O presidente da CPI do Futebol, senador Álvaro Dias, disse ontem, em Bauru, que o futebol movimenta R$ 18 bi por ano
O presidente da CPI do Futebol, senador Álvaro Dias (sem partido) esteve na sede da OAB-Bauru, ontem, para uma palestra a convite das entidades esportivas da cidade. O senador falou sobre os trabalhos da CPI e o resultado das investigações, que culminaram com inquéritos abertos no Senado Federal e abertura de processos contra vários clubes e cartolas do futebol brasileiro na Receita Federal. Álvaro Dias criticou o presidente da Câmara dos Deputados, Aécio Neves (PSDB), que não abriu até agora nenhum processo de cassação de mandato contra o deputado federal Eurico Miranda, que preside o Vasco da Gama, clube do Rio de Janeiro (RJ). O senador afirmou que a CPI obteve que o futebol brasileiro movimenta R$ 18 bilhões por ano, mas, mesmo com tanto dinheiro, vive uma crise provocada pela falta de profissionalismo de seus comandantes. Leia os principais pontos da entrevista coletiva do senador:
Jornal da Cidade - A CPI identificou a transação irregular de jogadores para o Exterior?Álvaro Dias - Sim, quando eu redigi o requerimento propondo a CPI, a transação de jogadores com o Exterior foi um dos principais tópicos. O futebol movimenta anualmente, segundo levantou a Fundação Getúlio Vargas, R$ 18 bilhões, e boa parte desses recursos fica lá fora, disse Dias. Essas transações são, em grande parte, ilícitas. Porque, ou o dinheiro fica lá fora em contas numeradas em paraíso fiscal, ou ingressa irregularmente, porque não há operação cambial correspondente ao valor da transação no Banco Central. Essa investigação levanta os valores dos contratos em posse da CBF, que o Banco Central não conseguia até a CPI e foi a CPI que conseguiu. Então o Banco Central agora está fazendo a checagem do valor dos contratos com as operações cambiais.
Imprensa - A CPI conseguiu provar participação de técnicos nessas transações?Dias - Fala-se muito de técnicos, mas você não consegue provar. Disseram que o Wanderley Luxemburgo convoca jogadores para valorizá-los, mas isso não dá para provar. É uma questão de interpretação, porque vão dizer se o cara está jogando bem ou não para ser convocado. Nós somos 170 milhões de técnicos e fica difícil provar que o Wanderley convocou o Ivanilson para ele ser vendido para a Alemanha por US$ 7 milhões de dólares logo em seguida. Você pode ter a suspeita, mas não tem provas.
JC - Há comércio de jogadores menores de idade com o exterior?Dias - Para isto nós vamos tentar agora uma legislação que coíba a transação de menores para o exterior. Essa negociação ocorre em grande quantidade e sem legislação, o que facilita muitos os crimes. A contabilidade dos clubes também está sendo analisada. A CPI levou a Receita Federal a auditar a contabilidade de todos os clubes brasileiros. Quando as pessoas dizem que a CPI termina em pizza é porque não têm o exato conceito de uma CPI, acham que ela tem que prender e não é esse papel da CPI. Mas a Receita tem 99 auditores trabalhando hoje exclusivamente em função de CPI no Congresso e temos vários inquéritos contra clubes e dirigentes em andamento. O objetivo da CPI foi esse, verificar o que o País estava perdendo, como, por que, quem estava ganhando com essas negociações irregulares.
JC - Quais são os crimes encontrados?Dias - Em função da impunidade são crimes de corrupção que levam a crimes contra o sistema financeiro, a ordem tributária, a evasão de divisas, lavagem de dinheiro. Os bingos têm envolvimento com o futebol. Nós conseguimos identificar, principalmente em Porto Alegre (RS), com os clubes Internacional e Grêmio, que proprietários e ex-proprietários de bingos usavam agente Fifa lá fora e o dinheiro ficava em contas numeradas. Há inquéritos abertos contra o Grêmio, Internacional e também contra o Flamengo, Botafogo, Wanderley Luxemburgo, Vasco, Eurico Miranda, e nós ainda vamos pedir em relação às federações mineiras e carioca. O Santos Futebol Clube não vai escapar de um inquérito, é o caso mais grave em São Paulo. Nós estamos constatando uma verdadeira seleção de crimes a partir das transações do futebol brasileiro, onde boa parte do dinheiro fica no exterior. O País perde muito, o futebol perde, o povo brasileiro perde. Só alguns empresários, cartolas, ganham.
