08 de julho de 2026
Geral

Tamanho do cérebro é irrelevante

Redação
| Tempo de leitura: 5 min

Além de pequeno para um homem do seu tamanho, o cérebro de Einstein era bem mais arredondado do que o normal.

Ah, como todo mundo gosta de dizer o meu é maior que o seu. E os cientistas vivem dando corda. Inclusive analisando diferenças entre o cérebro de homens e mulheres, negros e brancos, santos e criminosos.

A moda de medir o cérebro começou no século 19, quando o vienense Franz Gall se convenceu de que habilidades melhores ou piores podem ser explicadas pelo maior ou menor desenvolvimento das regiões do cérebro responsáveis (e, diga-se de passagem, acabou expulso de Viena por cometer a heresia de dividir a mente em pequenas funções produzidas por pedacinhos do cérebro). Embora logo ficasse claro que as funções do cérebro não eram distribuídas exatamente como Gall as via, a idéia de que ter mais cérebro deve ser melhor é tão tentadora que muitos cientistas sérios ainda saem por aí medindo cérebros dos supostos opostos cognitivos, como nós e Einstein. Quem, diga-se de passagem, tinha o cérebro tão grande quanto o cérebro feminino médio - ou seja, para um homem, pequeno.

Einstein faleceu em 1955 do rompimento de um aneurisma na aorta. Com o consentimento de seu filho, seu cérebro foi retirado pelo patologista Thomas Harvey durante a necrópsia, fotografado, pesado, fixado, medido, e depois cortado em 240 pedacinhos. Que ficaram conservados numa jarra no escritório de Harvey, seu guardião legal.

Somente 30 anos depois, em 1985, Harvey publicou o primeiro estudo sobre o cérebro de Einstein: havia mais células gliais - o outro tipo de célula do cérebro, além dos neurônios - do que em outros cérebros. Mas como não se pensava que células gliais tivessem grande importância além de nutrir e suportar neurônios, ficou por isso mesmo. E depois, a diferença era pequena.

Até que em 1999 Harvey e duas colegas da Universidade McMaster, no Canadá, ressuscitaram as medidas do cérebro de Einstein feitas 44 anos antes, e fizeram outras, a partir das fotografias. O veredicto? Além de pequeno para um homem do seu tamanho, o cérebro de Einstein era bem mais arredondado do que o normal. Ah, e um dos sulcos centrais - aquelas covinhas do cérebro - estava faltando.

O interessante desse sulco desaparecido é que no cérebro humano típico ele demarca o limite do lobo parietal inferior, uma região do cérebro envolvida na cognição visuoespacial, na manipulação de figuras tridimensionais, na ideação matemática, e na visualização de movimento. Justamente aquelas funções que os pesquisadores acreditavam que diferenciariam as habilidades de Einstein. Por isso, imaginaram que o lobo parietal inferior poderia ser o diferencial do seu cérebro.

E saíram medindo o lobo parietal. Surpresa: uma das medidas parecia 50% maior no lado esquerdo do cérebro de Einstein do que nos outros. Mas aí vem o grande porém. Quanto vale uma medida baseada na distância entre os sulcos do cérebro num cérebro que não tem os sulcos no lugar certo? Mais interessante é o próprio desaparecimento do sulco, sugerindo que havia mais interconexões entre neurônios nessa região do cérebro de Einstein do que em outros cérebros.

Mesmo que a medida seja válida, Einstein não terá sido o único com o lobo parietal esquerdo maior que o direito. Segundo uma pesquisa recente do psiquiatra americano Godfrey Pearlson, especialista em medições do cérebro humano, homens em geral têm o lobo parietal inferior esquerdo maior do que o direito e 6% maior do que nas mulheres.

O problema é que Pearlson mediu tudo, menos o que realmente interessava: se o tamanho do lobo parietal esquerdo de fato corresponde a uma melhora nas habilidades correspondentes da pessoa, como a rotação tridimensional de objetos.

Mas não são só os homens que vão levar vantagem, não. Se eles têm aquilo grande, as mulheres também têm o seu pedaço maior: as áreas relacionadas à linguagem nos lobos temporal e frontal, segundo pesquisas anteriores do próprio Pearlson. Por isso ele acredita que na população em geral, a tendência de diferenças cerebrais entre homens e mulheres pode ser responsável pela caracterização popular (e, como querem alguns, psicológica) dos sexos: mulheres seriam melhores em habilidades verbais (não, isso não quer dizer falar mais, e sim melhor), em memória espacial (como achar a saída do shopping), e na identificação de seus sentimentos (função do lobo parietal inferior direito), enquanto homens seriam melhores em matemática, rotação de objetos, e em estimar tempo e movimento.

É verdade que em alguns casos o tamanho de certas regiões do cérebro pode ser revelador - mas quando é o tamanho relativo entre os dois lados do cérebro da mesma pessoa, e não o tamanho absoluto. O mesmo Pearlson descobriu, por exemplo, que no cérebro de homens esquizofrênicos é o lado direito do lobo parietal inferior o maior, e não o esquerdo. Mesmo assim, ocasionalmente homens sãos apresentam a mesma reversão. Por isso, dificilmente a palavra final em matéria de cognição será se esta ou aquela região do cérebro é maior. Mesmo porque a pergunta mais difícil, e perfeitamente cabível, continua: Einstein ficou um gênio em física porque seu lobo posterior inferior era maior do que o normal, ou seu lobo posterior inferior ficou maior do que o normal porque Einstein se dedicou aos cálculos da física?

E afinal, que diferença isso faz? Porque mais importante do que a fixação humana com a relação entre tamanho do cérebro e inteligência é saber que o cérebro com que nascemos não é a fronteira final: ele aprende e vai se modificando com nossos esforços.

O própio Einstein que o diga. Ele era disléxico, ou seja, provavelmente devido a uma anormalidade no cérebro, ele tinha muita dificuldade para ler. Exatamente como tantas crianças por aí que vêem e escrevem letras e sílabas ao contrário. Quem sabe uma delas será nosso(a) novo(a) Einstein?

Fonte: www.cerebro.bio.br