Muitos moradores do Fortunato responsabilizam um homem pela vida tranqüila de hoje em dia. Ele, que será chamado de MC nesta matéria, não gosta das alcunhas de justiceiro, rei do Fortunato ou xerife que insistem em lhe colocar. Aos 32 anos, dos quais nove foram passados na cadeia por crime de homicídio, MC diz que a fama que adquiriu no bairro tem uma única razão: exigir respeito à sua família e aos homens de bem.
Com a condição de não ter o nome revelado e nem ser fotografado, MC topou receber a reportagem do Jornal da Cidade dias atrás, na presença da família e alguns amigos. Aguardá-lo na porta de casa - ele havia saído quando chegamos - chamou a atenção da vizinhança. Por se tratar de um jurado de morte, a espera não foi das mais confortáveis, mas o receio passou depois de duas horas de entrevista descontraída, que teve um rap como música de fundo.
MC saiu contando sobre o homicídio que cometeu, em 1987, na cidade de Laranjal Paulista. Segundo ele, a atitude extrema foi tomada por precaução. Eu, mais minha mulher, grávida de seis meses, e meu filho de um ano morava (sic) num lugar onde também existia a função. Me ameaçaram bater em bando porque não foram com a minha cara. Um dia, um amigo meu que trabalhava comigo no corte de cana, me avisou que os cara (sic) iam me pegar em casa. Como eu morava numa casa metade barro, metade tijolo, fiquei com medo e arrumei um 32 (revólver) com um camarada. No outro dia, eu saí com outro camarada por causa de uma briga dele e acabei dando de cara com os que queriam me pegar. Eu atirei e quis o cão que pegasse bem no coração. O homem morreu na hora. Fui condenado a 14 anos, mas, como era primário, cumpri só nove.
MC veio para Bauru ainda quando cumpria pena semi-aberta no Instituto Penal Agrícola (IPA), onde ficou por um ano e três meses antes de ganhar a liberdade. Foi nessa época em que conheceu a atual mulher, que residia na Ferradura Mirim e participava do mutirão do desfavelamento.
Quando a casa estava em vias de ficar pronta, MC foi para a cidade de Rancharia para velar o irmão. Lá, teria sido denunciado por porte de arma, e abordado pela polícia, de quem levou um tiro pelas costas. Ele jura que a denúncia foi falsa. Só escutei eles falando: - E aí, negão? Quando eu olhei, tinha três policiais atirando contra mim. Eu e umas crianças que estavam perto saímos correndo, mas fui atingido pelas costas. A polícia tentou inverter as bolas, dizer que eu é que tinha atirado, mas tinha testemunha a meu favor. O processo rola até hoje e eu não posso entrar mais na cidade, porque a polícia quer me incriminar. Faz mais de um ano que eu não vejo minha mãe.
O tiro que MC levou rendeu-lhe uma hérnia intestinal de proporções assustadoras. O problema o impede de exercer o trabalho de ajudante-geral, motivo pelo qual vem tentando uma indenização na Justiça.
O levante
Recuperado do ferimento causado pelo tiro, MC resolveu mudar-se com a amásia para o Fortunato Rocha Lima, então recém-entregue. A violência, conta ele, já imperava no local, onde dois grupos (um de menores e outro liderado por um traficante) detinham o comando sobre tudo. Naquela época, criança e rapazinho não podia andar na rua que era estuprado ou judiado. Só tinha bandido na rua. Para senhora ter uma idéia, nesta casa aqui, antes da gente entrar, seis caras passaram uma noite inteira estuprando uma menina de 14 anos. Ela morava com o avô, que assistiu tudo com um revólver apontado para a cabeça, contou.
De acordo com MC, a casa onde mora e que havia sido construída por sua amásia durante o projeto do mutirão, pertencia à gangue dos menores que, junto com a dos traficantes, então tomava conta do local. Os caras falaram para mim que tinham trocado a casa por droga, mas a mulher da CDHU confirmou que a casa era da minha mulher. Foi quando eu resolvi tomar o que era nosso. O rapaz que se dizia ter pego a casa por droga me conhecia e não quis encrenca. Ele me deu a chave, mas eu já estava abrindo a casa com uma faca. Naquele dia, eles já ficaram espertos comigo.
Mesmo tendo enfrentado a gangue, MC teve problemas no começo. Logo nos primeiros dias, os menores mexeram com seus dois enteados, a gota que faltava para o primeiro confronto. Eu perdi a boa e tratei de arrumar um revólver. Saí de casa e chamei eles, porque, dona, eu não morro de graça. Eu disse que queria respeito com minha família e com meus vizinhos também. Falei para eles que tinha aprendido a respeitar os outros na cadeia. Eles ficavam aí na esquina, armados, só cozinhando a gente. É claro que eu temia pela minha família, mas, se eu saísse do jeito que eles queriam, a coisa aqui ia continuar do mesmo jeito, argumentou.
