A esquizofrenia pode consistir em uma só doença ou pode incluir muitas doenças com causas diferentes
Esquizofrenia é um termo utilizado para descrever um estado extremamente complexo - a mais crônica e incapacitante entre as principais doenças mentais. Devido à complexidade desta doença, poucas generalizações podem aplicar-se a todas as pessoas diagnosticadas como esquizofrênicas.
O médico psiquiatra Wilson Siqueira explicou que quando aparecem repentinamente sintomas psicóticos muito graves, diz-se que o indivíduo tem esquizofrenia aguda. "O termo psicótico define perda do sentido de realidade ou incapacidade de distinguir entre as experiências reais e imaginárias. Algumas pessoas apresentam um episódio psicótico apenas uma única vez; outras têm vários episódios no decorrer de sua vida, porém levam uma vida relativamente normal nos intervalos entre um episódio e outro", afirmou. O indivíduo com esquizofrenia crônica (contínua ou recorrente) freqüentemente não recupera integralmente suas funções normais e necessita, em geral, de tratamento a longo prazo, que inclui medicamentos para controlar os sintomas. "Alguns pacientes esquizofrênicos crônicos jamais poderão prescindir de algum tipo de ajuda."
Siqueira disse que aproximadamente 1% da população desenvolve esquizofrenia no decorrer da vida. Esta doença afeta homens e mulheres com igual freqüência. Em geral, os primeiros sintomas psicóticos da esquizofrenia aparecem durante a adolescência ou durante a década dos 20 anos nos homens e durante a década dos 20 ou princípio da década dos 30 anos nas mulheres. Sintomas menos evidentes, tais como isolamento ou retraimento social, distúrbio do pensamento, do discurso (conversação) ou da conduta, podem preceder e/ou acompanhar os sintomas psicóticos.
Algumas vezes as pessoas têm sintomas psicóticos devido a doenças clínicas não detectadas. Por esta razão, deve-se obter uma história clínica e realizar um exame físico e exames de laboratório durante a hospitalização, para descartar outras causas dos sintomas, antes de se concluir que um indivíduo tem esquizofrenia.
O mundo das pessoas esquizofrênicas
Realidade não-comum: assim como indivíduos normais vêem o mundo sob sua perspectiva pessoal, os indivíduos esquizofrênicos também têm sua própria percepção da realidade. Sua visão do mundo, entretanto, é em geral surpreendentemente diferente da realidade que normalmente é percebida e compartilhada pelas pessoas que os cercam.
Ao viver em um mundo que parece distorcido, instável e faltando-lhe os pontos de referência confiáveis, que todos nós usamos para nos ancorarmos à realidade, a pessoa com esquizofrenia pode sentir-se ansiosa e confusa. Esta pessoa pode parecer distante, isolada ou preocupada e, inclusive, pode permanecer sentada durante horas sem se mover, rígida como uma pedra e sem dizer uma só palavra. Ou pode mover-se constantemente, sempre ocupada, vigilante e alerta. O esquizofrênico pode manifestar comportamentos muito diferentes em momentos distintos.
Alucinações: o mundo de um indivíduo esquizofrênico pode estar cheio de alucinações; ele pode perceber estímulos ou objetos que na realidade não existem, tais como ouvir vozes que lhe ordenam que faça determinadas coisas, ou ver pessoas ou objetos que não estão realmente ali ou sentir dedos invisíveis que lhe tocam o corpo. Estas alucinações podem ser bem assustadoras. Ouvir vozes que os outros não ouvem é o tipo mais comum de alucinação na esquizofrenia. Tais vozes podem descrever a atividade do paciente, dialogar entre si, alertar sobre perigos iminentes ou dizer a ele o que deve fazer.
Delírios: são crenças pessoais falsas, não-sujeitas à razão ou evidência contrária, e que não fazem parte da cultura da pessoa. São sintomas comuns da esquizofrenia e podem, por exemplo, envolver temas de perseguição ou grandeza. Às vezes os delírios na esquizofrenia podem ser bem estranhos - como, por exemplo, o indivíduo esquizofrênico pode acreditar que um vizinho está controlando sua conduta com ondas magnéticas ou que as pessoas na televisão estão enviando mensagens especificamente dirigidas a ele, ou que seus próprios pensamentos são ouvidos por outras pessoas. Os delírios de perseguição, que são comuns na esquizofrenia paranóide, consistem na crença falsa e irracional de que a pessoa está sendo enganada, agredida, envenenada ou que se conspira contra ela. O paciente pode acreditar que ele (ou ela) ou um membro de sua família ou de outros grupos seja o centro desta perseguição imaginária.
Distúrbio do pensamento: freqüentemente o pensamento da pessoa esquizofrênica é afetado pela doença. A pessoa pode ter dificuldade em pensar estruturadamente durante muitas horas. Os pensamentos podem ir e vir tão rapidamente que não é possível retê-los. O esquizofrênico pode não conseguir concentrar-se em um só pensamento por muito tempo e se distrair facilmente, incapaz de fixar a atenção.
