08 de julho de 2026
Geral

Eu estive lá: Trekking no Everest

Luciano Dias Pires Filho
| Tempo de leitura: 4 min

Acordei animado no dia 14, já de volta a Gorak Shep. Eu e o Eric nos preparamos para subir o Kala Pattar. Seria o ponto mais alto da viagem, a 5.700 metros. Dez minutos depois o Eric desistiu. Desceu para acompanhar a turma para Pheriche. Eu continuei subindo. O céu estava nublado e o Everest encoberto. No meio do caminho, subindo pela neve, o céu começou a abrir. A velha sorte não faltou e logo tivemos a chance de ter uma das vistas mais belas do Everest.

Fui o único do grupo a cumprir todo o programa! Logo eu que achei que não passaria de Namche... Tô feliz.

Voltei para baixo e o guia estava me esperando. Vinte minutos de descanso e vamos enfrentar a trilha para Pheriche. Lakpa, o sherpa, Blake, o guia, e eu decidimos imprimir um ritmo forte e mandamos bala. A trilha é complicada. Muita neve, muito gelo, muito barro, muita pedra...

Quando chegamos de volta àquele memorial aos alpinistas que morreram, parecia filme de ficção científica: tudo branco, a visibilidade baixíssima e a neve caindo... caindo...

Paramos em Dzugbla para um almoço. Eu precisava de algo gelado. Comprei uns sucos enlatados ali... Parecia que eu ia morrer, mas os minutos parados foram revigorantes. E dois pratos de fritas causaram uma recuperação milagrosa.

A continuação da trilha foi bem difícil. Muita água e lama. E o pior, as rochas e pedras soltas. A gente tinha que ir escolhendo o caminho... As botas ensopadas... .

Foi o trekking mais pesado de minha vida, pois eu vinha do Kala Pattar. Mas não me arrependo de nada.

A radiação solar me queimou o nariz, por baixo e por dentro. Se não vinha do sol, era refletida pela neve. Embora eu estivesse com o rosto todo coberto, com os óculos especiais para neve, o pouquinho de pele que ficou de fora, logo abaixo das têmporas e o nariz sofreram muito. Junto com a boca, que ficou em pedacinhos...

Chegamos de volta ao mosteiro de Tengboche num final de tarde maravilhoso. O céu limpo, as montanhas brilhando.

Consegui ligar para meu pessoal, que estava em Bauru com toda a família no almoço de Páscoa. A ligação foi o máximo. O telefone fica numa área restrita do monastério e tem um monge que cuida dele. Para usar tem que achar o monge e fazer a ligação do quarto dele. Muito legal. No final da ligação ele gentilmente me ofereceu um chá. Que gentileza.

De Tengboche caminhamos por quase 4 horas até Namche Bazaar. Aproveitei para dar mais umas voltas em Namche.

Lá pelas 5 horas, decidimos que iríamos dar uma folga para nosso cozinheiro e fomos a uma bakery (padaria) comer umas pizzas. Depois de quase 15 dias daquela dieta estranha, foi uma benção a meu estômago, que quase não acreditou. Eu acho que ouvi, entre uma mastigada e outra: Obrigado, muuuiitoo obrigado... vindo lá de dentro do estômago, rá, rá, rá.

O trekking para Lukla, no dia seguinte, levou 8 horas!!! No caminho paramos para comer um lanchinho e tomei 3 Fantas. Uma atrás da outra... Foram as mais deliciosas de minha vida.

Eu estava voltando à civilização. Os assuntos que a gente conversava incluíam banhos quentes, cheeseburguers e uma privada.

Eu fiz a caminhada num ritmo forte. Tínhamos mais uma subida forte antes de Lukla e decidi dar um sprint final. Botei minha reduzida e matei a subida como se estivesse em linha reta, quase atropelando Dawa, o sherpa que seguia em minha frente. Depois de 8 horas eu ainda tinha muito gás para queimar. Impressionante!

Cheguei a Lukla e fiquei esperando a turma para um abraço. Em Namche, na ida, eu havia dado aos sherpas um pacote com 15 camisas da seleção brasileira. Disse que era para toda a equipe e que em troca eu queria uma foto deles usando as camisas... Taí.

E sabe da maior? Sempre que eu dizia a eles que era do Brasil, ouvia: Ah! Brasil? Ronaldo... Romário...

Estava terminada nossa etapa em terra. Eu havia feito tudo a que me propus. Até mais.

Havia ali um gostinho de conquista, de vitória... Era algo íntimo, só meu, que de certa forma eu via espelhado nas expressões do Bernie e da Holly. Um certo alívio, um prazer de quem chega ao objetivo. Eu estava cheio de energia, de experiências, de histórias para contar. Eu tinha ido até o Everest.

Valeu a pena?

Muito.

Eu iria outra vez?

Sim! Desta vez pelo lado do Tibet.

O que é que vem pela frente?

Não sei. Estou namorando o Kilimanjaro... Mas isso é outra história.

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