08 de julho de 2026
Geral

Desassistidos tendem a eleger líder

Josefa Cunha
| Tempo de leitura: 2 min

Para o psicólogo Celso Zonta, quanto mais carente e desorganizada for a população, mais ela necessita de proteção.

Quanto quanto mais carente e desorganizada uma população, mais ela necessita de proteção. A afirmação é do psicólogo Celso Zonta, para quem a figura do protetor, ainda que este seja um marginal, é perfeitamente explicável. Esse tipo de comunidade espera que a proteção venha dos outros e dificilmente age por si só, diz.

No caso do Fortunato Rocha Lima, cujos moradores vieram de favelas e estavam acostumados a viver à margem da sociedade, as próprias condições do cotidiano exigem a chamada justiça ou proteção pelas próprias mãos, uma vez que o amparo dos aparelhos públicos é frágil ou inexistente. As autoridades deveriam cuidar dessas pessoas enquanto ser humanos, mas não o fazem. As pessoas que não são tratadas decentemente tendem a eleger qualquer liderança que surja fazendo o bem, não importando de que maneira ou de quais meios use para isso. As autoridades de Bauru foram omissas em relação aos favelados, que sofreram e continuam sofrendo problemas de enchentes, falta de água, luz, esgoto, saneamento básico, creches, escola, parque e praças. Muitos vieram a se aproximar dessas estruturas no Fortunato e, mesmo assim, esses aparelhos comunitários foram muito mal cuidados. Por conta de irregularidades administrativas e falta de boa vontade política, esse mutirão sofreu muitos revezes. Vários governos não fizeram nada e a atual administração continua omissa. Os moradores pagam prestação sem ter em mãos um documento que lhes garanta a posse da casa, o contrato. É como uma caixa preta, definiu Zonta.

Diante de todo esse histórico, nada mais justificável que os moradores passassem a resolver as coisas pelas próprias mãos. Se alguém faz o bem para esse o povo, não importa quem ele seja. A polícia e a própria sociedade vêem os moradores do Fortunato como um bando de desocupados. Eles, por sua vez, se sentem discriminados, embora a grande maioria seja pagadora de impostos, cumpridora dos deveres e dignas de respeito. Então, isso é produto de toda uma reação, quer seja de discriminação ou de omissão. Não acho que esse comportamento seja normal, até porque não gosto da palavra normal, mas sim explicável, comentou o psicólogo, que coordena um trabalho de psicologia comunitária no bairro, no sentido de organizar e desenvolver a cidadania dos moradores. Nosso objetivo é conseguir que essas pessoas comecem a canalizar de maneira positiva seus sentimentos de frustração e suas necessidades coletivas.

Ocorrências do bairro em 2001

Janeiro1 furto1 tentativa de furto

Fevereiro2 furtos2 averiguações de pessoas suspeitas2 lesões corporais1 embriaguez1 dano a patrimônio1 porte ilegal de arma

Março2 lesões corporais1 averiguação de pessoa suspeita1 automóvel furtado localizado1 roubo1 flagrante de tráfico de droga1 flagrante de porte ilegal de arma1 tentativa de homicídio

Abril3 lesões corporais2 automóveis furtados localizados1 localização de produtos de furto1 dano a patrimônio

Maio3 veículos furtados localizados1 lesão corporal

Junho2 roubos a ônibus1 furto residencial1 furto de veículo 1 embriaguez