É possível que a pessoa com esquizofrenia não consiga discernir entre o que é e o que não é importante em uma determinada situação. Ela pode não ser capaz de concatenar os pensamentos em seqüência lógica, pois estes se tornam desorganizados e fragmentados. Os pensamentos podem saltar de tema em tema, deixando as demais pessoas sem compreender o que o paciente quer dizer.
Esta falta de continuidade lógica de pensamento, denominada distúrbio do pensamento, pode tornar difícil o diálogo e contribuir para o isolamento social. Se não podemos entender o que um indivíduo está dizendo, o mais provável é que nos sintamos incomodados e a tendência é que deixemos esta pessoa só.
Expressão das emoções: as pessoas com esquizofrenia às vezes manifestam o que se denomina afeto inadequado. Isto significa demonstrar uma emoção que não tem relação com o que a pessoa pensa ou diz.
Por exemplo, uma pessoa esquizofrênica pode dizer que está sendo perseguida por demônios e começar a rir. Isto não deve ser confundido com o comportamento de pessoas normais quando, por exemplo, têm um riso nervoso depois que acontece um incidente pouco importante. Freqüentemente as pessoas com esquizofrenia apresentam um afeto embotado. Isto representa uma severa redução da capacidade de expressar emoções. Um esquizofrênico pode demonstrar afeto embotado através de um tom de voz monótono e diminuição da expressão facial.
Algumas pessoas com sintomas de esquizofrenia também apresentam estados extremos de euforia ou depressão, e é importante determinar se um paciente é esquizofrênico ou se, na realidade, tem um transtorno afetivo bipolar (maníaco-depressivo) ou um transtorno depressivo maior. Quando não é possível categorizar o diagnóstico com clareza, e o paciente apresenta ao mesmo tempo sintomas da esquizofrenia e de doenças afetivas, classificam-se estes casos como transtorno esquizoafetivo.
Normal versus anormal: algumas vezes indivíduos normais podem sentir, pensar e agir de forma semelhante aos esquizofrênicos. Freqüentemente pessoas normais ficam, em determinadas situações, incapazes de pensar de forma organizada. Por exemplo, alguém pode ficar extremamente ansioso quando tem que falar diante de um grupo de pessoas e pode sentir-se confuso, incapaz de coordenar as idéias e esquecer o que ia dizer.
Assim como pessoas normais podem às vezes fazer coisas estranhas, muitos esquizofrênicos podem pensar, sentir e agir de forma normal. A menos que se encontre em um estado extremamente desorganizado, uma pessoa esquizofrênica terá um certo senso da realidade; por exemplo, sabe que a maioria das pessoas come três vezes ao dia e dorme durante a noite. Estar fora de contato com a realidade (que é uma forma de descrever os sintomas psicóticos da esquizofrenia) não significa que o indivíduo esteja vivendo totalmente em outro mundo, mas, sim, que há certos aspectos do mundo deste indivíduo que não são compartilhados pelos demais, e que parecem não ter nenhuma base real. Ouvir uma voz que ninguém mais pode ouvir não é uma experiência compartilhada pela maioria das pessoas e é, claramente, uma distorção da realidade, porém é somente a distorção de uma parte da realidade. Uma pessoa esquizofrênica pode, portanto, parecer normal durante boa parte do tempo.
Depressão
Depressão é um problema mais freqüente do que as pessoas pensam. Estima-se uma freqüência na população geral de 15% a 25%. Isto significa que no Brasil aproximadamente 24 e 30 milhões de pessoas apresentam, apresentaram ou virão a ter pelo menos um episódio depressivo ao longo da vida. Pessoas de ambos os sexos, de todas as raças, idades e condições sociais podem ser acometidas. As mulheres são vulneráveis, apresentando depressão na proporção de duas a três para cada homem.
Crianças e adolescentes também podem ser acometidos, assim como idosos. No adolescente os sintomas depressivos são semelhantes aos do adulto, mas sintomas como raiva, apatia, comportamento agressivo, queda no rendimento escolar podem também estar presentes.
Conseqüências e riscos
A principal conseqüência do episódio depressivo é o prejuízo social, pessoal, laborativo e psicológico. Imaginem um estudante universitário que teve que parar seus estudos por um ano ou uma dona de casa que deixou de cuidar do seu lar por seis meses ou marido que abandona seu lar por achar que não é mais digno. Além do risco de suicídio e de doenças circulatórias e do coração, a depressão distorce a visão da realidade da pessoa, levando-a muitas vezes a cometer atos que habitualmente não faria. Como, por exemplo, abandonar o emprego, os estudos, o lar ou separar-se do cônjuge.