08 de julho de 2026
Geral

Bicho-da-seda pede espaço em Agudos

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 7 min

O italiano Giuseppe Briani, ex-criador de bicho-da-seda, acha que País perde ao não incentivar a sericicultura

Agudos - Bastou a Secretaria da Agricultura de São Paulo cogitar a possibilidade de voltar a investir na cultura do bicho-da-seda para o ex-produtor de Agudos, Giuseppe Briani, um italiano de 75 anos, misturar sentimentos que oscilam entre o ânimo e a apreensão. Ele entregou pessoalmente, ao secretário João Carlos de Souza Meirelles, que esteve em Bauru recentemente um projeto técnico com vistas a auxiliar o governo em uma possível retomada da sericicultura no Estado.

No projeto, Briani discorre, de uma forma bem resumida, sobre uma série de providências que o governo poderia tomar para revitalizar a sericicultura, que na opinião dele é de vital importância para a economia do pequeno agricultor. Entre as propostas estão a reativação do livre comércio de casulos e de ovos do bicho-da-seda. Briani mostra-se incomodado com o suposto monopólio que estaria sendo praticado pelas indústrias de fiação. Segundo o ex-produtor, esse monopólio aliado ao baixo preço pago pelo produto no País, estaria desestimulando a produção nos últimos 20 anos.

Briani alertou o secretário de que não adiantaria lançar qualquer projeto para retomar a criação do bicho-da-seda, sem mudar o atual sistema de produção. Com base em nossa experiência no Brasil e no Exterior, em vários projetos, acreditamos que não poderá haver o relançamento da sericicultura em nosso Estado se não existir centros de estudos, pesquisas e abastecimento de matrizes a quem precisar. Se continuarmos a manter esse monopólio interno industrial, não poderemos nos abastecer e muito menos pensarmos em exportar e ser competitivos no mercado, adverte Briani, em seu projeto.

Outra razão que fez com que ele desistisse da criação do bicho-da-seda foi o preço pago pelo casulo, segundo ele, muito abaixo do necessário para que um sericicultor mantenha-se estimulado com a atividade.

Briani esteve envolvido com a sericicultura entre 1974 e 81, quando chegou a plantar 20 hectares de amoreiras, para alimentar as lagartas que produziam, em média, 34 mil quilos de casulos por ano.

Nessa época, Agudos chegou a ter muitos criadores de bicho-da-seda relembra Briani. Hoje, no entanto, não há mais sericicultores na cidade. Para retomar a produção local, Briani sugere culturas intercaladas. Entre as amoreiras, o produtor poderia cultivar outros produtos como milho, feijão, mandioca e arroz para seu sustento, durante o ano. Ele lembra ainda que a amoreira tem um elevado teor de proteínas, o que poderia servir de complemento alimentar para o gado.

Apesar de achar oportuna a iniciativa do governo em querer incentivar a sericicultura no Estado, Briani mostra-se um tanto cético. Ele lembra que outros secretários, em épocas passadas, cogitaram sobre essa retomada na produção da seda, mas o assunto acabou caindo no esquecimento.

Agora ele volta à tona. No entanto, o desconfiado Briani faz questão de lembrar que o atual secretário deverá ficar no cargo por apenas mais um ano. Segundo ele, é pouco tempo para tentar desenvolver qualquer projeto mais ousado, como este.

Briani comenta que o País está perdendo uma grande chance para se transformar no maior produtor mundial de matéria-prima para um dos tecidos mais nobres que existe hoje. Em seu projeto, ele menciona a estagnação da produção mundial de fios de seda, que estaria no mesmo nível de 1976.

Entre os importadores, em potencial, ele cita a China, que não produz mais o suficiente para abastecer seu parque industrial. Diante desse quadro internacional favorável e das nossas privilegiadas condições geográficas e atmosféricas, o Brasil pode se transformar, em um brevíssimo período, no maior produtor e abastecedor do mercado internacional, acredita Briani.

Lins é a maior produtora do Estado

De acordo com as estatísticas do Instituto de Economia e Coordenadoria de Assistência Técnica Integral, o Estado de São Paulo produziu, em 2000, mais de 798 mil quilos de casulo. Lins foi a cidade que mais colaborou com essa produção. Foram mais de 211 mil quilos. Ou seja, 26% do total produzido no Estado.

Em 1999, o País produziu 1.554 toneladas de fios de seda e quase toda a produção foi exportada. O consumo interno ainda é pequeno. O principal comprador da seda brasileira é o Japão. Em 99, 69% de todo o fio de seda que o Brasil produziu teve como destino as indústrias japonesas. Outros importadores de destaque são os Estados Unidos, Itália, Índia, Coréia do Sul, França e Suíça, segundo a Secretaria da Agricultura do Paraná.

Na safra 98/99, o Estado do Paraná foi responsável por 87% da produção nacional de casulos, de acordo com a Secretaria. A atividade é desenvolvida em 231 municípios paranaenses, com destaque para Nova Esperança, com 606 criadores. Hoje, a cidade é considerada a capital nacional da seda.

Chineses, os precursores

Os primeiros a conhecer a seda foram os chineses. Eles descobriram que podiam fabricar com ela um tecido para fazer vestidos e acharam um meio de extrai-la dos animais que as produziam. A palavra seda é usada para denominar as secreções de filamentos, produzidas pelas lagartas de alguns tipos de borboletas. Por isso, as lagartas são popularmente conhecidas como bichos-da-seda.

A descoberta da seda data de aproximadamente 2.600 anos a.C., quando o imperador chinês Hwang-Te confiou a criação do bicho-da-seda à sua esposa, Hish-Ling-Shi. Os chineses observaram que as lagartas podiam viver, prosperar e se reproduzir em cativeiro, desde que bem alimentadas com folhas de amoreira. Para se ter uma idéia, a partir de 30 gramas de ovos, saem aproximadamente 40 mil bichos, que devoram em oito semanas cerca de 350 quilos de folhas.

A lagarta, quando nasce, não pesa mais que uma décima parte de um miligrama. Na fase adulta, com um comprimento de nove centímetros, ela pesa 10 gramas. Chega o momento então de transformar-se em crisálida, quando então fia a famosa seda.

Os chineses guardaram seus conhecimentos o melhor que puderam, pois desejavam ser os únicos a produzir a seda, que vendiam pelo mundo todo. A seda era transportada por terra, atravessando o Himalaia, a Índia e a Pérsia, até chegar a Turquia, Grécia e Roma, num percurso que ficou conhecido como a Rota da Seda.

No ano 550, o imperador romano Justiano, resolveu implantar a indústria da seda no império do Oriente e, para isso, enviou secretamente dois frades persas a China, para que trouxessem alguns ovos do bicho-da-seda e os conhecimentos necessários para sua criação.

Quando conseguiram a quantidade de ovos desejada, os dois frades retornaram com os mesmos, escondidos em um bambu, levando-os para Constantinopla. A criação desenvolveu-se sendo confiada a amigos do imperador. Com o tempo, o conhecimento espalhou-se por outros países, não ficando mais a criação do bicho-da-seda restrita a um privilegiado grupo de pessoas.

Enquanto a lagarta cresce, formam-se dois vasos ou sacos de cada lado de seu corpo e que se enchem de um líquido pegajoso. Saem então, através de orifícios, dois fios pequenos de uma espécie de baba, que provém daqueles sacos.

O inseto começa a tecer seu casulo, soltando dois fios sedosos pelos orifícios pequeníssimos, juntando-os em um só. Com esse material, a lagarta constrói uma cômoda e macia habitação. Para tanto, ela demora de três a cinco dias, de maneira que ao terminar o casulo, nele fica enterrada e completamente invisível.

A lagarta perde 50 % de seu peso, entre o início e o fim do processo. O casulo é uma bola de seda, resistente ao tato, em forma de ovo e normalmente branca ou amarela. Após duas ou três semanas, dele sairá uma pequena borboleta.

Casulos de seda

Com o casulo pronto, a interferência humana corta o processo natural, a fim de obter a famosa matéria-prima. Na realidade, a colheita da seda torna-se uma pequena tragédia, pois a manufatura de uma peça de seda, representa a morte de milhares de insetos.

Para se obter uma grande quantidade de casulos, existem os centros de criação artificiais de lagartas, onde elas são devidamente alimentadas. Faz-se a colheita dos casulos de oito a dez dias depois de prontos, quando os mesmos então são enviados à fiação. Lá, os casulos são mergulhados em um recipiente com água quente, para matar a crisálida e amolecer os mesmos, pois possuem uma espécie de goma, que cola os fios uns nos outros. (Fonte: ww.tecelagemanual.com.br)