08 de julho de 2026
Geral

O guardião do whisky

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 9 min

Fã do esporte, principalmente do futebol, o advogado Roberto Dotto De Rosis não tinha planos de colecionar garrafas de whisky. Aliás, garrafas de nenhuma bebida alcoólica, já que ele só toma refrigerantes e isotônicos. Esporte não combina com bebida, define. Mas o destino acabou lhe dando uma coleção de whiskys considerável e daí a paixão surgiu. Hoje ele tem mais de 600 garrafas da bebida em recipientes que vão das pequenas miniaturas de 20ml às garrafas gigantes de 5 litros e não pensa em parar com a coleção, que é totalmente catalogada e organizada com a ajuda da esposa, Sara. Acho bonito, diz. O Caderno Ser visitou o bar da casa de De Rosis e conversou com o colecionador sobre a água da vida escocesa e todas as suas particularidades.

Jornal da Cidade - Como você começou a colecionar whisky?Roberto Dotto De Rosis - Começou com meu pai, há 25 anos. Ele ganhava muitas garrafas de whisky porque era diretor de um banco, então começou a colecionar. Quando ele faleceu, nenhum dos meus seis irmãos se interessou pela coleção, então ela ficou para mim.

JC - Quantas garrafas ele tinha, na época? Roberto - Umas 70 ou 80 garrafas ele tinha. Como ele não era bebedor, ele simplesmente guardava as garrafas, é o meu caso também?

JC - Você não bebe?Roberto - Não. Eu gosto de colecionar, gosto do whisky dentro da garrafa. É por isso que eu acho que funciona a minha coleção. É claro que se tiver um festa eu posso até tomar alguma coisa, mas não sou de beber whisky todo dia no happy hour. Bebo socialmente.

JC - Você aumentou bastante a coleção que herdou do seu pai. Qual o critério que você usa para comprar os whiskys, marca, idade, raridade?Roberto - Compro whiskys diferentes, que não podem ser encontrados facilmente. Quando comecei a me interessar pela coleção, ia atrás de garrafas diferentes, bonitas, edições comemorativas...

JC - Quantas garrafas você tem hoje?Roberto - Miniaturas eu não conto, mas tenho quase 200. Agora entre garrafas de 1 litro, 3 litros, 5 litros e recipientes de porcelana, tenho 400 e poucos. Mas no total, fazendo a conta como fazem os colecionadores de whisky, são mais de 600 unidades. Marcas diferentes são mais de 170. Isso ainda é pouco porque entre miniaturas de whisky normal de 750ml e 1 litro, no mundo, para colecionadores, existem mais de 3 mil unidades. O maior colecionador de whisky do mundo tem 3 mil cento e poucas garrafas. É o Claive Vidiz, que é brasileiro.

JC - Você também ganha muito whisky dos amigos?Roberto - Exatamente, meus amigos sabem que eu gosto e sempre me dão whisky de presente, principalmente quando vão para fora do País. Eu mesmo quando viajo ao invés de entrar em lojas vou até os supermercados para procurar whiskys diferentes.

JC - Você continua comprando pelo visual?Roberto - Hoje o whisky está muito caro, por causa do dólar, então compro os que são mais acessíveis. Tenho whiskys raros aqui, que até não existem mais, mas hoje eu também tenho outras prioridades na vida. Tem também aquela coisa de começo da coleção, quando ainda é um hobby você compra muito mais. Com o passar do tempo vai conhecendo melhor os produtos e se torna mais seletivo. Às vezes vejo whiskys que são caros, mas também que são muito fáceis de serem encontrados, então não compro logo de cara. Não é isso que eu estou procurando. Quero os que sejam mais difíceis. Para se ter uma idéia, uma vez meu cunhado foi para o Japão e ele perguntou que whisky eu queria. Pedi para ele não me trazer o Suntory, que é whisky bom, mas facilmente encontrado aqui. Eu disse para ele entrar num supermercado qualquer e procurar o whisky japonês mais barato que houvesse. Ele voltou com uma garrafa de um whisky que eu nunca tinha ouvido falar ou tinha visto em importadoras. Era o que eu queria, uma garrafa difícil de ser encontrada no Brasil.

JC - Você quase não bebe whisky, mas experimenta de vez em quando, obviamente. Qual o melhor whisky que você já tomou? Roberto - Eu gosto de whiskys mais suaves e não tão encorpados. Gosto do Cutty Sark, do Jack Daniels... Tomei o Royal Salute há mais de dez anos pela última vez e acho que foi o melhor whisky que já experimentei. Mas eu não sou um colecionador que bebe, então não posso dizer qual é melhor do que o outro. Os bebedores sabem deferenciar um blended de um single malt, um vatted, etc.

JC - O whisky dura para sempre?Roberto - É, uma das vantagens do whisky é que ele não estraga. Antes estragavam os whiskys quando colocavam em recipientes de barro. Com o tempo o gosto do barro passava para bebida, hoje isso não acontece mais e a bebida dura por muitos anos se for guardada num lugar fresco, longe da luz e bem fechada, senão evapora. Tem também um detalhe interessante que é sobre a idade do whisky. Muita gente acha que ele envelhece na garrafa, mas isso não é verdade. Ele envelhece no barril, por isso se estiver marcado 12 anos na garrafa é a idade que ele vai ter para sempre.

