08 de julho de 2026
Geral

A corrupção está no ar

(*) Jorge Boaventura
| Tempo de leitura: 3 min

Parece incrível como, a tanta gente, passa despercebida, a realidade de que está no ar a corrupção. Ela, sob a égide de mentiras que são promovidas e multiplicadas ao infinito, tornou-se como que a energia que inspira a atividade de muitíssimos que, sob a alegação de que agem por inspiração do que chamam de espírito prático ou, os mais sofisticados, de pragmatismo, vão tentando a propósito de qualquer coisa, ou de coisa alguma, levar vantagem em tudo. Tal inspiração constitui a doutrina do baal Moloch Mercado, ao qual já nos temos referido em Reflexões anteriores, senhor de baraço e cutelo, ao qual devem servir aqueles de cuja atividade ele resulta e que, julgando-se práticos ou pragmáticos, prosternam-se diante dele. Apenas, embora supondo-se objetivos e astutos, não se dão conta de que o referido baal é manobrado, planejadamente, de centros de poder de cuja existência eles não têm conhecimento, situados fora do âmbito das sociedades nacionais que eles dominam com o auxílio dos tais espíritos práticos. No momento, parece-nos oportuno oferecer à consideração da inteligência dos que nos honram com a sua leitura, exemplo dos efeitos da corrupção de que estamos tratando fazendo-se sentir no esporte que é a maior paixão popular da nossa gente e, de algum tempo a esta parte, a sua única razão de auto-estima e e justificável orgulho, o futebol. Nós somos da geração em que as disputas futebolísticas ocorriam apenas aos domingos e, esporadicamente, no meio da semana, em competições amistosas, geralmente inter-estaduais. Depois, há cerca de trinta anos, foi eleito um brasileiro como presidente da Fifa. O referido brasileiro, em expressivo sucesso tendo alcançado, se não nos falha a memória, títulos cariocas ou nacionais. Mas no domínio dos esportes aquáticos. Àquela época, a imprensa o denominava Jean Havellange e, em entrevistas de rádio ele parecia ter sotaque estrangeiro. Quando surgiu presidente da Fifa, porém, já a imprensa passou a designá-lo como João Havellange e nós, até hoje, não sabemos dos motivos da transformação de Jean em João. Na presidência da entidade máxima do futebol mundial, manteve-se esse nosso patrício por trinta anos aproximadamente, período em que, a pouco e pouco, o futebol, de esporte, se foi cada vez mais, transformando em vultosíssimo negócio, com os seus praticantes excepcionais valendo milhões e milhões de dólares, ao mesmo tempo em que suas camisas começaram a constelar-se de propagandas comerciais e os atletas a pertencerem cada vez menos aos clubes e cada vez mais a empresários. Ora, o público, ou a galera, não torce por empresários, mas por clubes - o que já evidencia claramente, uma grave e mortal distorção. Por outro lado, como trata-se agora de um negócio, os jogadores passaram a ser exigidos de maneira cada vez mais desumana, com duas ou, até, três disputas por semana, em torno de copas e campeonatos paralelos, multiplicando-se as contusões e as estafas musculares e, diríamos, também psicológicas. Daí os atletas se referem às suas atividades, usando a expressão trabalho - já repararam os leitores? Exatamente como o fariam funcionários de empresas comerciais ou industriais. Assim, o élan anterior, o amor à camisa, tornaram-se coisas do passado. O esforço de muitos deve-se à sua juventude e ao seu desejo de aparecer diante dos olhos de algum bom empresário. No que tange às peculiaridades da mocidade, alguma coisa ainda lembra o espírito competitivo do passado. No resto, temos a exlicação das mazelas organizacionais, a nível de dirigentes e os resultados como o que colhemos diante da seleção de Honduras. Colhem-se ovos de ouro - mas se está matando a galinha que os punha.

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