09 de julho de 2026
Geral

Cores influenciam na qualidade de vida

Redação
| Tempo de leitura: 7 min

As cores influenciam o comportamento psicológico e fisiológico das pessoas, até mesmo de forma inconsciente.

Quantas cores havia em seu prato de comida na última refeição? A pergunta pode parecer estranha, mas as cores, sejam elas de objetos, ambientes, alimentos, roupas etc, são fatores que podem influenciar comportamentos psicológicos e fisiológicos das pessoas. É o que defende o médico e artista plástico Eduardo Cunha Farias, que é professor associado do Departamento de Histologia e Embriologia da Universidade de São Paulo (USP) e trabalha há 28 anos com cores.

O pesquisador afirma que as cores influenciam o homem até mesmo de forma inconsciente. Você pode não prestar atenção ou não estar atento ou consciente de uma determinada cor predominante num ambiente. Porém, enquanto você estiver sujeito a essa cor - estando no seu campo de visão, de percepção -, ela está te determinando várias reações, garante.

Tais reações podem ser psicológicas ou fisiológicas. Farias exemplificou reações fisiológicas a partir da cor vermelha. Por exemplo, se você ficar exposto ao vermelho, do ponto de vista fisiológico, você vai ter aumento de pressão sangüínea, aumento de freqüência respiratória, aumento do metabolismo como um todo, explicou.

As influências psicológicas podem ser positivas ou negativas, de acordo com o professor. Com o vermelho, você tem, num primeiro momento, um efeito euforizante, excitatório. Mas depois, se você continuar exposto, começa a te dar sensação de opressão. Se você ficar muito tempo neste ambiente, você tem a sensação de que o teto está baixando. Ou de que uma parede está se aproximando de você. Isso é um efeito puramente psicológico. É uma sensação. O vermelho aquece e você tem a sensação de que a temperatura está mais elevada. O vermelho também te dá a sensação de que o tempo está passando mais rápido, expõe.

Já as influências da cor azul no cotidiano das pessoas seriam opostas às do vermelho. Tudo isso que eu disse para o vermelho você pode dizer exatamente o oposto para o azul, observou. O azul tem propriedades calmantes, traz sensação de espessura. Recomenda-se tetos de recintos onde ficam pessoas acamadas durante muito tempo, que se pintem de azul. É como se você mergulhasse. Parece que o teto é muito mais alto e a sensação é que você se perde naquele azul. Isso te dá uma sensação de prazer, acrescentou.

Apesar das variações de intensidade das reações provocadas pelas cores, que dependem da sensibilidade de cada indivíduo, o pesquisador afirma que seus efeitos são universais. Algumas pessoas são mais sensíveis. Outras, menos sensíveis, mas o efeito é universal. Varia apenas a intensidade, de acordo com a sensibilidade da pessoa - como tudo, disse.

Farias garante que a predominância das cores em ambientes, por exemplo, tem resultados práticos. Sendo assim, ele sugere uma análise apurada da finalidade de cada ambiente e dos perfis e características psicológicas das pessoas que permanecerão no local, para que se encontre a cor adequada a ele. Pintaram ambientes internos de uma penitenciária de rosa. Diminuiu expressivamente a agressividade, brigas e até mortes entre os detentos, afirmou.

Outro exemplo citado pelo professor foi das influências climáticas nas cores do céu e, conseqüentemente, no comportamento das pessoas. A média de suicídios diários em São Paulo é da ordem de sete pessoas. Quando você tem períodos nublados, isso aumenta bastante. Esse número vai para onze, doze, quase dobra. As pessoas sentem-se mais tristes em dias nublados, expôs.

O colorido dos alimentos nas refeições é outro aspecto destacado por Farias. Quanto mais colorida for uma refeição, primeiro mais equilibrada ela é do ponto de vista nutricional: muitas cores significam muitos ingredientes. Conseqüentemente, você tem uma diversidade maior de nutrientes. E você tem todo o prazer visual contemplativo, que às vezes até compensa o gustatório, esclarece.

Ainda que as cores dos ambientes devam ser pensadas de acordo com os perfis das pessoas que utilizarão o local, algumas sugestões podem ser feitas para coletivos. É o caso de cidades. A dica deixada por Farias é para que se preencham os espaços urbanos com diversas cores. Para isso, ele propõe o emprego de muitas flores e a pintura de construções com cores luminosas. Se você pintar a cidade, é uma festa permanente. Isso te anima, te dá prazer, compensa tuas tristezas. Num ambiente colorido, luminoso, a gente se sente melhor, por pior que seja a situação. A cor nutre a nossa alma. A gente tem que pensar com mais carinho nas cores e usá-las de uma forma mais consciente, conhecendo-as melhor e tirando benefício disso, propôs.

