Costumamos exagerar sobre muitas coisas para chamar a atenção. Outro dia um jornalista entrevistado em programa da Globo comentava os exageros das manchetes e justificava que o editor de primeira página, para não ficar em situação desvantajosa em relação a outros jornais, nos assuntos que, com certeza, vão ser notícia de primeira página e destaque nos programas de TV, exagera nos títulos. É o que vem acontecendo, também, com os que falam sobre emprego e recursos humanos. Jeremy Rifikin, economista e palestrante de renome, escreveu O Fim do Emprego, best-seller possivelmente pelo exagero do título, como agora está com outro livro, A Era do Acesso, dizendo que comprar e ter propriedades serão coisas do passado, como se tudo virasse leasing, isto é, para possuir coisas você aluga em vez de comprar.
Essa mania de exagerar tem nos levado a dizer bobagens sobre recursos humanos como: o emprego vai acabar; você precisa se preparar para trabalhar por conta própria porque não vai haver mais emprego; você vai ser Você S.A.; as pessoas não precisarão mais ir à empresa, vão trabalhar em casa, e assim por diante. É evidente que tudo isso é exagero. O emprego nunca vai acabar. Você monta uma loja, é bem sucedido, o movimento aumenta e você não dá conta sozinho. Vai dizer para os clientes irem comprar em outro lugar? Vai arrumar um sócio? Depois um segundo, um terceiro, um quarto sócio? Claro que não, você vai procurar empregados. Já imaginou uma indústria, a Tilibra, por exemplo, sem nenhum empregado? Mesmo a indústria da informática, quem vai fazer o computador que você está usando? E o governo? Você seria capaz de imaginar os funcionários públicos trabalhando como autônomos? E a tão falada terceirização, não acaba com o emprego? É evidente que não, os empregados mudam de patrão, apenas. Quando empresas como a CPFL ou a Telefônica terceirizam os seus serviços e dispensam os seus empregados, estes vão trabalhar para as empresas terceirizadas.
É um exagero, portanto, falar que o emprego vai acabar. A diminuição do emprego devido às crises econômicas é conjuntural, podendo mudar para aumento de emprego se a situação melhorar, mas há uma diminuição do emprego provocada pelo desenvolvimento da tecnologia, que cria novas formas de trabalho. Esta vai continuar ocorrendo mas é uma diminuição apenas relativa e não significa o fim do emprego. A robotização das fábricas e a informatização dos escritórios estão eliminando algumas formas de trabalho e criando outras. Essas mudanças não ocorrem apenas na natureza das tarefas mas também nos locais onde podem ser realizadas e nas formas de contrato para sua realização. Como conseqüência, o trabalho em regime de emprego vai diminuindo e dando oportunidade ao trabalho em regime autônomo, o que não significa que o emprego vai acabar. O que está ocorrendo, de fato, é que essas mudanças todas estão criando um novo perfil do trabalhador, caracterizado não só pela qualificação mais apurada, como pela sua postura, mais exigente, mais cobradora de direitos. Por outro lado, as empresas, pressionadas pela competitividade crescente, precisam melhorar a produtividade e a qualidade, na produção e no atendimento ao cliente e sabem que quem faz isso são os seus empregados, de sorte que enquanto se fala em diminuição do emprego também se fala, e muito, na preocupação que as empresas devem ter com seus empregados, como uma prova inequívoca da continuidade do emprego. Novas técnicas de recrutamento e seleção, procurando atrair gente talentosa, novos critérios de remuneração e concessão de benefícios, para conservar os empregados e intensificação dos programas de treinamento, para mantê-los produtivos, são medidas em franco desenvolvimento. Se o emprego fosse acabar esses assuntos estariam perdendo importância em vez de estarem sendo objeto de cursos, livros e congressos. É melhor a gente não exagerar para não dizer bobagem.
(*) Pedro Grava Zanotelli é professor e diretor da Faculdade de Ciências Econômicas de Bauru, da ITE. E-mail: pegrazan@techno.com.br