08 de julho de 2026
Geral

São Luís: cidade dos azulejos

Eliane Barbosa
| Tempo de leitura: 9 min

A Capital do Maranhão tem encantos escondidos que merecem uma exploração minuciosa de todos os turistas.

Na travessia de barco de São Luís a Alcântara sentei ao lado do dono de um charmosíssimo hotel, em Ilha Bela, que estava empolgado com a viagem ao Maranhão. Acostumado com as belezas do Litoral Norte de São Paulo, refúgio de ricos que sabem o que é bom, mostrava-se maravilhado com a riqueza histórica, cultural, folclórica e as belezas naturais da Saint Louis, fundada em 1612, pelo francês Daniel de la Touche. Pouco se importando com o Tratado das Tordesilhas, que dividia o Brasil entre portugueses e espanhóis, Touche queria lá fundar sua França Equinocial. Não deu certo. Em pouco mais de três anos foi literalmente expulso pelos portugueses que dominaram a área, deixando nas fachadas dos casarões do Centro Histórico sua marca registrada. São Luís é a cidade com maior número de azulejos do País. Os portugueses, para deixar suas casas mais arejadas e protegê-las da umidade, lançavam mão da cerâmica que acabou fazendo de São Luís uma cidade com acervo arquitetônico único no País. Tanto assim, que em 1997, recebeu da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco) o título de Patrimônio Histórico da Humanidade.

Andar pelas ruelas tranqüilas do Centro Histórico, que ainda hoje preservam seu traçado original, muitas com paralelepípedo e pedra-sabão, é um mergulho na história e a oportunidade para se embrenhar no ritmo, no clima, na alegria dos maranhenses. Dos sobradões imensos - portugueses e franceses - que vêm sendo restaurados com verba do Governo Roseana Sarney - são ao todo 3.500 prédios tombados - ouve-se reggae, ritmos jamaicanos, os sons do bumba-meu-boi, forró e, acredite! - música clássica. É gratificante visitar a Escola de Música de São Luís do Maranhão e testemunhar a dedicação de alunos e professores. Dize m que Luciano Pavarotti, em visita ao Maranhão, quase teve aquele vozeirão travado de tamanha emoção.

Nada igual

Não existe no mundo nada igual ao acervo cultural arquitetônico de São Luís. A frase da Unesco resume e reconhece na capital maranhense uma das jóias do planeta.

O Centro Histórico de São Luís dá ao turista a oportunidade de uma viagem no tempo. Hoje, ostenta mais de 200 prédios restaurados em mais de 10,7 hectares. Transformada em cartão de visitas de São Luís, é uma das áreas de maior concentração dos turistas, que se sentem personagens principais de uma história que se desenrola sob seus pés e diante de seus olhos.

Como as curiosidades são muitas no Centro Histórico, o ideal é que o turista fique lá por pelo menos três a quatro dias. Suas ruas têm nomes poéticos. Basta um olhar para cima para se encantar com as fachadas de azulejos brilhantes e os telhadões. Há pedras de cantaria portuguesas nas calçadas seculares por onde passearam nomes como Gonçalves Dias, Aluísio de Azevedo, Sousândrade, Josué Montello e Ferreira Gullar. Ande sem pressa, entre num dos bares que surgem a cada esquina, tome um guaraná Jesus, o único cor-de-rosa do mundo, e agradeça a Deus por ser brasileiro.

Folclore, mitos e cultura

São Luís foi habitada por franceses, holandeses - Maurício de Nassau invadiu a ilha em 1641, mas também foi expulso - e pelos portugueses.

Mas muito antes do domínio europeu, era terra de índios, os tupinampás, que a chamavam de Upaon-Açu.

Por isso, até hoje preserva suas manifestações folclóricas, caso do bumba-meu-boi que transforma a cidade, no mês de junho, numa festa de cores, ritmos, dança, teatro e cultura. Todos se rendem aos bois, inclusive a secretária de turismo e a governadora Roseana Sarney que faz questão de visitar vários arraiás para agradecer graças alcançadas.

