07 de julho de 2026
Geral

Jovens talentos

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 6 min

As crianças e jovens criativos são muito inteligentes, observam coisas que outros deixam passar. Eles são mais sensíveis do que o comum em seu meio ou, em outras palavras, mais abertas a seu ambiente. Por isso, são capazes de produzir mais idéias sobre determinados assuntos do que os outras jovens da sua idade. Pesquisas comprovam que os estudantes criativos escrevem histórias mais longas porque usam uma maior variedade de palavras, por exemplo. A criança criativa também é mais flexível que a maioria e tem a capacidade de produzir idéias raras, resolver problemas incomuns, usar coisas ou situações de modo não costumeiro. Além disso, geralmente, possui um acentuado senso de humor, inconformismo e autoconfiança. Com todas essas qualidades, o destaque é uma conseqüência.

De acordo com o neuropsiquiatra infantil Alfredo Castro Neto, a criatividade se desenvolve mais depressa do que a inteligência, porque não dispõe da linguagem. Por seu poder de fantasiar, vai usando um mundo próprio que lhe oriente o comportamento, diz. Entre quatro e cinco anos, porém, a criatividade atinge o máximo e depois declina um pouco quando entra na escola, por volta dos cinco anos. Essa baixa da criatividade, que já foi considerada um fenômeno natural, é encarada atualmente como, em parte e talvez até principalmente, condicionada pela cultura.

A criatividade continua a crescer da primeira à terceira série, decresce fortemente no começo da quarta, sobe durante a quarta e sexta, decaindo no princípio da sétima. Na quinta série, todavia, a subida é principalmente entre as meninas e exprime-se mais pela fluência do que por originalidade, explica Castro Neto.

Barreiras

Mas nem sempre as crianças criativas desenvolvem toda a sua capacidade por que são bloqueadas por barreiras culturais e, em alguns casos, biológicas. De acordo com o neuropsiquiatra, nos anos pré-escolares, o maior freio à criatividade é a tendência, observada em nossa cultura, para diminuir o período de jogo e imaginação. Isso faz com que os pais e professores se tornem responsáveis por manterem viva a capacidade de fantasia da criança até que ela amadureça com boa criatividade.

A criança não abandona a criatividade espontaneamente, mas o faz premida pelos adultos que desejam que ela pense e atue realisticamente, diz Castro Neto. A tendência dos livros e brinquedos de tornarem-se cada vez mais práticos e realistas, na verdade, também reduz a imaginação infantil.

Na escola primária, a decisão da professora de manter disciplina em detrimento da iniciativa e da espontaneidade é outro fator que tem resultados negativos. É um obstáculo poderoso, a pressão da cultura, representada pelos colegas e reforçada pela tendência dos professores a acentuar a harmonia do grupo em vez do progresso do indivíduo que aprende, diz.

Outra barreira é o excesso de importância que se atribui ao papel dos sexos. Criatividade reclama sensibilidade, que, em geral, se considera virtude feminina, e independência de pensamento, que costuma ser encarada como masculina. Desse modo, estimulando os meninos e as meninas a se aterem aos seus papéis, tolhemos o crescimento da criatividade.

Na adolescência mais do que nunca se espera que o jovem lute por virilidade a todo custo, seja no campo do esporte, seja com o sexo oposto. Ao mesmo tempo se exige dele cada vez mais precisão, em lugar de originalidade no trabalho, além da pontualidade em entregá-lo. Tem ele, ainda, de escolher entre as carreiras convencionais, explica Castro Neto.

Professores mais criativos também

Para que haja educação criativa é necessário que alunos e professores se encontrem como pessoas, afirma Alfredo Castro Neto. Para ele, o professor criativo tem o cuidado de não imprimir sua personalidade indevidamente no assunto, para evitar o risco de não mais falar diretamente aos alunos. Procura, isto sim, invadir e inundar de sentimento o assunto.

