teria recursos materiais, financeiros e humanos, como se fosse uma coisa. Então, se fala em gestão de pessoas, até porque trazendo este componente pessoa humaniza. Este é um olhar que vem para a questão do ser humano nas organizações. Com este termo, você amplia a visão do ser humano na organização.

JC - E qual seria o novo papel do gestor de pessoas?

Sandra - Na gestão de pessoas, sobretudo quando nós olhamos a partir da proposta do curso Gestão de Pessoas em Ambiente de Mudança, podemos observar duas vertentes. A primeira é que qualquer pessoa que ocupa um cargo gerencial possa entender a gestão de pessoas como uma função estratégica atualmente.

A outra é que o próprio RH se questione enquanto função, expandindo a sua missão dentro da organização. Não sendo mais estritamente burocrática, não sendo mais aquela área que só recruta e seleciona. Não sendo a área que treina e, eventualmente, despede. É para ser percebida também como uma área que ajuda a empresa a desenvolver competências que ela precisa. Se colocar assim, estas pessoas precisam entender de negócios também.

Por isso, nossa proposta de curso é trazer este questionamento para área tradicionalmente chamada de RH ou departamento de pessoal, isso varia de empresa para empresa.

JC - O nome do curso fala em gestão em ambiente de mudanças. Que mudanças são estas?

Sandra - As mudanças que estão aí postas pela globalização, sobretudo nas alterações do mundo do trabalho, inclusive do próprio sentido de carreira. Hoje, não faz muito sentido falar em carreira, mas sim a pessoa colocar o encarreiramento, a ponto de ser um empreendedor, uma empreendedora. O que está em mudança hoje é o próprio ambiente de negócio. O que nós temos como dado é que o trabalho, o emprego, não é mais como era antigamente. A própria condição de emprego, pelas estratégias que as empresas tem feito, na busca da flexibilização, está mais ligada a parcerias. Muitos antigos funcionários se tornam parceiros do negócio.

Então, a mudança é o que vem sobretudo pelas implicações do reposicionamento estratégico das organizações. Hoje, as organizações entendem que elas precisam indicar quais são os seus processos-chave, o foco, e elas tiram tudo de dentro da empresa que não tem a ver com o negócio, o chamado de atividade meio ou processo de apoio. Essas atividades meio e processo de apoio começam a formar negócios fora da organização. Muito provavelmente, com as próprias pessoas que estavam ali.

A tônica agora é a inovação, se não inovar sucumbe. A empresa não pode mais se dar ao luxo de agir de uma forma reativa, ela tem que sempre ser pró-ativa. E nessa hora que vem a dimensão humana, da gestão, a gestão do conhecimento empresarial de uma forma mais ampla. As mudanças são estas, não se tem mais um caráter instrumental, não se pode ter mais uma visão extremamente burocrática do negócio. A flexibilidade vem como uma tônica, e para isso as empresas e as pessoas precisam de um questionamento do que é o emprego, o trabalho, o que é a empresa hoje e o indivíduo no trabalho.

JC - O que vem a ser o conceito de empregabilidade?

Sandra - É você enquanto indivíduo colocar a sua carreira, o seu desenvolvimento profissional, no sentido de algo que pode acontecer ou não dentro de uma empresa.

Então, nesta hora, a empregabilidade é você ter uma condição de se sustentar, de transitar no mercado. Uma hora estar em uma empresa, outra estar desenvolvendo um projeto de forma autônoma. Logo mais prestar um serviço, obviamente dentro dos limites da ética. Não mais na perspectiva de entrar e fazer carreira na empresa. Hoje não podemos ter isso em mente.

Antigamente entrava-se em uma empresa como office-boy e tinha aquela possibilidade de ascensão profissional. Hoje, as coisas não acontecem assim necessariamente. Então o que é ser empregado? É pensar em ter uma ascensão profissional na empresa ou não. Eu mesmo ter o meu negócio. Ou eu mesmo ser um parceiro. Ou eu atuar em uma rede de negócios, levando a minha competência. A empregabilidade é a pessoa administrar a sua própria carreira como se fosse uma empresa. É pensar o que eu sou? Quais são as minhas habilidades? No que eu sou competente? Onde eu quero chegar com isso? O que eu tenho hoje e o que eu preciso ter? É trazer para si as responsabilidades do encarreiramento, não mais seguir os passos protegido por uma empresa.

JC - Qual é a importância das empresas funcionarem como uma extensão da escola?

Sandra - A importância se dá, sobretudo, porque hoje uma empresa não pode se dar ao luxo de observar o que está acontecendo no mercado para reagir, tentar acompanhar. Hoje, uma empresa que vai sobreviver é a que traz os elementos de impacto para o ambiente onde ela opera, atuando de forma pró-ativa. Ao invés de esperar algo acontecer no mercado para correr atrás, eu mesmo enquanto empresa provoco esta inovação. Agora, para a empresa conseguir provocar esta inovação, ela não faz isso sozinha, nem puramente abastecida com tecnologia, precisa de pessoas que façam isso. Esta questão do investimento, na capacitação, o desenvolvimento na competência das pessoas, se dá por conta disso. A idéia teórica é que a pessoa, ao conhecer o negócio e estar comprometida com aquilo, ao se sentir envolvida, capacitada, ela mesma vai estar gerando idéias, que é a base da inovação. A inovação é uma idéia materializada, idéia concretizada. Uma idéia pela idéia não é nada. Para se constituir a inovação é preciso ter a materialidade.

Serviço

Curso MBA Gestão de Pessoas em Ambientes de Mudança, da Fundação Getúlio Vargas. Início: a confirmar. Aulas aos sábados, das 8 às 18 horas, na Diagrama Consultoria, Garden Trade Center, piso C1, rua Júlio de Mesquita Filho, 10-31. Informações: (14) 224-3209/ 227-6673.