Naquela época, conta MC, somente um traficante era dono de 16 casas - os verdadeiros proprietários haviam sido expulsos -, sem falar no pedágio que era cobrado. Quem não pagava, apanhava e era expulso só com a roupa do corpo. Nada entrava no bairro, nem o caminhão do gás, que, se entrasse, era roubado. Era terrível mesmo. Os cara (sic) entravam na sua casa, gostavam de alguma coisa e simplesmente levavam.
O fato de ter sido condenado por homicídio e o enfrentamento teriam garantido sossego à família de MC, mas a pilantragem continuava correndo solta. Mexer comigo, eles não mexiam, mas também não respeitavam mais ninguém. Isso eu não acho certo. Se quer brigar, que brigue com alguém da altura e não com o mais fraco. Foi o que aconteceu uma vez que eles bateram em dois vizinhos meus e a mãe deles veio me pedir ajuda. Eu passei a mão numa faca boa e num revólver, pus na cinta, e encarei. O chefe do bando só não morreu aquele dia porque o rapaz que eu tava (sic) defendendo fugiu com medo. Eu disse para ele: eu seguro o cara e você fura com a faca, afinal guerra é guerra, né? Mas ele não quis. Acabei eu sozinho rolando no chão com o cara. Minha mulher ajudou, batendo nele com um pedaço de ferro. Nós demos uma boa esfregada nele no asfalto.
MC temia enfrentar problemas com a polícia se continuasse a agir sozinho. Foi quando chamou os vizinhos para um levante. Disse para eles que eu era de fora, que a coisa aqui tava (sic) feia e que só dependia da gente impor o respeito. Muitos se uniram a mim, principalmente os rapazinhos e a mulherada. Homem que era bom, apareceu pouco. Arma a gente só tinha a minha, mas cada um pegou o que tinha em casa: machado, picareta, enxada, facão. Juntamos umas 60 pessoas e saímos para rua. Depois disso, acabou pedágio e a história de gente forte bater e explorar gente fraca. Depois do arrastão, formamos a lei do bairro: aqui dentro não se pode roubar, estuprar, cobrar pedágio, juntar em bando para bater nos mais fracos e nem se aproveitar dos velhos e humildes. Sabe o que a gente faz com quem não obedece? A gente se junta em 30 e dá um cacete no cara, sem dó, porque se não for assim, dona, não tem jeito. Os vagabundinhos sabem que se sair da linha vai para a UTI, então respeita. E a gente se junta para dar o coro para não ter problema com a polícia. Um só bater é cadeia na certa.
As regras se propagaram pelo bairro e o recado parece que foi bem assimilado, tanto que as ocorrências criminais diminuíram acentuadamente desde que o código passou a vigorar no Fortunato. Aos menores que abusavam foi dada uma segunda chance, do mesmo jeito que se faz com os desavisados. Para quem já tinha roubado e estuprado, a gente deu uma oportunidade, porque ninguém é perfeito, né? Agora, se aprontar de novo, não tem desculpa. Pode ter 15 ou 30 anos que vai apanhar do mesmo jeito. Quando o cara não sabe, a gente avisa que não pode acontecer de novo. A lei que esse povo entende é essa.
O código do Fortunato não faz menção às drogas e o próprio MC diz que não tem nada contra os traficantes e usuários. A gente que mora onde mora e é pobre não pode ser contra esse negócio de tráfico, porque é um meio de subsistência. Se a pessoa não mexe com a porcaria, ninguém vai encher na porta da casa dela. Se os outros vêm de fora para comprar tranqueira, o problema não é meu. Agora, estuprar, cobrar pedágio e judiar o fraco não é certo, né? A única coisa que eu não admito com droga é oferecer para criança ou mandar criança vender. Isso aqui também não pode acontecer, frisou.
MC diz que perdeu todo o medo de morrer quando foi baleado pelas costas - ele também já foi alvejado na perna -, mas que toma certos cuidados. Ele sabe que, junto com a família, é jurado de morte e que qualquer vacilo pode significar seu fim.
MC, obviamente, não é santo e nem o acha que é. Para a polícia, no entanto, ele é só mais um que pode ser preso a qualquer momento se for pego praticando algum delito. No final do ano passado, ele foi para a cadeia acusado de ter trocado tiros com a polícia, mas testemunhas o teriam livrado do crime. De qualquer forma, ele vale a proteção de muitos moradores do local.