08 de julho de 2026
Geral

O perigo está nos pés

Marcelo Ferrazoli (*)
| Tempo de leitura: 5 min

Em Bauru, 19 pessoas já foram autuadas este ano por usarem calçados inadequados para dirigir.

O fato é mais comum do que se parece. Segundo a 4ª Companhia da Polícia Militar de Bauru, somente este ano, no período de janeiro a agosto, 19 pessoas foram surpreendidas dirigindo com calçados considerados inadequados. A infração, considerada média pelo atual Código Nacional de Trânsito, está prevista neste em seu artigo 252, no inciso IV. Ela custou aos motoristas, além de uma multa de 80 Ufirs, a colocação de quatro pontos em seus prontuários.

O capitão Reginaldo de Souza Braga, da 4ª Cia., explica que são considerados desapropiados aqueles calçados que não se firmam no pé ou que comprometam a utilização dos pedais do veículo, caso dos chinelos, tamancos e sapatos com saltos exageradamente altos ou similares. Eles não possibilitam a fixação do pé de modo firme e seguro, dificultando operações nos pedais de embreagem, nos freios e na aceleração do veículo. Representam um constante perigo enquanto se dirige, posto possível que dificulte ou até impeça alguma manobra de importância vital, ressalta o capitão, para depois acrescentar:

Assim acontece com certos tipos de sapatos, mormente de uso feminino, demasiadamente finos na extremidade dianteira e com os saltos de trás excessivamente altos, podendo trancar nas dobras, entrâncias ou escaninhos dos pedais.

O PM enfatiza ainda que todo e qualquer outro calçado, como sandálias, tênis, alpargatas e botas não sofre objeção, desde que firmemente fixados nos pés ou que não tenha tamanho descomunal ou inapropiado.

Salto alto

Pesquisa feita por por um psicólogo e diretor de uma empresa que treina motoristas em São Paulo apontou que, de 3.095 alunos que se envolveram em acidentes, 491, ou 16%, tiveram como vilão o salto alto.

O autor da pesquisa, André dos Santos, estudou os casos dos motoristas que se envolveram em acidentes e procuraram a escola entre janeiro de 1.997 até janeiro deste ano. Do total de 3.095, 66% são mulheres, 24% são homens e 10% homossexuais.

Esse tipo de calçado é traiçoeiro e pode causar a falsa sensação de que, com ele, o pé chegará primeiro no pedal. Além disso, há o risco de enroscar.

Segundo o pesquisador, os piores sapatos para dirigir são os de plataforma e o de salto agulha. No primeiro, o salto chega primeiro no tapete do que no pedal. Alguns alunos disseram que, no momento do acidente, faltou freio. Ao verificarmos, descobrimos que a culpa foi do sapato, afirmou.

Outro problemático é o agulha. O maior risco é enroscar no tapete ou no próprio pedal. Esse tipo é desaconselhável porque tem uma inclinação de quase 40 graus do peito do pé até onde fica o calcanhar. Ao pisar, o agulha pode ir para baixo do pedal e travar.

Necessidade

A jornalista bauruense Vilma Borges afirma nunca ter passado por nenhum sufoco ao dirigir de salto alto. Usuária habitual de sapatos salto 7, ela só os tira para dirigir o seu Ford Ka aos finais de semana, quando dedica parte de seu tempo livre ao lazer. Na oportunidade, os sapatos dão lugar aos confortáveis pares de tênis. A mulher que disser que nunca dirigiu com salto alto estará mentindo, porque a grande maioria faz isso. Quando não estou trabalhando, opto por trajes mais esportivos, como os tênis, para dirigir. Entretanto, no dia-a-dia, não tenho como deixar de usar os sapatos de salto alto, diz a jornalista.

Borges justifica a utilização dos calçados como uma necessidade profissional. Por conta de meu trabalho, me desloco muito e faço inúmeros contatos, frequentando os ambientes mais variados. Com isso, vestir-se adequadamente acaba sendo uma exigência, ressalta.

Ela rechaça a idéia de levar dois sapatos dentro do carro, um de salto baixo para dirigir e o outro, de salto alto, para trabalhar. Os calçados de salto baixo dificilmente combinam com o tipo de roupa que temos de utilizar e, além disso, não tenho tempo para ficar trocando de sapato toda hora, afirma Borges.

A jornalista enfatiza que se sente confortável dirigindo com sapatos do gênero. Guio há 30 anos, seis deles usando salto alto, e nunca tive qualquer problema. A questão é simples. Para dirigir a planta do pé é a parte mais exigida nos pedais, e não é nela que os saltos dos sapatos se localizam, ensina ela.

Apesar disso, Borges também toma suas precauções. Os mules, tamancos e os saltos agulhas passam longe de seus pés quando o assunto é direção. Não uso esses e demais calçados que possam prender ou fazer o pé escorregar. Além disso, eles podem sair do pé durante o trânsito e, na ânsia de querer arrumá-los, podemos nos envolver nos mais variados tipos de acidentes, como atropelar alguém, bater em um poste ou subir em uma guia, destaca a jornalista.

Borges diz seguir uma receita básica para evitar problemas com os calçados no trânsito. Ela busca a estabilidade dupla. O ideal é utilizar sapatos que nos dêem estabilidade adequada para o pé ao andarmos e ao guiarmos os veículos, frisa ela, para depois concluir:

Para conseguir isso, dou preferência para saltos não muitos finos. Além disso, não uso sapatos novos no trânsito, só após sua sola estar já um pouco desgastada.

Indiferença

Para a comerciante bauruense Andréa França, dirigir com ou sem salto alto é a mesma coisa. Tanto faz com ou sem salto, pois não é ele que faz as mulheres baterem seus carros, e sim a desatenção, o atropelo, a tensão, a falta de prática na direção e a imprudência. O homem, por ser mais impetuoso ao volante, acaba se envolvendo mais em acidentes, considera ela.

Segundo Andréa, se a pessoa não se sente confortável com o salto ao andar, é burrice utilizá-lo para dirigir. É um fato óbvio. Quem não consegue guiar de salto consequentemente também não consegue andar com ele, disse.

A exemplo da jornalista, a comerciante também nunca passou por nenhum susto dirigindo com salto alto. É sopa usá-los. Eu os utilizo desde que tirei minha carteira de habilitação, há 16 anos, e nunca tive qualquer problema, afirmou ela.

Mesmo assim, ela ainda toma algumas precauções, como evitar os saltos agulha. Além de ser muito fino, é complicado até andar na rua com ele, destacou Andréa, para depois acrescentar:

Quando estou com salto alto para dirigir, puxo o banco um pouco para trás para ficar mais confortável.

(*)Fonte: Agência Folha