JC - Quando os trabalhos terminam?Dias - Nós temos prazo para ir até dezembro, mas queremos terminar o quanto antes. Nós queremos ir até outubro. Nós queremos uma nova legislação para o futebol do Brasil e o relatório conclusivo que será remetido ao Ministério Público (MP) a fim de que se chegue à responsabilização civil e criminal daqueles que se envolveram em ilícitos. O trabalho da CPI é a investigação.
Imprensa - O principal problema é a transação de jogadores com o exterior?Dias - Sem dúvida. A movimentação de valores mais expressivos se dá quando o clube vende suas estrelas para o exterior. O Sócrates tem dito muito. É preciso inverter esta situação. O futebol do Brasil ao invés de vender o espetáculo ele vende o artista e é preciso reter o artista aqui para vendermos um melhor espetáculo. O artista tem sido vendido porque há o interesse do enriquecimento ilícito. Alguns dirigentes, alguns cartolas, ganham muito quando vendem os nossos artistas da bola para o exterior.
JC - Qual a situação do Ricardo Teixeira e do Eurico Miranda na CPI?Dias - A situação do Eurico Miranda é de gravidade ímpar. Ele praticou, a meu ver, uma seleção de crimes. Embora eu seja presidente da CPI e tenha que me manter sem fazer apreciação, acho que não há nada de mal em fazê-la porque eu tenho que ser transparente e a sociedade tem o direito de saber através da imprensa que tem a obrigação de indagar. A situação do Eurico é gravíssima. A Câmara dos Deputados está diante de um fato muito sério. O presidente da Câmara não pode falar em agenda ética se não instalar um processo disciplinar que pode culminar com a cassação desse deputado. Quanto ao Ricardo Teixeira há fatos graves, mas nós temos ainda que dar a ele a oportunidade de defesa. Estou me antecipando em relação ao Eurico porque ele já teve oportunidade de se defender na CPI e não compareceu. O Ricardo Teixeira tem audiência marcada para o dia 30 na CPI.
JC - Qual a movimentação de dinheiro no País com o futebol?Dias - A Fundação Getúlio Vargas levantou que o futebol movimenta R$ 18 bilhões por ano. O esporte no Brasil é responsável por 1,6 % do PIB, enquanto que na Europa e Estados Unidos o esporte é responsável por 4%. E nós temos aqui um mercado fantástico. A conclusão é que não há profissionalismo, embora tenhamos um produto formidável. O futebol pode ser mais rentável, gerar mais renda, mais receita pública e promover mais o desenvolvimento. Esse é o objetivo da CPI. O que há é muita malandragem, corrupção e má gestão. O Congresso não teve competência ainda de propor uma legislação competente, essa é a autocrítica.
JC - O senhor vai jogar em que time partidário até outubro próximo?Dias - Não tenho ainda uma definição. Estou sendo vítima de um processo de expulsão no PSDB porque assinei o pedido de instalação de CPI da Corrupção no País. Seria uma brutal incoerência eu presidir uma CPI para investigar a CPI no Futebol e não colaborar para que seja apurada a corrupção nos governos neste País. Estou sendo expulso. É uma coisa que remonta o período ditatorial quando a Arena expulsava quem não votasse em seu candidato a presidente da República. Trata-se de uma invasão no mandato de senador. A sociedade brasileira quer ver o País passado a limpo. Estamos refletindo sobre a postura tomada pelo partido e há grande probalidade de deixar o partido. Está difícil de conviver em um partido que quer colocar a sujeira embaixo do tapete.