O bumba-meu-boi acontece em todo o Estado, durante o mês de junho, mas São Luís é sua maior expoente. É uma feliz mistura de música, folclore, teatro e dança. Nos arraiás desfilam os animados blocos de bois.

Os mais tradicionais bois de São Luís são os de Maracanã, Maioba e Madre de Deus que oferecem ao público, nas apresentações que viram a noite, uma diversidade de sotaques musicais: zabumba, matraca, costa-de-mão, baixada e orquestra, com cada um deles exigindo o uso de um instrumento musical específico. A vestimenta usa muito veludo e mesmo com um calor úmido de 35 graus, ninguém reclama. Para completar o traje, os integrantes dos blocos de bois colocam máscaras e chapéus com longas fitas penduradas, bordados e penas.

Crenças,lendas e mitos

As apresentações emocionam gente de toda parte, até mesmo estrangeiros que não entendem muito bem a história de mãe Catirina e pai Francisco, protagonistas da lenda da morte e ressurreição do boi. Os integrantes dos mais de 300 grupos fazem a alegria dos turistas e dos nativos que se juntam para brincar o boi em meio a toda a teatralização com personagens originais da narrativa.

O interessante é presenciar, numa cidade progressista como São Luís - que tem amplas avenidas, planejamento urbano e grandes edifícios, ou seja, uma capital que se moderniza a passos largos - o respeito dos seus habitantes, sem diferenças de classe, pelas suas tradições culturais. São Luís tem orgulho de seus literatos, assim como dos artífices da cultura popular, com todos entendendo que o erudito não subsiste sem o forte substrato da cultura do povo.

Restauração

Quem foi a São Luís há três, quatro anos, não a encontrará com a mesma cara. As fachadas de azulejos quebrados e os sobradões com pintura velha e suja estão cedendo espaço para prédios revitalizados.

Um trabalho de fôlego do Governo do Estado e da Gerente de Turismo Kátia Lima, que vem dando chance para que os próprios moradores do que era considerado velho, possam se fixar no novo, proteger esse patrimônio e viver dignamente.

A gente acredita que as pessoas só tomam cuidado com as coisas quando elas fazem parte da sua vida, diz Kátia. Com verba do BID - Banco Interamericano de Desenvolvimento, que faz parte do Prodetur (Programa de Desenvolvimento do Turismo), estão sendo realizadas as obras, incluindo as de fixação de fios e cabos em áreas subterrâneas.

Como São Luís é uma surpresa a cada esquina, no ano passado, durante escavações, foi encontrado um túnel de drenagem fluvial construído pelos portugueses com tijolos. Esse túnel, que no passado provavelmente abrigou algum foragido protegido pela igreja, brevemente será aberto à visitação popular.

O Centro Histórico de São Luís é considerado o maior conjunto arquitetônico de origem civil portuguesa. E em nenhuma outra cidade brasileira, os portugueses usaram tanto os azulejos, que além da função decorativa tinha por meta proteger as casas contra a ação dos ventos carregados de salinidade.

Caminhe sem pressa e descubra a poesia e o romantismo de uma outra época, revelada nos mirantes, nos lampiões, nas escadarias e nas janelas de onde avistamos a composição artística dos telhados. Passeie por São Luís, visite seus museus, suas igrejas, seus teatros e conheça de perto o Brasil.

Não se esqueça jamais do Teatro Arthur Azevedo, o mais antigo das capitais brasileiras, a Catedral da Sé, o Palácio dos Leões, a Fonte das Pedras, a mais antiga e bonita da cidade, construída pelos holandeses, em 1614, e o Museu de Arte Sacra.

Caminhando, caminhando...

Percorra o centro histórico sem pressa para maravilhar-se com o colorido dos prédios que reservam surpresas.

