07 de julho de 2026
Geral

Comunicação versus tabu e intolerância

(*) Padre Beto
| Tempo de leitura: 4 min

Era uma tarde fria e chuvosa, ou seja, um tempo normal para a cidade escocesa de Edimburgo. Não havíamos programado nada de especial para aquele dia e percorríamos simplesmente as belas e estreitas ruas da cidade.

Quando a chuva tornou-se mais intensa, o nosso abrigo foi uma grande igreja de estilo gótico. Na verdade, o que desejávamos era um bar aconchegante para tomar um bom café. Para a nossa surpresa, avistamos em uma das laterais da igreja uma placa que indicava para a cripta com a palavra: Café. Curiosos descemos a escada de pedra e ao chegarmos à antiga cripta, não encontramos nenhuma capela subterrânea e muito menos túmulo de algum bispo ou cardeal.

De forma harmoniosa e com muito bom gosto havia um balcão com café, bebidas e pequenos aperitivos. Por toda a cripta estavam espalhados sofás, poltronas, pequenas mesas e todo ambiente era iluminado por velas.

O escocês que trabalhava no balcão explicou-nos que aquele cripta-bar era, na verdade, um espaço de liberdade, onde as pessoas podiam encontrar-se e, em um ambiente descontraído, conversar livremente sobre qualquer tema. A cripta era usada principalmente depois da missa para que a comunidade pudesse continuar a refletir e debater sobre seus problemas e sobre a vida. Ao invés de ser utilizada para o repouso dos mortos, aquela cripta tornara-se um espaço sagrado, onde os vivos poderiam exercitar a divina prática da comunicação.

É impossível falarmos em vida social, sem mencionarmos a palavra comunicação. Comunicação não é, de forma alguma, um ato solitário, mas sempre uma comum ação entre duas ou mais pessoas. Por isso, ela é por natureza um ato social e constitui-se na base da convivência em sociedade. A comunicação surge através da dinâmica entre três elementos: transmissor, receptor e mensagem. A relação entre os três pode desenvolver-se de diversas formas.

Ela pode, por exemplo, constituir-se em um monólogo. Esta forma de comunicação é, porém, estática, pois os participantes possuem papéis fixos. Nela a mensagem permanece sempre unilateral e pobre. A melhor forma de comunicação é o dialogo.

Aqui ela é dinâmica e todos os participantes do ato comunicativo incorporam tanto o papel de transmissor como o de receptor. No diálogo a mensagem passa sempre por um processo de transformação, pois este tipo de comunicação desenvolve-se, principalmente, através de idéias contrárias. Estas transformam a mensagem em um campo rico de descobertas e do surgimento do novo.

A comunicação, porém, possui inimigos. Um deles chamamos de tabu. A expressão tabu tem sua origem na tribo polinésia dos maoris e significa o mesmo que sagrado, invulnerável (polinésio: tapu, ta = marcar; pu = extraordinário). Para os maoris, tabu era uma proibição de relacionar-se com pessoas, utilizar certos objetos ou ir a determinados lugares, ou deles aproximar-se, em virtude do seu caráter supostamente sagrado e cuja violação acarretava o castigo divino.

Com o passar do tempo a palavra foi assimilada pelas culturas ocidentais e hoje tabu significa a proibição convencional imposta por tradição ou costume a certos atos, modos de vestir, temas, palavras, etc., tidos como impuros, e que não pode ser violada, sob pena de reprovação social.

Assim, todo o tabu suspende o processo comunicativo e impõe o silêncio de cemitério. Ele é estabelecido, na maioria das vezes, pela preguiça mental ou pelo medo do conflito. Desta forma, é preferível não discutir sobre beleza, religião, futebol, problemas do passado, sexo ou idéias contrárias, para manter um ambiente amistoso.

O problema é que, impedindo a comunicação, o tabu acaba criando um relacionamento falso e superficial. Tabus deixam de existir, quando descobrimos que qualquer tema pode ser objeto de um diálogo, pois a questão não é o tema a ser discutido, mas como discuti-lo.

Outro inimigo da comunicação é a incapacidade de aceitarmos o outro em sua forma de ser e pensar. Aqui a comunicação é substituída pela intolerância. A origem desta incapacidade de aceitar o outro, está, muitas vezes, no medo ou na preguiça de sermos autênticos.

Só voa quem se atreve a fazê-lo, escreve Luis Sepúlveda. Somos intolerantes à medida que nos deixamos dominar pela inveja ao percebermos que outros são mais livres e criativos. A intolerância é superada quando perdemos o medo de sermos nós mesmo. Desta forma, tornamo-nos abertos para a comunicação e livres em nosso pensar e agir.

Porém, quem vive assim, ou seja, quem não permite ser dominado por tabus e medos, precisa acostumar-se com as críticas daqueles que, infelizmente, ainda não descobriram o seu próprio valor. Mas, como ouvi certa vez de meu pai: cachorro não late para defunto morto.

Fale comigo através do e-mail: roberto.daniel@lycos.com

(*) Especial para o JC Cultura