Não te encontro, não te alcanço...Só no tempo equilibrada,Desprendo-me do balançoQue além do tempo me leva.Porque a vida, a vida, a vida,A vida só é possívelReinventada!(Cecília Meirelles)
Já disse o poeta, um dia, que a mulher tem de ter qualquer coisa de triste, qualquer coisa que chora, qualquer coisa que sente saudades...
Sentir saudades... quem de nós passou pela vida, incólume a esse sentimento?
Poetas de imemoriais tempos cantaram a saudade em prosa e verso, enlaçando-a em lindas melodias, ou sem elas.
Saudade dói. Dói hoje, como doía na idade média, e doerá daqui a 2000 anos.
Saudade é imortal, resistirá ao tempo e a todas as modernidades.
Saudade: substantivo abstrato, dizem os gramáticos, mas o dicionário do coração acusa significados outros que não este. Nada mais concreto, intenso, forte, imenso do que este sentimento.
Não há fórmula mágica que o faça parar. Não há como mensurá-lo, nem tampouco ignorá-lo. Foge do nosso controle, do nosso senso.
Uma música ao longe, o cheiro da grama cortada, a chuva caindo e molhando a terra, uma palavra... de repente aciona-se o start, e aquela sensação de replay nos assalta o coração.
A memória que parecia adormecida e sossegada, acorda rapidinho e nos lança nitidamente à alma, todas as sensações, todas as emoções, que nos pareciam há muito esquecidas.
Dizem que é melhor sentir saudades do que ter um coração vazio. Não sei! Certamente a saudade nos faz sentir todas as coisas passadas, como novas. Passamos a viver aquele retalho de vida já vivida, paralelamente à vida que estamos vivendo no agora! Mesmo que por instantes. Resgatamos as lembranças que a memória aprisionou no tempo. Recordá-las, mesmo que doa, nos faz bem.
Vamos soltando-as devagarzinho e saboreamo-las como cerejas frescas num prato de porcelana; uma a uma... sentindo-lhe o gosto, sentindo-lhe o perfume, degustando-as com prazer!
Se sentimos saudade é porque foi bom.
Ninguém sente saudade do que foi ruim. Bem vinda saudade boa!!
Contudo, há uma saudade que nos dilacera o coração e nos faz sombria a alma. Deixando-a envolta num fog londrino.
O coração tropical, acostumado a alegria do sol, sofre, chora, parte-se em pedaços... E sai a catar os cacos, tentando juntá-los num doído recomeço.
O poeta sabiamente cantou certa vez: saudade... torrente de paixão, emoção diferente, que aniquila a vida da gente, uma dor que eu não sei donde vem...
Não sei?
Sei sim. Ah! Como sei!
Mas saudades são como as marés, vão e vêm, vão e vêm, vão e vêm... independem de nós!
(*)Ercília Ferraz de Arruda Pollice é escritora, poeta, membro da Academia Bauruense de Letras e colaboradora de Ju Machado Escritório de Arte.