08 de julho de 2026
Geral

Uru prova: tamanho não é documento

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 6 min

A pequena Uru tem um dos melhores projetos de geração de renda do Estado, que inclusive está sendo utilizado como modelo.

Uru - A primeira-dama do Estado de São Paulo e presidente do Fundo Social de Solidariedade (Fussesp), Maria Lúcia Alckmin, esteve recentemente em Uru, visitando as instalações da Companhia da Massa, um projeto de geração de renda considerado modelo dentro do Estado de São Paulo.

A visita da primeira-dama foi um daqueles acontecimentos que mudaram a rotina da pacata Uru. Policiais mobilizados, grande parte da população nas ruas, carros oficiais de vários municípios da região circulando pela cidade. Enfim, um cenário pouco comum para uma população de aproximadamente duas mil pessoas.

Apesar de minúscula, a cidade é sede hoje de um dos projetos governamentais mais bem-sucedidos, em andamento no Estado. Dos 125 projetos de geração de renda mantidos pelo Fussesp, o de Uru está sendo considerado um dos mais funcionais.

De acordo com a primeira-dama, essa avaliação foi resultado de uma reunião envolvendo técnicos do Fundo Social. Segundo Maria Lúcia, foram eles que indicaram a cooperativa de Uru como sendo um exemplo a ser seguido.

A cooperativa de Uru é, na verdade, dividida em três setores: padaria, confeitaria e costura. No entanto, os dois primeiros ganharam maior destaque em seus quatro anos de funcionamento.

Inicialmente, o projeto de geração de renda ensinava a arte da costura às mulheres. A partir de 1999, a linha e agulha deram lugar aos fornos e cilindros de pães.

A mudança representou um grande avanço para o projeto, que passou a ser mais rentável, a partir de então.

De acordo com a coordenadora da equipe feminina que trabalha na companhia, Ana Cristina Sabião Francisco, 29 anos, tudo o que a padaria/confeitaria produz é vendido para a população de Uru por um preço um pouco abaixo daquele cobrado em estabelecimentos similares.

Ana Cristina revela que o lucro mensal da cooperativa é de R$ 1,8 mil, aproximadamente. Esse dinheiro, segundo ela, é usado exclusivamente para manter a produção.

Diariamente, as 23 mulheres que participam do projeto produzem em média 50 pães caseiros, 600 salgados de vários tipos e dez roscas, além de bolos e outros doces que são vendidos sob encomendas.

A companhia funciona de segunda à sexta-feira, das 8 horas até às 17 horas, com um intervalo de duas horas para o almoço. A equipe responsável pela produção é dividida em duas. São 11 mulheres em cada uma. Apenas a professora Ana Cristina permanece no local o tempo todo. É ela quem passa as instruções às demais.

Cada equipe trabalha dois dias e meio por semana. A sexta-feira é dividida em duas, e cada equipe trabalha um período.

As mulheres recebem salários que variam de acordo com a renda familiar e o número de filhos de cada uma. Mesmo assim os valores não chegam a atingir um salário mínimo.

O repasse de verba para pagamento do serviço realizado dentro da Companhia da Massa é feito pela Secretaria do Desenvolvimento, por meio do Programa Complementando a Renda.

A Fussesp, por sua vez, colabora com a liberação de equipamentos para os 125 projetos municipais já aprovados. E a Prefeitura de cada um desses municípios fornece toda a infra-estrutura necessária para o andamento do projeto, como a cessão do imóvel e o pagamento de água e luz, por exemplo.

Por ocasião da visita da primeira-dama do Estado, uma faixa foi colocada na fachada do prédio onde funciona a padaria/confeitaria. Nela, o projeto estava identificado como sendo uma cooperativa. Essa designação foi considerada equivocada pela técnica do Fussesp, em Bauru, Luzia Requena Conceição. Da forma como funciona hoje, o projeto não pode ser considerado uma cooperativa, segundo ela. Para formar uma cooperativa seria preciso atender a várias exigências que atualmente estariam fora do alcance da companhia.

Para cada um dos 125 projetos municipais de geração de renda, desenvolvidos atualmente no Estado, o governo irá liberar, até o fim do ano, cerca de R$ 8 mil. Além dos recursos financeiros, os projetos recebem também repasse de mercadorias e auxílio técnico do Fundo Social do Estado. Tudo com a finalidade, segundo a primeira-dama, de ampliar as oportunidades de trabalho e criar condições para o aumento da renda da população mais carente do Estado.

Primeira turma

Maria Lúcia Alckmin foi recepcionada pelo prefeito de Uru, Valdir Cândido de Sousa (PL) e pela primeira-dama do município, Valdice Negrisoli de Sousa, presidente do Fundo Social de Solidariedade de Uru e responsável pela execução do projeto de Geração de Renda na cidade.

O prefeito lembrou do início do projeto, há quatro anos. Na ocasião, apenas dez mulheres foram escolhidas para integrar a primeira turma. Hoje, esse número dobrou e o projeto ganhou destaque, a ponto de receber a visita da primeira-dama do Estado para conhecê-lo.

Toda essa agitação em torno da cidade foi encarada pelo prefeito como um motivo de satisfação. Afinal de contas, não é todo dia que o município recebe uma visita tão ilustre.

Projeto é usado como meio de sobrevivência

Uru - Pena que está acabando lamentou Sandra Emília Lucas, 24 anos, uma das integrantes da equipe de 23 mulheres que trabalha atualmente na padaria/confeitaria Companhia da Massa de Uru, referindo-se a sua possível saída do projeto depois de um ano de aprendizado.

Ela revelou que o dinheiro que recebe mensalmente com o projeto tem servido como um grande aliado na hora de pagar as contas. A exemplo de outras cidades pequenas, Uru também não oferece grandes opções de emprego e o serviço na Companhia da Massa é considerado como um meio de sobrevivência para mulheres como Sandra Emília.

Antes de ser recrutada para trabalhar no projeto, Sandra não tinha outra escolha a não ser acompanhar o marido na lavoura. O grande temor dela é ter de voltar a essa vida quando seu contrato com a companhia terminar.

Sandra está prestes a completar um ano no projeto. Segundo ela, esse seria o tempo de permanência de cada uma dentro da equipe. Uma hipotética prorrogação de contrato dependeria de decisão do Fundo Social do Município.

Sandra recebe R$ 115,00 por mês. Ela trabalha dois dias e meio por semana, e complementa a renda mensal realizando serviços de limpeza durante o tempo que não está na Companhia de Massa. Essa é a forma que ela encontrou para ajudar o marido a prover o lar e os dois filhos pequenos das necessidades mais básicas.

Mesmo trabalhando menos, Sandra revela que o salário que recebe atualmente é maior do que recebia na lavoura, onde trabalhava todos os dias.

Mesmo que seu contrato com a companhia não seja prorrogado, Sandra terá condições de produzir em casa o que aprendeu durante um ano de projeto. Caso ela consiga se manter com a produção e venda de produtos caseiros, o projeto terá atingido sua finalidade.

Exagerando um pouco, Sandra conta que aprendeu todos os tipos de serviços que podem ser realizados dentro de uma cozinha. Com a experiência, pode ser que consiga dar seqüência ao trabalho, em casa, e assim evitar seu retorno à lavoura: uma possibilidade que lhe tira o sono. Ela confessa que o tempo que passou trabalhando no campo é uma época de sua vida que não lhe traz nenhuma saudade.