Muitas vezes, na escola, a energia criadora da criança é frustrada pelos regulamentos planejados para manter em ordem massas de jovens, fazendo-os comportarem-se em uníssono, afirma Castro Neto. Na verdade, professores e alunos precisam ser salvos de um sistema que não mais educa indivíduos, mas processa ou industrializa multidões. Portanto, para que possamos realmente nutrir a criatividade, a educação precisa ser repensada.

Exemplos de criatividade

A estudante Laís Anversa é uma dessas jovens criativas. Aos 14 anos, estudante da 8ª série, ela se destaca quando o assunto é o uso da língua portuguesa. Sempre tive facilidade para escrever, para fazer redação porque adoro o Português, conta. Mas foi com seus poemas que ela começou a chamar atenção. Comecei a escrevê-los com 13 anos, por causa da escola, e depois passei a escrever quando pensava em algum tema específico, conta. Geralmente alguma coisa relacionada ao mundo dos adolescentes, completa. Seu tema favorito é o amor, embora afirme não ter um namorado, mas não rejeita nenhum tipo de assunto. Já escrevi até sobre a fome, lembra. Às vezes não dá para escolher, estou sem fazer nada, sento e começo a escrever sobre a inspiração do momento. Laís não pensa em parar de escrever, embora ainda não saiba se vai seguir alguma carreira que esteja relacionada com a escrita, e um dia sonha em publicar seus poemas. Tenho uma prima que já publicou um livro e vive me incentivando, acho que um dia vai dar certo, acredita.

A também estudante Tássia Nicolau Carvalho já realizou o sonho de publicar um livro. Aos 17 anos, ela é autora do livro de poesias Coração Adolescente, uma edição independente com apoio da Edusc, e já iniciou a segunda obra, desta vez um romance - também com um tema voltado para os adolescentes. O que acho que é que falta adolescente escrevendo para adolescente, diz.

Tássia começou a carreira literária logo cedo, aos 14 anos e, assim como Laís, na escola - o que ressalta a importância do estímulo dos professores para o desenvolvimento dos alunos. A diferença é que ela pretende continuar a trabalhar com a escrita no futuro. Quero estudar jornalismo ou rádio e TV, afirma, lembrando que sempre recebeu muito apoio da família para desenvolver o seu dom.

Na televisão

Para o estudante Douglas Marques Paulino, o incentivo da família também foi fundamental para que ele continuasse a fazer o que gosta: dançar. Aos 10 anos, ele carrega quatro anos de experiência na dança, já fez jazz, balé, sapateado e se prepara para participar pela terceira vez de um concurso de dança na televisão, no programa Raul Gil. Já ganhei o concurso lá uma vez e estou indo de novo, conta. A rotina diária do bailarino mirim inclui pouquíssimo tempo para outras atividades, já que ele praticamente sai de casa para a escola e dela para a academia. Pretendo ser um bailarino profissional um dia, por isso tenho que estudar, justifica. Mas quando sobra um tempinho também gosto de andar de skate e jogar futebol.

Estimulando a criatividade

Segundo Alfredo Castro Neto, ainda se sabe pouco a criatividade para que se possa indicar uma fórmula de estimulá-la completamente. Mas do que já se sabe é possível dar algumas instruções para pais e professores:

Os adultos precisam estimular os estudantes a terem idéias originais - idéias que, pelo menos, sejam originais para eles O professor tem de procurar manter o encantamento do aluno pela novidade Deve-se encorajar expressão espontânea, especialmente nas crianças mais novas Aguçar a curiosidade do aluno por aquilo que, nos seus estudos, se relaciona com o mundo que o cerca A criação envolve autodireção, pois o criador, além de intuir, precisa verificar suas idéias. Aprender criatividade é antes de tudo aprender pela própria iniciativa Às vezes, a criança criativa necessita mais de um ambiente em que possa reagir do que de um ambiente estimulante