08 de julho de 2026
Geral

Eleição e economia

(*) Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 3 min

Quando perguntaram ao marketeiro do presidente Bill Clinton, James Carville, os fatores que poderiam decidir as eleições nos Estados Unidos, ele foi curto e grosso, nos dois sentidos: it wil be economic, stupid! Ele não tinha dúvidas de que o vencedor iria sair do filete mercurial da economia.

Pelo jeito FHC não tem conversado muito com Nisan Guanaes, o seu homem de marketing. Provavelmente saiu da sua própria cabeça o prognóstico de que elegerá o próximo presidente da República. A continuar a surra que o real está levando do dólar e a performance da seleção do Felipão, nem um plano de resgate estilo cavalaria dos filmes de far-west, comandada pelo general FMI, vai ser suficiente para impedir a vitória da oposição.

Tenho dó do Lula. Depois de quatro tentativas e anos de luta percorrendo o Brasil de Sul a Norte, ter que governar uma frustrante massa falida. Faltam-lhe cacoetes messiânicos. Lula, o metalúrgico, jamais se prestaria a confiscar a poupança popular ou aceitar planos mirabolantes nascidos ao som de um bolero - besame, besame muchoooo...

Depois do jogo da Seleção Brasileira, os argentinos também ficaram surpresos: Brasil tambien no fué a la Copa América. Nossos hermanitos, como FHC, ainda encontram tempo para o humor, apesar do país estar se escoando pelo ralo. A vingança deles é que o Brasil vai junto. A diferença é que os nossos vizinhos ainda têm um time vencedor, talvez o melhor do mundo hoje, como fator desviante das agruras financeira em que vive o povo.

FHC garantiu, depois de um discurso de 50 minutos, que o apagão vai passar. O Plano Real haverá de dar os seus frutos, no futuro. De minha parte, só não digo que o futuro a Deus pertence para não tomar o seu santo nome em vão. Além do mais, quem gostava de repetir essa frase era aquele ministro da ditadura, Armando Falcão. O futuro é um espelho sem vidro: o verdadeiro futuro é o hoje e o agora, costumava dizer o poeta Unamuno.

Quando Josué de Castro escreveu Geografia da Fome, um clássico mesmo passados mais de 50 anos, a sua base teórica era de que a fome, como regra geral, era produto de defeitos da estrutura econômica. Tinha esperanças de que o Brasil reverteria o quadro de fome endêmica em que vivia mais da metade da população. Muito do que ele escreveu em 1946 continua vigente, conforme atesta pesquisa da Fundação Getúlio Vargas. Estamos com 50 milhões de brasileiros, hoje, vivendo abaixo da linha de indigência, isto é, com renda mensal inferior a R$ 80,00. Esse valor, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), é o mínimo para cobrir as necessidades calóricas do homem. Na estatística de distribuição de renda, ganhamos apertado da Suazilândia. No Brasil, 10% da população mais rica continua se apropriando de 50% da renda gerada neste País e os 50% mais pobres têm que dividir 10% da renda. O que mudou desde a obra pioneira de Josué de Castro foi a geografia da fome: antes, no campo, hoje, nas grandes cidades. O trágico paradoxo é que, durante estes anos, a relação entre a produção de alimentos e o aumento da população, indica que aquela foi superior a esta. O que estaria errado: os homens ou o sistema?

A massa crítica das pesquisas eleitorais sempre levam em conta que a opinião pública é quase tão volátil quanto o real ou a Bolsa de Valores. Se o homem mente para a própria mulher (e vice-versa) o que se dirá do seu estado de espírito ao responder uma pesquisa. Além de não detectar falha de caráter, a pesquisa é um instrumento intrinsecamente falível. Prever quem vencerá a eleição presidencial de outubro de 2002 é um vaticínio que goza do mesmo grau de segurança da previsão do tempo para daqui a um ano e meio.

Mas de uma coisa podemos ter certeza... a economia do País vai pesar, e muito, na decisão de voto do brasileiro. Mesmo que FHC não bote fé nos barbudinhos.

(*) Zarcillo Barbosa é jornalista