É mais do que sabido que a reciclagem é parte importante da solução do problema do lixo não só no Brasil, mas em qualquer lugar do planeta. No entanto, esse procedimento não depende apenas de um agente, mas sim de vários personagens que precisam atuar de forma consciente e comunitária. A sociedade, a iniciativa privada e os governos em todas as esferas protagonizam simultaneamente papéis de fundamental importância para que um programa de reciclagem seja vitorioso.
Em primeiro lugar, é imprescindível que os cidadãos criem o hábito de separar em casa o lixo orgânico do inorgânico. Dessa maneira, valorizam-se os materiais destinados ao processo de reciclagem. O próprio morador pode colaborar ainda mais levando os resíduos recicláveis aos postos de coleta localizados em cooperativas e supermercados (como incentivo, muitos desses estabelecimentos estão oferecendo descontos aos clientes que levam garrafas PET, latas de alumínio e papelão, por exemplo).
As empresas privadas que utilizam os reciclados também têm papel decisivo nesse ciclo, mas dependem diretamente de ações legislativas do governo. A economia brasileira necessita de incentivos fiscais e sociais para gerar um mercado rentável de reciclados. Com a isenção de alguns impostos, haveria ainda mais investimentos na indústria da reciclagem e consequentemente aumentaria o reaproveitamento de materiais como plástico, papel e vidro na produção.
Trocando em miúdos, as empresas envolvidas no processo de produção de matérias-primas a partir de recicláveis pagam PIS de 0,65%, COFINS de 3,65% e IPI de 5% para plásticos e 4% para outros materiais. Ainda soma-se a esse valor o ICMS cobrado pelos Estados, que gira em torno de 13%. É necessário que órgãos governamentais propiciem tratamento tributário especial para empresas que reciclam e comercializam materiais recicláveis e também para aquelas que optam por utilizar os reciclados como matéria-prima na produção de bens de consumo em geral. Com a baixa demanda atual podemos dizer que se conseguíssemos reciclar todas as garrafas PET utilizadas no país, mais da metade do poliéster obtido nesse processo não seria absorvido pelo mercado. Para que esse teatro da reciclagem saia da ficção e se torne uma atividade concreta, todos os atores dessa peça devem encarar o ciclo como algo essencial, ininterrupto e progressivo. Assim, quem sabe, um dia cheguemos à excelência de reutilizarmos integralmente os resíduos inorgânicos hoje transformados em lixo.
(*) Tito Bianchini é presidente da Abrelpe - Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais