Como consequência do alto custo dos caminhões e camionetas, bem como da conservação e manutenção desses tipos de veículos, o transporte rodoviário de cargas poderá entrar em crise num curto lapso de tempo, porque a demanda de recursos financeiros para a sustentação desse serviço atingiu a um volume tão estratosférico que dentro de meses poucas empresas do setor terão estrutura econômica para continuar sobrevivendo. Contudo, será que as núvens escuras que ora recaem sobre o cenário não virão a se escancarar também no campo do transporte rodoviário de passageiros urbanos, intermunicipais, interestaduais e internacionais, com ônibus e peruas excessivamente caros, custeio elevado e, paradoxalmente, tarifas sempre reajustadas por baixo, descapitalizando as empresas da área? Tudo indica que sim, até porque talvez já não haja nenhuma atividade privada hoje, no País, que não esteja vislumbrando dias tempestuosos à sua frente, o que acontece porque seus problemas gerais aumentam, ganhando dia a dia proporções descomunais, e o empresariado, sem divisar à curta distância uma tábua de salvação com a qual possa escapar ao naufrágio, percebe distanciar-se cada vez mais a segurança de seu patrimônio, edificado ao embalo de dezenas e mais dezenas de anos de esforço e dispêndio.
Conclui-se, no arremate da análise, que estaria comprometido por um futuro bastante sombrio todo o sistema de transportes de cargas e passageiros, tanto rodoviário como ferroviário, já que ele, salvo exceções, hoje funcionando com deficiências, tende a deixar a desejar muito mais com o decorrer do tempo. E, parando o transporte, também parará o País que, pelas suas dimensões continentais, não poderá valer-se totalmente da locomoção individual de seu povo e de sua riqueza.
Não se pode nem pensar que o Governo esteja por fora do problema que tão de perto diz às responsabilidades da administração nacional, e, por isso, não tem o direito de ignorar os desafios do tema porque há muito que eles são sentidos pela sociedade em geral. Já por isso é estranhável que ele ainda apareça, periodicamente, com iniciativas pálidas, quase inexpressivas, para socorrer o setor ferroviário, quando se tem a convicção iniludível de que sem um programa robusto, realmente pretensioso, não conseguirão as ferrovias aparelhar-se devidamente para o futuro. E, quanto ao rodoviário, eterno órfão do incentivo e apoio oficiais, não obstante os relevantes serviços com que concorre para o desenvolvimento nacional, será que continuará sofrendo indefinidamente, sem ajuda do poder público, os problemas de crescimento que a conjuntura lhe impõe? É a nossa pergunta.
(*)O autor, N. Serra, é o jornalista responsável do JC e delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado