08 de julho de 2026
Geral

Império de milanos

(*) Fernando José Dias da Silva
| Tempo de leitura: 3 min

Uma nova classe se instalou no governo. São os procuradores, aqueles que procuram um candidato à Presidência da República. Já esticaram o pescoço para perscrutar o panorama no plenário da Câmara e do Senado. Não encontraram nada. Foram à Esplanada dos Ministérios e vislumbraram alguns tipos possíveis. Andaram pelos Estados e acharam mais duas ou três figuras cujos nomes foram anotados no caderninho. Mas o fato é que os procuradores continuam procurando. Depois da morte de Mário Covas, ficou duro para o governo arrumar alguém parecido com Fernando Henrique para dar prosseguimento ao império de mil anos do tucanato.

Na falta do nome salvador, Fernando Henrique anda se defendendo. Por enquanto quem está fazendo o papel de candidato é ele. Primeiro, porque é mais fácil, como presidente, desviar dos torpedos inimigos e descarregar munição de volta, contra os adversários. Depois, essa postura sinaliza que o candidato da situação - qualquer que seja ele - não pode se dissociar do governo.

Os procuradores continuam procurando. Andam pesquisando nos fundos das gavetas, nos gabinetes dos subsolos dos palácios, nos cantos dos corredores para ver se tem alguém escondido. Mas até agora necas. Em política as coisas são, ou não são. Não adianta ficar sonhando. É assim que atuam aqueles que se deram bem no metier. A política funciona no embalo da letra e da música de Arnaldo Antunes: que não é o que não pode ser que não é. E os tucanos não são novos na estrada. Conhecem as regras, não flutuam no éter, atuam com o pé no chão. Dessa forma, usando o pragmatismo mais frio, muitos tucanos parrudos já estão imaginando a hipótese de José Serra não ser candidato à Presidência. Isso não é coisa de dirigente municipal do partido, nem do encarregado dos assuntos artísticos da agremiação, parte daquele povo que tem costas largas e plumas vistosas dentro do PSDB.

Pois é, José Serra tem um dos ministérios mais visíveis do governo, o da Saúde. Está se saindo bem na empreitada. Mas não se mexe nas pesquisas eleitorais. Assim, nem mesmo ele se entusiasma com a candidatura. Se não houver mudanças no cenário, Serra vai é tratar da vida. Vai tentar uma reeleição para o Senado. Para o ministro Paulo Renato, da Educação, que também dirige um ministério visível, os tucanos que decidem reservam, com uma ponta de maldade, é claro, uma vaga na chapa dos candidatos a deputados federais do partido.

Resta Pedro Malan. Sempre que a situação engrossa surge o nome do ministro da Fazenda. Pedro Malan é sinônimo de Plano B. Alguns acham até que ele tem cara de presidente. Defende o governo, é respeitado nos meios que interessam e com um bom trabalho de marketing pode ser palatável para aqueles que decidem em última instância: os eleitores.

Acontece que existem tucanos mais realistas ainda - ou será pessimistas? São aqueles que já dão a parada como perdida, que acham que dessa vez já foi. Tucanos embriagados por doses amazônicas de pragmatismo acham que é melhor começar a pensar no futuro, que é preciso trabalhar com os dados que estão postos e não adianta reclamar. Pensar na hipótese, algum tempo atrás, daria até urticária no pessoal do PSDB. Mas agora não. Esses superpragmaticos já começam a pensar numa vitória de Lula. E por que não? Trabalhar com a hipótese é importante porque todas as opções devem ser consideradas.

Aliás, é preciso saber quais as possibilidades e ocupar espaços numa situação como essa. E aí nada mais natural do que aderir. Mas aderir com toda a dignidade possível, como se estivessem fazendo um favor. Como os tucanos não têm o defeito da modéstia, já falam numa aliança no segundo turno com o PT, para dar respeitabilidade ao partido de Lula. Fazer a ponte entre aqueles setores mais desconfiados e a turma dos barbudos. Por enquanto, essa é a paisagem. Pelo menos até que bata o vento e mude a posição da biruta.

(*) O autor, Fernando José Dias da Silva, é articulista da Agência Estado.