JC - O que você tem de antigo ou raro na sua coleção, que já era do seu pai ou não?Roberto - Tem um whisky President, que é bem antigo e até evaporou um pouco, que nem é mais fabricado hoje; tem esse Ballantines 30 anos, que também não é mais fabricado hoje em dia. É um whisky difícil de fabricar; tem essa botija do Old Parr, que também é difícil de achar...

JC - A origem do whisky é irlandesa. Como ele foi parar na Escócia e se tornar a bebida oficial do país?Roberto - Existe uma certa controvérsia porque os indianos dizem que faziam uma bebida que hoje seria o whisky, em 800 a.C., o mesmo acontece na Irlanda, onde dizem que São Patrício, o padroeiro do país já fabricava o whisky no século V. Mas, oficialmente, dizem que a bebida foi inventada na Escócia no dia 8 de agosto de 1494 (leia mais no boxe). O whisky se popularizou muito na Escócia porque um ingrediente primordial para se ter um bom whisky é a água e a Escócia possui mais de 100 mil fontes. Lá a água é puríssima, límpida. Ainda tem o clima que ajuda e a cevada boa. A Escócia tem tudo isso. Eles produzem cerca de 400 milhões de barris por ano e a maioria é exportada. Dizem que durante todo o ano, 2% desse volume líquido todo evapora e faz com que o ar tenha um aroma natural de carvalho.

JC - Você tem whiskys de quantos paísesRoberto - Fora os escoceses, tenho bourbons americanos e canadenses e tenho whiskys da Irlanda, do Japão, da França, Dinamarca, México, Itália, Argentina e do Brasil.

JC - O que uma pessoa que quer se tornar colecionadora deve começar comprando?Roberto - Deve comprar os whiskys mais baratos. Ninguém precisa comprar só whiskys caros ou raridades. Que compre um por mês, quando for ver já tem uma boa coleção. Existem whiskys raros sendo vendidos na Internet por 45 mil Reais, que é o preço de um carro. A coleção de whiskys raríssimos como este é uma coisa para poucas pessoas aqui no Brasil. É que esse não é o meu caso porque eu sou um colecionador modesto, gosto de variedades e não dessas coisas raríssimas.

JC - Você nunca pensou em colecionar outro tipo de bebida?Roberto - Não. Eu gosto de colecionar whisky mesmo.

A água da vida

O whisky é um dos destilados mais consumidos em todo o mundo. É uma aguardente de cereais envelhecida, cujo nome deriva da palavra gaélica uisge-beatha, que significa água da vida.

Existem muitas lendas e boatos, sobre a origem do whisky. Os indianos dizem que já o produziam cerca de 800 anos a.C. Na Irlanda, conta-se que o padroeiro do país, St. Patrick, nos anos 400, já fabricava uma bebida com os mesmos ingredientes do whisky, muito tempo antes dos registros oficiais escoceses. Oficialmente, no entanto, a origem do whisky é datada em 8 de agosto de 1494, quando o Rei James IV solicitou a produção de uma bebida à base de cevada ao Frei John Cor. O Rei James IV ainda era bem jovem, na casa dos vinte anos e era um grande apreciador de drinks, além de acreditar que alguns tinham dons medicinais.

Com o tempo a bebida foi ganhando tradição mas também variações. Hoje, os whiskys podem ser classificados como:

Escoceses (scotch) - São os produzidos na Escócia e os mais famosos e comercializados no mundo. O seu aroma e sabor característicos devem-se ao fumo da turfa utilizada na secagem do malte. O envelhecimento do whisky escocês é feito em cascos de carvalho durante um período mínimo de 3 anos. Os scotch ainda podem ser classificados em quatro tipos:

Single malt - feito só de cevada, não contendo nenhum tipo de mistura e fabricado em apenas uma destilaria.

Vatted - formado pela mistura de dois ou mais single malts.

Grain - produzido com cereais como milho ou trigo e alguns de centeio.

Blended - é o whisky mais globalizado. Seu sabor e identidade são o resultado da mistura do whisky de malte e de grão. São necessários de 35 a 200 whiskys diferentes para a criação de um perfeito blended.

Irlandeses (irish) - Produzidos na Irlanda a partir da destilação de malte, cevada, aveia, trigo e centeio.A principal diferença entre o irish e o scotch é que o irish não possui o aroma e sabor a fumo de turfa, a qual não se utiliza na Irlanda.

Americanos e canadenses (bourbon, corn e rye) - O bourbon é produzido no estado de Kentucky, tendo como principal cereal utilizado na sua destilação, o milho na proporção mínima de 51%. O corn, também produzido nos EUA é destilado a partir de milho na proporção mínima de 80% e o rye, feito nos EUA e também no Canadá, tem como principal cereal o centeioRye: é produzido nos EUA e Canadá, tendo como principal cereal utilizado, o centeio.