A troca remete a tradições históricas e se intensificam, principalmente em momentos de crise
Um computador por um Fusca; uma máquina de costura por um aspirador de pó. As trocas, barganhas ou, mais popularmente, rolos, são ainda um forte hábito em Bauru. A professora Nair Leite Ribeiro Nassarala, que ministra aulas de História na Universidade do Sagrado Coração (USC) e de Antropologia na Instituição Toledo de Ensino (ITE), acredita que essa é uma tradição que remonta às origens do povo brasileiro e que se mantém principalmente em períodos de crise.
Em Bauru, as trocas podem ser observadas em diferentes pontos da cidade. A tradicional feira do rolo, realizada aos domingos, entre as ruas Júlio Prestes e Gustavo Maciel, é um exemplo vivo desse costume. Lá, são encontrados diversos tipos de objetos - de discos de vinil a sirenes e motores de barco -, que ficam em exposição, aguardando uma boa oferta para que possa ser feito o rolo, a negociação.
Em brechós e casas de móveis usados, as barganhas também são freqüentes. Até mesmo nos classificados de jornal pode-se observar os anúncios de trocas diversas.
Isabel Cristina Duque Sebastião e seu marido, Manoel Donizete Sebastião, são exemplos de pessoas que costumam trocar objetos de casa, carros e eletrodomésticos. Manoel troca carros e peças de automóveis que já não servem para ele. Entre outros objetos, o casal já trocou aspirador de pó, câmera de vídeo e computador. Em uma das negociações, por exemplo, eles receberam como oferta um computador, em troca de um Fusca.
Isabel acha a prática importante pelo reaproveitamento de objetos e utensílios que já não estavam sendo utilizados. Acho interessante porque é uma coisa que a gente não usa e vai servir para outra pessoa. A gente passa para alguém que usa, e aquilo vai ter uma utilidade imensa, disse.
Atualmente, o casal está tentando vender uma máquina para limpeza a vapor quente de sofás, cortinas e azulejos. Eles aceitam troca e, apesar de ainda não conseguirem uma boa proposta, já receberam algumas ofertas. Nós estamos esperando propostas para ver se nos interessa. Já ofereceram computador, linha telefônica, máquina de costura. Ainda não me interessou porque, na verdade, eu queria uma televisão pequena ou um vídeo usado. É uma coisa que eu acho que usaria mais, expôs.
Já Terezinha Alves de Jesus, está oferecendo uma máquina de estampar camisa e aceita como pagamento um carro ou moto no valor de R$ 1.800,00. Estou me desfazendo porque não vou usar e pretendo mudar de casa. A máquina atrapalharia. Quero trocar com algo que eu possa vender rápido ou com algo com que eu fique, como um carro, disse.
No Brechó Compra Tudo, que fica na quadra 1 da rua Monsenhor Claro, freqüentemente aparecem clientes interessados em trocar peças de roupa. O proprietário do estabelecimento, Valdir Gomes Teixeira, afirma que em sua cidade natal, Araçatuba, as barganhas não são um costume tão forte quanto em Bauru. Em Araçatuba, isso não funciona. Lá, eles doam para instituições de caridade, asilos. Aqui, o pessoal troca de tudo: discos usados, roupas, canecas etc. Percebi que isso é uma tendência aqui, afirma.
Teixeira conta que as ofertas são diversas. Oferecem de tudo para trocar: aparelhos de ginástica - esteira, bicicleta ergométrica -, geladeiras, eletrodomésticos, rádios antigos, expôs.
No entanto, quando o assunto é peças de roupa, nem sempre o rolo é um bom negócio. Tem bastante troca. Quando é valor pequeno, como roupas, às vezes atrapalha. Quem troca não quer sair perdendo, observou.
Já na casa de móveis usados que Teixeira também administra, as trocas são mais freqüentes. A pessoa tem uma cama de casal ou duas de solteiro e prefere trocar por uma beliche, por exemplo. Ou tem um jogo de sofás e troca por um menor, por causa do espaço na casa, explicou.
O comerciante acredita que a crise financeira pela qual o País está passando intensifica a tradição da troca. O mercado de usados é um mercado em expansão pela crise pela qual o País está passando. É o ramo da crise. As pessoas querem roupas e têm que inventar formas alternativas. É para economia mesmo, ressaltou.
Permutas
As trocas também acontecem na administração pública. Isso acontece em casos de desapropriações desejadas pela Prefeitura, feitas por meio da Secretaria Municipal de Planejamento (Seplan). O procedimento é chamado de permuta: a administração municipal oferece uma área que não seja de interesse para o Município, em troca da área a ser desapropriada.
De acordo com Tânia Camemura, da Seplan, o procedimento é uma facilidade no que refere-se ao pagamento. As permutas são realizadas após avaliação técnica dos valores dos terrenos, por um engenheiro.
Professora
A professora Nair conta que as barganhas remetem às origens brasileiras, principalmente à cultura indígena, em que o sistema de troca era o único sistema que existia. Quando os portugueses vieram para o Brasil, não havia moeda, ela não era cunhada no Brasil. E nem sempre existia outro e prata em abundância para suprir as necessidades de comércio.
Além disso, a professora destaca que a troca é uma tradição que remonta às nossas origens e que se intensifica, atualmente, em momentos de crise financeira. Mesmo havendo a troca monetária, a falta de moeda sempre levou ao desenvolvimento desse sistema. Nas épocas negras da Europa, no século XIV, foi bastante comum as pessoas tentarem trocar coisas. É uma tradição histórica que remonta à Idade Média na Europa. Estamos em momento de crise: falta dinheiro, falta trabalho. As alternativas e soluções vão sendo buscadas. E como o mercado se amplia com a troca, a tendência é as pessoas entrarem nesse mercado mesmo havendo a moeda, esclareceu a professora.