Arquitetura

O estudo das cores pode ser aplicado a diversas áreas do conhecimento, como Pedagogia, Biomédicas, Semiótica, Marketing e Propaganda, entre outras. A Arquitetura é mais uma delas e a preocupação com as cores pode ser observada no trabalho de alguns arquitetos de Bauru. É o caso do professor José Xaides de Sampaio Alves, do Departamento de Arquitetura, Urbanismo e Paisagismo da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

Xaides conta que a cor historicamente sempre foi utilizada, principalmente na arquitetura popular. Se a gente pegar a arquitetura mineira e nordestina, a gente percebe que, em culturas fortes, nunca se teve preocupação em não utilizar a cor. Pelo contrário, observou.

Foi a partir da arquitetura moderna que os profissionais começaram a evitar os coloridos, com o objetivo de diferenciar o trabalho do arquiteto do trabalho do artista plástico, de acordo com o professor. Nas décadas de 40, 50 e 60, no Brasil, havia uma preocupação de valorizar o trabalho do arquiteto no sentido de seus aspectos interiores, volume e formas dos prédios. A arquitetura estava mais ligada a materiais de concreto e vidro; não texturas e cores. O concreto acabou ficando como marca de espaços urbanos. É o caso das obras de Niemeyer, explicou.

A cor entra de forma mais intensa na Arquitetura na década de 90. Trabalhos vinculados à Psicologia da Forma e da Cor propiciaram a reabertura do caminho para o uso da textura, de materiais de revestimento e da cor. Em Bauru, obras até mesmo anteriores a esse período apontam para essa tendência. Edifícios modernos importantes, como o Brasil-Portugal, utilizaram a cor com clareza e cuidado, observou Xaides. Isso mostra que a utilização da cor é possível, quebrando a tendência de uso de tons cinzas - que demonstram despreparo e insegurança de arquitetos e engenheiros, enfatizou.

Projetos de Xaides, entre eles escolas e creches municipais do período em que o arquiteto foi o titular da Secretaria Municipal de Planejamento (Seplan), denotam o emprego do colorido em espaços urbanos. Nas escolas e creches, procuramos utilizar a cor como um elemento que criasse um espaço mais alegre, atrativo e motivador, quebrando a idéia de algo monótono, cansativo, disse.

Atualmente, outro projeto de sua autoria e que segue essa tendência é a reforma do Hospital da Sociedade Beneficente Cristã (antigo Paiva). Foi realizado um estudo para empregar adequadamente as cores em ambientes de internação, corredores, áreas de lazer e dormitórios, entre outros. Existem pesquisas e trabalhos diferentes que mostram as reações positivas ou negativas das pessoas às cores. O que importa é usar com conhecimento, sabendo o que é o espaço e qual é a importância dele. Em hospitais, por exemplo, se você usar a cor errada, pode atrapalhar um tratamento, advertiu. Mas a cor é um elemento de valorização. Não podemos ter preconceitos contra ela, acrescentou.

A influência das cores

Azul - É uma cor fria, calmante e traz sensação de espessura. O uso do azul tem que ser bem dosado. Se uma pessoa depressiva abusar de seu uso, ela pode entrar em surto. Para a pessoas muito agitadas e que estão numa fase boa da vida, ele é bom, afirmou o pesquisador Eduardo Cunho Farias.

Rosa - Traz sensação de aconchego e remete a lembranças agradáveis, como da infância. O rosa é uma cor muito ligada à infância, disse Farias.

Verde - Tem propriedades relaxantes, diminuindo ansiedade e angústia.

Laranja - É uma cor energizante. No entanto, tem seus aspectos negativos, de acordo com o professor Farias. Ela é bastante usada em ambientes em que contratos são assinados. Quando você fica exposto ao laranja, você tende a ficar menos cauteloso, menos desconfiado, mais impulsivo. Então, pode assinar contrato sem ler. É a cor que mais induz ao consumo impensado, impulsivo. Isso pode ser muito mau usado, advertiu Farias.

Branco - Remete a pureza, higiene e paz. O grande efeito do branco, não só entre os humanos, mas entre os animais também, é o efeito passificador, afirmou Farias.

Cinza - É uma cor fria e neutra, tornando as pessoas mais introvertidas e deprimidas. O cinza dá um certo grau de invisibilidade. Ele se confunde com o jogo de luz e sombra do ambiente e desaparece. Os carros, ao contrário de antigamente, procuram ser discretos. O que predomina massiçamente são tons de cinza e prata, para chamar o menos possível a atenção e você ficar menos sujeito a agressões, roubos, assaltos, analisou o pesquisador.