08 de julho de 2026
Geral

Trekking no Everest - Parte III

(*)Luciano Dias Pires Filho
| Tempo de leitura: 5 min

Gorak Shep

Chegamos por volta das 14h15, depois de um trekking pesado de mais ou menos 3 horas. O problema foi a elevação e o terreno extremamente acidentado. Mas a visão é maravilhosa. Seguimos ao lado do Glaciar Khumbu numa trilha literalmente equilibrando-nos na lateral da montanha. Quem despencasse de lá de cima tinha 100 ou 200 metros para ralar montanha abaixo. Foi um dos momentos em que me dei conta de que havia sim, risco de vida envolvido nessa aventura. E não tinha ali ninguém para te segurar...era andar com cuidado e atenção.

O glacier é espetacular. Em alguns lugares ele quebra-se, revelando seu interior. O que parecia uma montanha de pedra e poeira, revela uma alma azul. Gelo puro. Com centenas de metros de espessura, de altura, de diâmetro, do que quer que seja....

A noite foi debaixo de neve. E de manhã, quando acordei, o interior da barraca estava cheio de cristais de gelo da minha respiração, condensados e presos ao teto. Qualquer movimento mais brusco gerava uma chuva de gelo na gente... Acordei com os sherpas me chamando: Luciano, come to see Everest. Saí da barraca e lá estava ele, com os raios de sol vindo de trás... Em minutos o sol banhou Gorak Shep. Lindo!

Base Camp

Depois da noite mais gelada da minha vida em Gorak Shep e de uma caminhada de 4 horas e 15 minutos, atingimos nosso objetivo: o Campo Base.

Me adiantei bastante e enquanto esperava a turma, peguei o binóculo, sentei numa pedra e comecei a vasculhar a cascata de gelo, o primeiro desafio na subida para o topo do Everest. Pronto! Lá estavam eles. Filas de alpinistas descendo a cascata de volta para o Campo Base.Tudo aquilo que li e vi no cinema estava se realizando. Ao vivo, a cores, diante de meu nariz...

O Campo Base é uma coisa esquisita. O terreno é tão acidentado que para ir de uma barraca para outra é uma ginástica. Sobe em pedra, desce de pedra, escorrega no gelo, pula a fenda, e assim vai. Nossas barracas foram montadas num local horrível. Almoçamos numa tenda cujo chão era um mistura de pedra e gelo.

Depois do almoço, eu e o Eric (um dos trekkers), mais Lakpa e Dawa (dois sherpas), fomos até a cascata de gelo, logo ali...

A cascata é uma cascata mesmo. Bilhões de toneladas de gelo que escorrem montanha abaixo e depois transformam-se num rio de gelo que é o glaciar. Tudo em movimento, imperceptível é claro, mas em movimento.

De repente um estrondo. Uma avalanche! Todo mundo olhando preocupado pra ver se foi em cima da turma que estava na cascata. Não foi, mas a cena do gelo caindo e aquele estrondo interminável é impressionante. E a gente ouviria e veria umas 10 ou 12 avalanches durante o tempo em que permanecemos no Campo Base.

Khumbu Incefall

O trajeto no Campo Base até a cascata de gelo é uma viagem. São mais ou menos 200 metros, mas parecem quilômetros. Levamos 25 minutos! A cada dezena de metros, uma expedição de nacionalidade diferente.

Ficamos ali observando os alpinistas descendo. Para nós, chegar até aquele ponto foi um esforço tão grande e a gente estava com a energia tão baixa, que mal dava ânimo de andar mais um pouco.

Mas eu olhei ali a cascata; olhei a corda que os alpinistas usam para começar a subida; pensei no esforço que foi sair do Brasil e chegar até ali e imaginei que nunca mais voltaria lá.... Resolvi.

Desci, peguei a corda e subi até a Cascata de Gelo. Até onde eu deveria estar usando os grampões... Ali, onde os alpinistas começam sua aventura pelo Everest...

Eu cheguei lá! Eu estava na trilha de Mallory, Hillary, Norgay, Messner....Quantos brasileiros fizeram isso? 100? 300? 1000?Eu fiz!Uma grande emoção.

Depois fizemos a cera habitual, jantamos e fomos dormir. A cada 15 minutos a gente ficava sobressaltado com uma avalanche. Depois acostumamos.

Enquanto me preparava para dormir, pensei sobre o local onde eu estava. O ruído das avalanches não deixava dúvidas: aquele lugar estava vivo. Os blocos de gelo estavam se movendo. As fendas se abrindo e fechando. A qualquer momento aquilo tudo pode vir abaixo. E eu estava ali, dormindo sobre aquele terreno... Bateu um medão, mas aí a gente lembra que a coisa lá é assim a milhões de anos. Será que a montanha vai cair justo no dia que eu estou lá? Não mesmo! Então o negócio é dormir.

De manhã fomos até o acampamento onde estava o Babu Chiri, o sherpa mais famoso do momento, que já havia alcançado o topo do Everest 10 vezes, havia batido o recorde de subida, com pouco menos de 17 horas de escalada, e também batido o recorde de permanência no topo do Everest, com 21 horas! O cara é fera, e estava lá. Quando chegamos ao acampamento ficamos sabendo que ele já havia saído para o Campo 2.

Mal sabíamos que, em duas semanas, Babu Chiri estaria morto ao cair numa fenda enquanto tirava fotos no Acampamento 2...

Um comentário interessante que ouvimos mais de uma vez: acima dos 4.000 metros, o corpo humano começa a deteriorar-se. E quanto mais alto a gente vai, mais rápida é essa deterioração. Acima dos 8.000 metros, a morte é uma questão de horas. Ali nos 4, 5mil, a gente começa a sentir os efeitos... Pra ser drástico, o que quero dizer é que acima dos 4 mil metros a gente começa a morrer devagarinho... O corpo consome as reservas de energia e depois os músculos... A gente emagrece numa velocidade impressionante. Os alpinistas que permanecem 10 semanas acima dos 5 mil metros perdem 20, 30 quilos! eu perdi 6 quilos...

(*)Especial para o JC Turismo. www.trekkingeverest.com