07 de julho de 2026
Geral

Tango inacabado

(*) Miguel Ignatios
| Tempo de leitura: 2 min

A Argentina vive, há pelo menos três anos, o que talvez seja o pior tango de sua história. Nele, o cantor principal não é Carlos Gardel; e os músicos e arranjadores não são Astor Piazzola, nem Gato Barbieri. Seus lugares foram tomados pelo superministro, Domingo Cavallo, e pelo presidente Fernando de la Rúa. Os espectadores ou figurantes são os 32 milhões de argentinos. Não é obrigatório que todos os tangos terminem mal. Mas existe uma expectativa, fora da Argentina, mais precisamente em Nova York, em Londres e em Paris, de que esse tango real, vivido pela Argentina, acabe em calote, moratória ou em concordata fraudulenta. Estupefatos, os 32 milhões de argentinos não conseguem nem ao menos torcer por um final feliz, assustados pela crescente miséria e desemprego, que, erradamente, creditam à globalização.

Mas, ao contrário do que costumava dizer, com ironia cortante, o dramaturgo irlandês, Bernard Shaw, sobre a Inglaterra e os Estados Unidos, dois povos separados pela mesma língua, Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai, Bolívia e Chile, os atuais parceiros do Mercosul, parecem fadados a manter-se unidos por duas línguas, o português e o espanhol, curiosamente convergentes para o portunhol.

Com sérias divergências políticas internas, a União Cívica Radical (UCR), partido do presidente De La Rúa, corre o risco de perder a maioria das cadeiras na Câmara e no Senado para os justicialistas (ex-peronistas), nas principais províncias do país, nas eleições regionais previstas para outubro próximo.

Na corda bamba entre a pressão de Wall Street, a ajuda financeira do FMI e as indecisões políticas do ex-presidente Raúl Alfonsín, no âmbito interno da UCR, Domingo Cavallo procura fazer mágicas para não mexer na causa principal da armadilha econômica, que ele próprio criou: a paridade cambial entre o peso e o dólar americano. Obstinadamente, tenta de todas as maneiras reativar a economia argentina, sem ter de desvalorizar o peso. Sem dúvida, uma empreitada difícil, para não dizer impossível.

Entre viagens constantes aos Estados Unidos e à Europa, para acalmar os investidores estrangeiros, Cavallo suspendeu, recentemente, as sobretaxas às importações provenientes de fora do Mercosul, o que, feitas as contas, causará prejuízos estimados em US$ 1 bilhão por ano à exportações brasileiras destinadas ao país vizinho. Em represália, as autoridades brasileiras ameaçaram suspender as sobretaxas às importações do trigo canadense e americano.

Após alguns telefonemas, contudo, o desenho fratricida da situação modificou-se. Não interessa ao Brasil uma Argentina fraca, sentenciou Cavallo. Não podemos abandonar a Argentina agora, já que estamos no mesmo barco, apressou-se em avalizar o ministro Celso Lafer. E assim segue, por mais algum tempo, ninguém sabe exatamente até quando, o tango, cujo final só o povo argentino, seus políticos e tecnocratas poderão modificar.

(*) O autor, Miguel Ignatios, é presidente da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB) e da Fundação Brasileira de Marketing (FBM)