08 de julho de 2026
Geral

Chame o ladrão

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 3 min

Como qualquer organização não-governamental de respeito, o Primeiro Comando da Capital também quer ter seu representante direto na Câmara Federal. Chega de intermediários. Vai transformar a sigla PCC em Partido da Comunidade Carcerária. O candidato escolhido chama-se Anselmo Maia, advogado que se dedica há muitos anos à defesa dos integrantes desse grupo. O PCC já deu mostras de competência e boa organização naquela rebelião simultânea articulada com os principais presídios de São Paulo. Nada fica a dever às instituições mais atualizadas com sua estrutura hierarquizada e o trabalho em rede sustentada por centrais de telecomunicações digitalizadas.

Estima-se que o desconhecido advogado poderá se eleger com a maior votação da história do nosso Parlamento. A ordem dada pelo PCC é de que cada preso arrume três votos com os seus familiares. Tirante as naturais defecções daqueles que vão preferir dar o seu voto a outro bandido, ou porque mereça ser reeleito ou simplesmente por coleguismo, o advogado Maia deverá chegar nos 430 mil votos. Maior que a votação de José Genoino nas eleições passadas, quando obteve mais de 300 mil sufrágios. Se analisarmos a história recente do Legislativo, poderemos concluir com tranqüilidade que a idéia do Partido da Comunidade Carcerária nada tem de absurda. Já tivemos em Brasília figuras como a de Hildebrando Paschoal, aquele coronel PM chefe do tráfico de narcóticos que fazia picadinho dos seus desafetos, auxiliados por uma motoserra. Enquanto se espera encontrar as impressões digitais de Jáder Barbalho em algum extrato bancário para depois expulsá-lo do Senado, a idéia do PCC como partido irá prosperar. Vale repetir: num País de incompetentes quem demonstra alguma eficiência vai longe. A cúpula do PCC consegue organizar de dentro dos presídios equipes de roubo; transacionar dinheiro do narcotráfico e de seqüestros; tem seu exército bem armado; equipamentos que incluem aviões, helicópteros e viaturas de todos os tipos. Nos morros do Rio de Janeiro e em favelas de São Paulo, o PCC chega a determinar até o horário dos seus habitantes irem para a cama. Toque de recolher às 22 horas. Cobram impostos e substituem o Estado nas suas omissões flagrantes. Exemplo: manter a população pobre assistida com o mínimo necessário à sobrevivência distribuir bolsas de estudo e estimular o ensino profissionalizante para que os meninos favelados não cresçam na marginalidade; manter creches para que as mães trabalhem e possam ajudar no orçamento doméstico. Auxílio doméstico. Auxílio-funeral não só para os que tombam no campo de luta. Quem morre no morro, tem direito a um enterro condigno.

Pensando bem, talvez nem seja interessante o PCC buscar representatividade na Câmara Federal. Pode ser um mau negócio. Periga conspurcar a honorabilidade do grupo legitimado na medida em que a sociedade admite a sua existência e o aceita. As autoridades do Governo de São Paulo já tiveram de negociar com a facção. Isso significa não só admitir sua existência, como a sua força face a rede de ramificações fora da cadeia. Num momento em que pipocam as greves de policiais militares e soldados encapuzados com metralhadoras na mão desafiam a ordem constituída, pode servir o conselho do sambinha de Chico Buarque - em caso de assalto, chame o ladrão, chame o ladrão, chame o ladrão. E antes que o espaço acabe associo-me às homenagens que estão sendo prestadas ao notável memorialista bauruense Gabriel Ruiz Pellegrina, pelos seu aniversário. Num País onde a História é tratada como coisa menor, onde os velhos são discriminados até pelo fato de terem que ouvir em volume mais alto ou por se esquecerem de coisas relacionadas ao passado recente, Gabriel é um privilegiado por chegar aos 80 com a saúde de um atleta e a memória de um elefante. Para nossa sorte ele dedica todas essas aptidões à cidade de Bauru, temperadas pela ética e a seriedade de quem tem espírito científico. Se nós hoje sabemos com alguma precisão do nosso passado da cidade e, com isso podemos melhor contextualizar o presente para até projetar o futuro, muito devemos a esse jovem chamado Gabriel. Viva.