Dez em cada dez trabalhadores brasileiros, particularmente os das classes B e C, alimentam o sonho da casa própria por, no mínimo, um terço da vida ativa. Com exceção dos abastados, bem-remunerados e donos de grandes heranças, o resto da população tem que se desdobrar para conseguir sair do famigerado e descompensador aluguel. E num País de salários baixos e de economia inconstante, sem falar da cultura anti-poupança, difícil guardar dinheiro para comprar um imóvel. Por essas razões, só mesmo os financiamentos a longo prazo e os projetos coletivos de moradia popular para tornar possível o sonho do lar doce lar.
Conseguir efetivamente a propriedade de um imóvel, no entanto, vai muito além do aval dado pelos agentes financiadores. Mesmo aprovadas pelas exigentes cartas de crédito ou pelos programas de habitação popular, muitas pessoas enfrentam um mar de dificuldades para cumprir o compromisso de pagar a casa própria. Ao contrário do que deveria, a política habitacional parece remar contra as possibilidades da clientela, mantendo juros e indexadores incompatíveis com a realidade dos salários. A previsibilidade inicial - aqui falamos de prazos para pagamento e valores de prestações - cai por terra com o passar dos anos e o sonho do imóvel próprio torna-se um pesadelo interminável.
O financiado da Caixa Econômica Federal (CEF), por exemplo, vem enfrentando dificuldades para pagar as parcelas em atraso nos últimos meses. Por conta de um realinhamento das diretrizes do produtos, segundo palavras do gerente de mercado Wanglei Rodriguez Tau, a instituição suspendeu a possibilidade de se pagar parcelas atrasadas individualmente, ou seja, ou mutuário paga todas as prestações pendentes ou nada.
A medida dificulta a vida de quem está querendo, aos poucos, colocar as dívidas em dia. O próprio gerente da CEF reconhece isso, mas avisa que a situação logo voltará a ser como antes. É uma suspensão temporária. Num futuro breve, o procedimento voltará como antes ou sofrerá alterações em benefício do próprio mutuário, porque do jeito que está realmente fica difícil. O objetivo da Caixa é facilitar a aquisição da casa própria e não dificultá-la, assegurou. Já quem paga as prestações para a Companhia de Habitação Popular (Cohab) de Bauru enfrenta outros tipos de problema. Na Cohab, faz-se qualquer negócio quando se trata de pagamento; aceita-se uma, duas e até meia parcela pendente. A questão na Companhia emperra na efetivação da propriedade do imóvel. É o que vem acontecendo com mutuários de núcleos antigos como o Geisel e Redentor, locais onde a maioria dos imóveis já foram praticamente quitados.
Dívidas da Cohab com a empresa seguradora vêm impedindo a liberação dos termos de quitação e, conseqüentemente, a regularização das escrituras em nomes dos titulares de direito. A previsão é de que o problema se resolva até o final do ano que vem, exigindo paciência dos proprietários que desejam transacionar seus imóveis.
Na outra ponta do assunto, os agentes financiadores também enfrentam suas dificuldades, concentradas, fundamentalmente, na inadimplência. Bauru não extrapola os índices médios, mas também não serve de exemplo para ninguém. Na CEF, que age com mais rigor contra os devedores, o índice de inadimplência é de 8,19%, levando em conta o número de parcelas atrasadas há mais de 60 dias. Já na Cohab, a situação é muito mais complicada, com mais da metade dos contratantes devendo três ou mais parcelas. A Companhia de Desenvolvimento Habitacional Urbano (CDHU), que, em Bauru, só administra o Núcleo Fortunato Rocha Lima, não tem sorte diferente. Apesar do valor baixo das prestações - em torno de R$ 17,00 -, a inadimplência supera os 80%, o que reafirma, na visão da empresa de habitação estatal, o insucesso do projeto que ergueu o referido núcleo. O Fortunato (criado para desfavelar o município) foi o maior engodo em toda a história da construção do CDHU e da cidade, exalta-se Élio Busch, gerente regional da Companhia.
A questão habitacional só não é mais séria em Bauru - pode-se dizer que no Estado todo - porque a tolerância dos agentes financiadores é grande. De todos, a CEF é o mais rigoroso, especialmente porque sua clientela encontra-se numa faixa de renda média, em tese, com melhores condições de honrar os compromissos.
O mesmo não ocorre com Cohab e CDHU, que atendem à faixa mais pobre da população. Ambas vêm suportando longos períodos de inadimplência sem fazer valer, a ferro e fogo, os direitos que a lei lhes confere. Se estivessem cumprindo o processo de retomada à risca, não haveria espaço para tanta favela em Bauru, comentou, aliviado, Paulo Ferreira, presidente da Associação de Mutuários, Moradores e Amigos do Mary Dota.