08 de julho de 2026
Geral

Nada acontece por acaso

(*) Padre Beto
| Tempo de leitura: 4 min

Depois de um dia inteiro na biblioteca da Universidade, tomei o metrô na estação Marienplatz, a estação central da cidade de Munique. Assim que embarquei, notei a presença de uma jovem com uma criança. Não sei explicar exatamente a razão, mas tive a forte impressão de que a jovem era brasileira. Quando vivemos por algum tempo no exterior acontece algo de estranho: nós sentimos pelo cheiro a presença de conterrâneos. Talvez seja um efeito colateral da saudade ou uma capacidade que desenvolvemos ao conviver com pessoas de diferentes nacionalidades.

O certo é que percebemos de longe quem é ou não brasileiro. A jovem, então, aproximou-se de mim e perguntou-me, em inglês, se ela estava no metrô certo. Obedecendo à minha intuição, respondi sua pergunta em português. A jovem deu um berro de susto e com um belo sorriso exclamou com naquele gostoso sotaque baiano: O senhor é brasileiro, é?

Entreguei-lhe meu cartão de visita e apresentei-me como padre da Comunidade de Língua Portuguesa. Foi, então, que a jovem ficou mesmo admirada. Ela estava na Alemanha visitando os pais da criança que acompanhava naquele momento. Esta deveria ser batizada e a jovem fora convidada para ser a madrinha. Mas até aquele momento os pais não haviam acertado com nenhuma paróquia a data do Batizado. Um mês depois, eu batizava Amanda, uma linda alemãzinha, filha de baianos. Depois da celebração, o tema foi um só. Se nós não tivéssemos nos encontrado naquele exato momento no metrô, a história teria sido outra. Sorte, azar, destino, coincidência, força das circunstâncias, enfim, se olharmos para nossa história encontraremos, com certeza, inúmeros acontecimentos e situações que não estavam previstos nem deveriam ter acontecido se a vida tivesse tomado o seu rumo lógico.

Às surpresas que a vida nos oferece, damos, muitas vezes, o nome infeliz de acaso.

O acaso é uma solução rápida para tentarmos explicar situações, das quais sua origem não conhecemos. Ele acontece independente de nosso querer, de causas racionais ou de conseqüências lógicas. O acaso aproxima-se muito do acidente e da contingência. Mas, enquanto o acidente é o oposto da determinação, a contingência da necessidade absoluta, o acaso coloca-se em oposição à ordem lógica das coisas. Mas, como o acidente e a contingência, o acaso não é somente a negação de um determinismo ou de uma explicação racional, mas é também o estabelecimento de uma des-ordem. Porém, se refletirmos melhor sobre as situações que vivemos, compreenderemos que o acaso é fruto de uma preguiça mental.

Muitas vezes recorremos à ele ao invés de nos esforçarmos em descobrir a ordem que existe por detrás de situações não explicáveis. O problema é que ao optarmos pelo acaso, perdemos a chance de entender a mensagem, muitas vezes de caráter vital, que a vida procura nos transmitir.

O ser humano não nasceu para ser ostra. De forma consciente ou não, ele vive em constante relação comunicativa consigo mesmo, com os outros e com o mundo. Esta comunicação é sempre um diálogo, ou seja, não somente o ser humano possui a palavra, mas também a vida. O segredo da felicidade está, justamente, em aprender a linguagem da vida e ter a paciência de ouvi-la. Como dizia Homero, a marca da sabedoria é ler corretamente o presente e marchar de acordo com a ocasião.

Qualquer acontecimento da vida é uma mensagem que oferece-nos orientação para continuarmos a caminhada. As circunstâncias nos ensinam quem na verdade somos, como estamos conduzindo a vida, quem vive ao nosso redor e quais as perspectivas que temos para sermos mais felizes. Esta sabedoria não surge da cultura dos livros, mas da atenção e do respeito diante do cotidiano.

É necessário conscientizarmo-nos de que nada em nossa vida acontece por acaso. Tudo possui sua razão de ser e constitui-se em um discurso a ser lido.

Para isso é necessário entender a nossa história não como algo fragmentado, mas sim como um continuum, onde as circunstâncias influenciam-se mutuamente.

Não existem vidas que desenvolvem-se paralelamente, mas todas estão entrelaçadas e fazem parte de um todo. Neste sentido, a esfera privada é uma ilusão, pois todos os seres humanos vivem em conivência e constroem uma única macro-história. Por isso é fundamental refletir regularmente sobre a nossa caminhada e os fatos que nela acontecem, procurando ler o livro que até agora escrevemos. Afinal de contas, acasos acontecem diariamente, continuamente.

Quem ainda não assistiu o filme de Paul Thomas Anderson Magnolia, deve assisti-lo. Quem já o assistiu, deve assisti-lo novamente. Quem já o assistiu novamente, vale a pena repetir a dose. O verdadeiro analfabeto é aquele que sabe ler, mas não lê (Mário Quintana).

(*) Especial para o JC CulturaFale comigo através do e-mail: roberto.daniel@lycos.com