08 de julho de 2026
Geral

A guerra contra as crianças

(*) Graça Machel
| Tempo de leitura: 3 min

As guerras sempre provocaram vítimas entre as crianças e outros não-combatentes, mas as guerras modernas estão explorando, mutilando e matando as crianças de maneira mais implacável e mais sistemática do que nunca. O fim da Guerra Fria fez nascer a esperança de um fim para os conflitos que haviam sido alimentados pelas diferenças ideológicas das superpotências. Entretanto, guerras foram desencadeadas praticamente em todas as partes do globo, seja entre as nações-estado ou, mais comumente, dentro delas. O impacto destes conflitos sobre as crianças tem sido devastador. Mata-se milhões de crianças, alvos deliberados nas guerras, ou incorporadas nelas como combatentes. E milhões mais caíram vítimas da desnutrição, doença, violência sexual e estragos sofridos durante as fugas forçadas. Das muitas causas da proliferação destes conflitos, destacam-se a disputa pelos recursos naturais: os diamantes financiam guerras de longo alcance em Serra Leoa e Angola. No Sudão, o petróleo alimenta a guerra civil, e o lucro com as drogas estão no centro das lutas armadas no Afeganistão e na Colômbia. As próprias guerras são perpetuadas pelas vendas internacionais de armas, em especial as de pequeno calibre. De fato, as armas pequenas agora são tão acessíveis que as comunidades mais pobres podem adquirir armas mortíferas capazes de transformar qualquer conflito local numa sangrenta matança. Afogados pela dívida externa e pelos programas de ajuste estrutural, muitos países são forçados a reestruturar suas economias, cortar serviços básicos e reduzir o tamanho do setor público. Ao fazerem isso, freqüentemente enfraquecem as economias nacionais e deixam o caminho para outros setores que competem pelo poder e pelo lucro. Os conflitos contemporâneos são particularmente letais para as crianças porque nelas se faz pouca distinção entre os combatentes e os civis. Em décadas recentes, a proporção de civis entre as vítimas de guerra saltou dramaticamente de 5% para mais de 90%. Nos anos 90, mais de dois milhões de crianças morreram em razão de conflitos armados e mais de três vezes desse número ficaram permanentemente inválidas ou seriamente feridas. Hoje em dia, cerca de 20 milhões de crianças deixaram seus lares, seja como refugiados ou como deslocados dentro de seus próprios países. A ajuda internacional de emergência para as vítimas dos conflitos é inadequada e desigual. Como se sabe, as crianças e as mulheres são os que mais sofrem nessas circunstâncias. Entre 1994 e 1999, as Nações Unidas requisitaram US$ 13,5 bilhões de fundos para ajuda nessas emergências, mas receberam menos de US$ 9 bilhões. A comunidade internacional alcançou impressionantes instrumentos para proteger os direitos humanos e para processar os autores de genocídios. Entretanto, muitos países e grupos armados ignoram impunemente suas responsabilidades frente a esses tratados. Esta impunidade diante dos crimes de guerra contra crianças deve terminar. A soberania nacional nunca deve amparar aqueles que são direta ou indiretamente responsáveis por crimes tão nefandos. Devem ser empreendidas ações nacionais e internacionais para que respondam por suas ações quem as comete e quem as apóia.

(*) A autora, Graça Machel, é ex-ministra da Educação de Moçambique e ex-primeira-dama de Moçambique e da África do Sul.