Há muitos anos iniciaram-se as relações tanto políticas quanto comerciais entre o Brasil e a Alemanha. Como resultado, temos o grande número de empresas alemãs que se instalaram no Brasil e principalmente em São Paulo, que se transformou na maior cidade industrial alemã no mundo. O próprio acordo atômico, assinado nos anos 70 entre os dois países, representou um enorme voto de confiança no Brasil. Várias nações desenvolvidas, entre as quais os EUA, haviam se posicionado contra, imaginando que a finalidade poderia ser bélica e não pacífica. Mesmo assim, a Alemanha manteve o seu compromisso a favor do Brasil.
O comércio bilateral, infelizmente, se mantém em níveis muito modestos desde o início dos anos 90, representando as exportações brasileiras ao redor de US$2 bilhões, enquanto as importações cresceram, neste mesmo período, de US$2 bilhões para mais de US$4 bilhões. Há certamente uma triangulação de produtos brasileiros importados pela Holanda para a Alemanha, mas nunca num volume que possa igualar a balança comercial. Todo comércio com a União Européia representa para o Brasil e o Mercosul um déficit que varia de US$4 a 6 bilhões anuais.
Além disso, mais de 50% das exportações brasileiras para a Alemanha são representadas por produtos de baixo valor agregado, como minério de ferro (17%), café cru em grão (11%), soja em grão (8%) e farelo (3,3%) , tabaco em folhas (5%), etc. Por outro lado, o Brasil importa principalmente produtos de alto valor agregado, como peças para automóveis (8%), instrumentos e aparelhos de medição (3%), máquinas de impressão (3%), motores e geradores (3%), rolamentos e engrenagens (3%), motores a explosão e peças (2,5%) medicamentos ( 2,4%) e outros, - o que significa uma grande desvantagem para o nosso país.
Há na UE inúmeras barreiras que impedem a Alemanha de importar produtos agro-industriais mais elaborados, como, por exemplo, açúcar (I.I. de 73%), bananas (quota anual), café solúvel (I.I. alto e exclusão do Brasil do acordo de Kotonov e do SGP), suco de laranja (I.I. de 25%), as várias restrições a carnes como cotas e proibições e cotas da indústria têxtil. Um acordo de livre comércio entre o Mercosul e a UE levará à eliminação das barreiras tarifárias. Com a forte posição alemã dentro da UE, e considerando a amizade e o entendimento que existem entre o Brasil e a Alemanha, haverá também uma redução e eliminação gradual das barreiras não tarifárias. A Alemanha será a parceira ideal para obter da UE esse resultado, que trará ao Brasil um substancial aumento nas exportações de seus produtos agro-industriais ou agrícolas com maior valor agregado, onde o país é muito competitivo.
Haverá um enorme crescimento e um equilíbrio ou até um superávit no comércio com a Alemanha e com a UE. A própria Alemanha terá um elevação das suas exportações de produtos de alto valor agregado pelo aumento do comércio entre as duas nações, o que garantirá uma compensação para a perda de empregos no seu pouco competitivo setor agrícola. O maior fluxo de comércio propiciará a inclusão de produtos industriais também pelo lado brasileiro. Serão gerados novos empregos e um grande ingresso de divisas destinadas ao pagamento dos compromissos externos brasileiros. Estes, na sua maior parte, estão sendo cobertos hoje através de investimentos estrangeiros. Mas até quando?
(*) Wolfgang Anton Lieb é diretor do Departamento de Relações Internacionais e Comércio Exterior da FIESP/CIESP)