Roteiro 1

Palácio dos Leões:

O Palácio dos Leões é o portal de entrada. Sua história confunde-se com a própria fundação da cidade. Em 1612, foi construída pelos franceses a fortificação que recebeu o nome de São Luís, em homenagem ao Rei da França. Em 1615 com a expulsão dos franceses, o forte recebeu o nome de São Felipe, desta vez em homenagem ao rei da Espanha. Mas deste antigo forte, hoje, só existem mesmo os dois baluartes, São Cosme e Damião. Ostenta um imponente estilo neoclássico e possui rico acervo de gravuras e obras de arte.

Pedra da Memória:

Um dos cartões postais da cidade. Constitui-se de um obelisco monolítico, ladeado por canhões centenários, construído para homenagear a maioridade de Dom Pedro II.

Palácio La Ravadière:

Prédio datado de 1689, nele funcionou a Casa da Câmara e a Cadeia. Hoje sede do Governo Municipal, onde se encontra o busto de Daniel de La Touche, fundador de São Luís.

Sobrado onde viveu Graça Aranha:

Com traços característicos do século XIX, tem peculiar descrição na obra de um dos mais famosos escritoes maranhenses, Graça Aranha, que em seu livro O meu próprio romance, relembra a sua infância alegre passada por entre os paredões deste sobrado.

Igreja da Sé:

O mais importante monumento religioso do Maranhão, a Catedral da Sé de São Luís, foi construída pelos portugueses no século XVII. Sua planta possui forma de cruz latina e em sua ornamentação predomina a cor dourada sobre um fundo azul. Passou, durante os últimos anos, por diversas transformações externas e internas exibindo o aspecto dado na reforma de 1922, em estilo neoclássico. Durante a noite é iluminada, podendo ser vista de vários pontos da cidade.

Roteiro 2

A Praia Grande é um dos roteiros que mais atraem turistas de São Luís e os motivos são muito claros, a área foi transformada em um grande centro de animação turística, onde mais de 200 prédios foram recuperados e abrigam bares, restaurantes, cinema, museus, lojas de artesanato, teatro, além de ser palco de manifestações culturais o ano todo.

Feira da Praia Grande:

Funcionando no prédio que abrigou, no século XIX, a Casa das Tulhas, um conjunto de quiosques com a função de celeiro público. Localizada em frente ao Largo do Comércio, hoje ainda comercializa frutas e bebidas regionais, artesanato, víveres, peixes e mariscos.

Rua dos Artistas:

Atelier e moradia dos principais artistas maranhenses, essas casas abrigam exposições de arte e enriquecem a rua do Trapiche, endereço da arte em São Luís.

Cais da Praia Grande:

Deste cais saem embarcações com destino à Alcântara.

Museu de Artes Visuais:

Abriga em seu acervo exposições de pintura brasileira, coleções de azulejos dos séculos XVIII e XIX, arte sacra do século XVII e pinturas maranhenses contemporâneas.

Centro de Cultura Popular Domingos Vieira Filho:

Um centro que reúne exposições permanentes das mais ricas manifestações do folclore maranhense.

Sobradão da Praia Grande:

Edificação monumental localizada na Rua Portugal, possui fachada recoberta por azulejos portugueses. O sobrado é composto por quatro pavimentos que se completam ainda por um beiral. Um dos mais importantes exemplares da arquitetura colonial portuguesa do Centro Histórico de São Luís.

Serviço:

Como ir:

A Varig tem vôos diários para são Luís, saindo de São Paulo. Informações em Bauru: 224-3588.

Onde ficar:

Há inúmeras opções de hospedagem em São Luís, incluindo o Albergue da Juventude (98) 232-6694, apart-hotéis e hotéis de categoria, caso do Brisamar, recém inaugurado, na praia de São Marcos, telefone (98) 212-1212, que está com tarifa promocional de lançamento.

Onde comer:

São muitos os restaurantes de São Luís, que cobram um preço baixo pela quantidade de comida e variedade oferecida.

Estando no Centro Histórico, a dica é o Restaurante do Senac, na rua Nazaré. Poseidon, no Calhau, Chicos, no Renascença II, Cabana do Sol, na Ponta do Farol, Cheiro Verde, no Jardim Eldorado -Turu, Tia Maria, na Ponta dAreia são excelentes.