A economia mundial registrou nos últimos dez anos uma situação de estabilidade econômica e inflação baixa. Isto ocorreu até mesmo nos países que antes primavam por seus processos hiperinflacionários crônicos e por suas gestões fiscais temerárias.
As economias em desenvolvimento tornaram-se mais responsáveis do ponto de vista orçamentário, combatendo com eficácia seus déficits fiscais primários, a exemplo do Brasil, Argentina, Uruguai, Colômbia e México. Também os tigres asiáticos, antes ágeis e agressivos, tornaram-se mais conservadores. Em todo o mundo, aumentou a estabilidade monetária e a inflação foi debelada. O conservadorismo fiscal e monetário tornou-se regra dominante.
O preço desta orientação macroeconômica foi que o crescimento econômico, principalmente para os países em desenvolvimento, deixou de ser regra, e tornou-se exceção. Ademais, surge por todos os cantos uma sensação de crescente injustiça, na medida em que a nova ordem econômica internacional é vista como benéfica para os países ricos, mas profundamente injusta e cruel para com as nações pobres de todo o mundo.
É contra isto que se insurgem os movimentos de Seattle, Davos, Quebec e Gênova. Esses movimentos antiglobalização buscam denunciar os custos políticos, sociais e ambientais da política global inexorável, e cruel, ainda que de notória eficiência.
No Brasil a resistência contra a globalização surge não apenas dos movimentos radicais de jovens irrequietos, mas também nos grandes conglomerados industriais e suas associações de classe. Pela primeira vez nota-se que a unanimidade que uniu o País contra a inflação e pela estabilidade econômica e que deu ao presidente Fernando Henrique um segundo mandato, acha-se em processo de esfacelamento. O consenso antiinflacionário não une mais os vários setores sociais e econômicos do País. Pelo contrário, os divide.
Consolidadas as conquistas do Plano Real, chegou a hora de repartir os benefícios. É o momento de dar início à era do crescimento econômico. É hora de reformular pensamentos com vistas ao investimento, à produção, ao fortalecimento do mercado interno e à conquista do mercado mundial.
Há um falso dilema que limita a natural vocação do Brasil para o crescimento econômico: o de que a busca da estabilidade implica reduzir ilimitadamente o crescimento. É preciso acreditar que, quando se controla a inflação se está fazendo política de crescimento, ao mesmo tempo em que, quando se persegue o crescimento se está praticando política de estabilidade econômica e social. Neste momento histórico, crescimento e estabilidade não são mais objetivos mutuamente excludentes.
Chegou o momento de mudar de marcha e desafiar antigos preconceitos.
(*) Marcos Cintra Cavalcanti de Albuquerque é doutor em Economia pela Universidade de Harvard (EUA) e deputado federal pelo PFL/SP.E-Mail: mcintra@marcoscintra.org