08 de julho de 2026
Geral

LEMBRANÇAS DE MEU PAI

Frei Lourenço M. Papin
| Tempo de leitura: 3 min

Era o dia do aniversário natalício de minha mãe: 27 de julho de 1977. No dia em que ela nascia para esta vida, meu pai nascia para a Vida Eterna! O que fez-me lembrar os antigos cristãos que chamavam de dia natalício o dia da morte de um cristão. Lembro-me de um amigo de meu pai, com lágrimas nos olhos, despedindo-se dele com uma delicada e graciosa bronca: Sêo João, por que você escolheu o dia do aniversário de dona Palmira para morrer?

É meu costume dizer que entendemos melhor nosso pai e nossa mãe depois que eles partem desta vida. Isso vivenciei e experimentei com a morte de meus pais.

Meu pai era simples, humilde e autêntico. Viveu sua infância e juventude no campo. Casando-se, tornou-se comerciante de secos e molhados, conforme simpática expressão de tempos idos. Nunca se esqueceu, porém, de sua origem rural. Seu linguajar tinha sempre o sabor da terra, das plantas, da chuva, do sol e da lua. Sabia admirar e respeitar a natureza. Descubro agora que meu pai era um ecologista! Observador atento, conhecia os segredos da natureza e seus fenômenos. Era um meteorologista nato. Nunca falhou em suas previsões de chuva ou de estio. Que o diga o Nelson, meu irmão adotivo, professor de meteorologia em São José dos Campos. Quando lhe perguntavam o segredo dessas suas adivinhações, respondia: reparei a lua, o sol, o barulho do trem de ferro e senti os calos de meus pés!

Sua maior freguesia era da roça. Saudoso, relembro seu relacionamento de amizade e confiança com os fregueses. A contra-gosto anotava os fiados. Os empréstimos que fazia eram na base da palavra de honra, sem nenhum documento escrito! Sêo João e dona Palmira a todos acolhiam, sem hora marcada. Aos domingos, como era bonito ver tanta gente chegando da roça, a pé ou de trolinho e charrete, e lá em casa se arrumando para participar da Missa. Quantas noivas e noivos lá em casa se vestiram e se prepararam para seu casamento no civil e no religioso. Bem criança, lembro-me de meu pai na igreja durante a Missa. Ao soar da sineta, ele se concentrava colocando a cabeça entre as mãos. Olhando para ele, me perguntava: por que meu pai ficou tão sério? Era o momento da Consagração. Uma lição de catecismo, sem palavras, gravada para sempre em minha mente. Ainda que ele fosse muito sensível, poucas vezes vi meu pai chorar. Tenho certeza que suas lágrimas eram mais lágrimas interiores.

Chorou profusamente ao ver seu pai morrer. Do convés do navio que atracava no porto, eu o vi enxugando lágrimas pela alegria de ver o filho que da Itália voltava sacerdote, após uma ausência de sete ano. Grato a Deus, chorou com minha mãe quando celebrei a Primeira Missa na mesma igreja em que se casara. Emocionado chorou quando acompanhou até o altar a caçula de nove filhos.

Choro eu agora, lembrando meu pai simples, humilde e autêntico, pensando em seus 46 anos de vida conjugal e familiar vividos no amor-doação, na fidelidade e na ternura. Guardo comigo aquele lenço de seda que ele recebeu de minha mãe quando eram noivos e que conservou sempre escondido no bolso do paletó do lado do coração, que surpresa quando minha mãe, após sua morte, o encontrou caprichosamente dobrado. Choro ainda sua partida, grato a Deus pelo pai amigo que tive, pelas lições de vida que deixou para nós seus filhos. Conforto-me, porém, professando a fé na ressurreição dos mortos e na Vida Eterna, certo que estou unido a ele no mistério do amor que não morre, do Amor de Deus que nos envolve além das fronteiras do tempo. Certo também que um dia nos encontraremos na Casa do Pai. E na saudade continuo o costume da criança que fui, repetindo sempre, bênção pai! (Frei Lourenço M. Papin)