08 de julho de 2026
Geral

O JORNAL DA CIDADE E A MINHA AVÓ

Catarina Carvalho
| Tempo de leitura: 2 min

O Caderno Ser dedicado à vovó me fez abrir a caixinha da saudade da minha avó. Aprendi com a minha avó do sítio, senhora Salma Miziara, que agradecer nunca é demais. Aliás, com minha saudosa vovó aprendi através do exemplo o que era gratidão, união, amor, solidariedade e trabalho. Só modernizamos as edições. Aprendi também a lutar pelo que acreditava e a brigar pelo justo sem temores dos poderosos. Ela era tão humilde e grande. Aprendi mais: construir sempre mesmo que desmoronassem o nosso mundo. Recomeçar, então, nem falar. Foi com ela que descobri o brilho dos olhos pintados, o sorriso quase constante. A mesa farta dos imigrantes árabes, a arte de agregar e proteger a família nas épocas difíceis. Aqueles bolinhos de chuva no fogão à lenha, o café no coador de pano e os pães amanhecidos com a criatividade das rabanadas, na Água do Paiol.

As crianças acordando, de todos os cômodos da casa de tábua tão aconchegante. Um detalhe, em casa de avó, fechou a porta tudo vira quarto. Os animais domésticos esperando sua voz amiga. Ah! Minha avó tinha sempre uma palavra meiga para todos nós. Eu era sua princesa. Engraçado, na sua maneira de ver tudo que eu fazia estava certo. Quando eu me excedia em qualquer argumentação ela ralhava com a firmeza de quem ama e quer acertar. Que criatura era minha avó! Acho até que a globalização é coisa dela, tantas as boas ações espalhadas pelos quatro cantos da cidade. Imaginem uma avó caipira, que vinha de jardineira para Bauru, a Cidade de Espantos, dos carros de bois de Rodrigues de Abreu, descia na Praça Machado de Melo e a pé subia a Batista de Carvalho, comprava no Júlio Meca e nas lojas dos patrícios, e depois ainda levava um lanchinho carinhoso para as funcionárias da Câmara Municipal de Bauru. Isto, há mais de trinta anos. Será que ela também foi responsável... Não, de política ela não conhecia nada. Ela via pessoas e não posições sociais.

Gente, que saudade sinto da minha avó. No dia em que ela morreu eu perdi meu reinado e parte da minha história. Ela me via de um jeito que só quem ama muito consegue ver. Até as tristezas ela me ensinou a esconder com o sorriso: filha, ninguém precisa saber que você está sofrendo. A tristeza é apenas sua; o sorriso e alegria pertencem aos que convivem ou trabalham com você. Avó querida, foi pensando em você que escrevi para dizer que ter avó é algo sublime e moderno. Um banco de dados completo com perguntas, respostas e temperatura para cada ambiente. Falei da minha avó materna, mas Deus me abençoou duplamente: da avó Isabel Carvalho, também heroína da Água do Paiol, tive lições de raça, de coragem, de amor e de vida. Avó é artigo de luxo. O que tem de gente querendo uma avó, é brincadeira. (Catarina Carvalho, que também é Miziara)