08 de julho de 2026
Geral

Diferentes formas de ser pai

Padre Beto (*)
| Tempo de leitura: 4 min

A expressão Ele é como um pai para mim! não só diz muito sobre uma determinada relação com um grande amigo, mas é também uma das provas que o ser pai não é somente um fenômeno biológico (gerar um ser), mas principalmente um fenômeno ético e cultural. Na verdade, ser pai é um relacionamento.

Este é construído e definido através de papéis e funções que são determinadas pela cultura e mentalidade do grupo social. Por isso, a figura do paizão está sujeita a transformações dependendo da época e do local em que se vive. O significado de ser pai no século passado não era a mesma que temos no início deste novo milênio. Sendo também um fenômeno cultural, o ser pai é vivido hoje de forma diferenciada nos diversos cantos do mundo apesar da atual globalização e virtualidade on-line. Não há necessidade de irmos para as tribos indígenas da Amazônia ou para países orientais, como Índia ou Japão, para encontrarmos diferentes formas de ser pai.

Com toda a certeza, a alegria de ganhar um filho é normalmente a mesma tanto em uma cultura germânica (Inglaterra, Alemanha, Holanda ou Países Escandinavos) como em uma cultura latina (Portugal, Espanha, Itália ou Brasil). Mas, a partir daí, começam a surgir as diferenças éticas que acabam caracterizando diferentes formas de ser pai.

Por exemplo, a responsabilidade do pai em relação a seus filhos parece ser no Brasil mais prolongada do que na Alemanha. Os pais alemães sentem-se responsáveis pelos filhos durante sua infância e parte da juventude.

Mas, quando os filhos atingem os seus vinte poucos anos já são convidados pelo pai a encontrarem seu próprio canto. Aqui o tema ainda não é casamento, mas sim independência. Normalmente, um jovem de vinte e poucos anos é visto pelos pais como adulto e portanto não deve continuar morando junto com os pais. Já no nosso mundo latino a juventude parece ser mais longa, o que faz com que os pais sintam-se responsáveis pelos filhos por muito mais tempo. É claro que a situação socio-econômica acaba levando a isso, pois quando o filho está desempregado o paizão é talvez a única ajuda.

Mas, se na Alemanha a independência do filho em relação ao pai chega mais cedo, o tornar-se pai demora um pouco mais. O jovem alemão normalmente torna-se pai depois dos trinta. A tendência na sociedade alemã é a dos jovens viverem sozinhos durante um bom tempo para depois resolverem se casar. Para o jovem é prioridade o curso universitário ou profissionalizante, as muitas viagens pelo mundo (dentre os europeus os alemães são os que mais investem em viagens) e a estabilidade financeira.

Outra forte tendência é a de namorados viverem juntos e só depois de alguns anos (cinco ou sete anos), quando há uma segurança na relação, tomarem a decisão de terem um filho. Aqui sim, entra em questão o tema casamento. Bem antes da gravidez é então oficializado a relação dos dois com o casamento civil e religioso. No nosso mundo latino o ser pai chega muito mais cedo, apesar de muitas vezes os filhos não terem ainda a necessária maturidade e independência em relação aos pais (às vezes até a aposentadoria do paizão entra em jogo). Em muitos casos uma gravidez não planejada é a razão para o início de uma vida a dois.

Por se casarem normalmente depois dos trinta, os alemães geralmente possuem poucos filhos (a média é de duas crianças), já no mundo latino famílias numerosas e a falta de planejamento familiar ainda predominam.

Outra diferença do ser pai é a expectativa em relação ao futuro dos filhos. Como os alemães estabelecem bem cedo uma independência entre pais e filhos, os primeiros parecem não criar expectativas em relação ao futuro dos últimos.

Normalmente as decisões dos filhos sobre suas vidas são aceitas com grande liberdade pelos pais. Já na nossa mentalidade o ser pai possui a tendência de influenciar no futuro dos filhos, tornando-se este muitas vezes uma forma de realização dos sonhos dos pais. Se os pais alemães exigem dos filhos que tenham cedo sua independência, quando atingem a velhice não admitem também a dependência deles em relação aos seus filhos. O numero de Asilos para idosos na Alemanha é impressionante. Apesar de serem condomínios de muito conforto, a solidão porém é companheira do dia-a-dia. Sem dúvida alguma, o aforismo de Marx não deixa de ser uma verdade: Não é a consciência dos homens que determina o seu ser, é o seu ser social que determina a sua consciência.

O importante é não esquecer que este ser social não é absoluto, mas sim mutável. Eu desejo a todos os pais a alegria única de serem amados por seus filhos e as Bênçãos do Deus da Vida.

Fale comigo através do e-mail: roberto.daniel@lycos.com

(*) Especial para o JC Cultura