09 de julho de 2026
Geral

Estruturas subaproveitadas degradam Bauru

Josefa Cunha
| Tempo de leitura: 4 min

A política de privatizações e a constante propagação de notícias negativas sobre a administração do município de Bauru instalou uma situação pouco estimulante ao desenvolvimento da cidade. Diferente do levante experimentado nos primeiros anos da década de 70, quando se ergueu o anfiteatro Vitória Régia e a atraente Nações Unidas - entre outros vários marcos, Bauru tem vivido nos últimos anos uma estagnação sem precedentes. Sob a justificativa insistente e já de certa forma questionável da falta de recursos, a cidade trilha na contramão de seu potencial, irrefutavelmente voltado ao progresso.

O assunto pode derivar para diversos eixos de discussão e um deles é o subaproveitamento de estruturas ociosas e até mesmo ativas. O número de prédios abandonados e fechados é grandioso, a começar pelo patrimônio ferroviário de Bauru, que além dos espaços físicos invejáveis também leva consigo a carga histórica. No completo abandono, temos o antigo armazém da Fepasa, hoje abrigo de desocupados, usuários de drogas e menores de rua. Vizinhos a ele, está a estação que um dia já foi palco de glamour, agora totalmente depredada. Projeto há para revitalizar o local, mas com custos inviáveis para os cofres públicos.

Às margens da antiga Noroeste, mais sinal de abandono imobiliário. Na Vila Falcão, outra estrutura grandiosa, um dia pertencente ao Instituto Brasileiro do Café (IBC), praticamente sem uso - apenas uma parte está sendo aproveitada pela Receita Federal como depósito de mercadorias apreendidas. Voltando para o Centro, o prédio da Rede Ferroviária também está praticamente ocioso, exceto algumas alas ocupadas por setores administrativos da Ferroban. O cenário é realmente entristecedor, pois a concessionária não tem interesse de restaurar o imóvel e o município, dinheiro para adquiri-lo. Nesse impasse, quem sofre é a cidade e sua história, pois, a cada ano que passa, mais distante a possibilidade de recuperação do prédio.

Na lista dos imóveis abandonados ou semi-ociosos ainda figuram vários imóveis do Estado, cuja ocupação foi reduzida ou totalmente extinta com as privatizações. As ex-sedes dos almoxarifados da Cesp, localizados no entroncamento da avenida Cruzeiro do Sul com a rodovia Marechal Rondon, e o prédio do Departamento de Estradas de Rodagem (DER) estão parcialmente sem uso - o do DER hoje abriga escritórios da Cetesb e do Daee.

Menos aproveitado é o antigo Posto de Sementes, que tem apenas um pequeno espaço cedido à Secretaria Municipal de Esportes, que usa o espaço como ringue de boxe e depósito de materiais esportivos. Mesmo assim, o prédio clama por uma reforma, apresentando uma imagem degradada por conta da pintura velha e vidros quebrados. Nem mesmo na esfera particular a coisa é diferente. A área conhecida como dos Matarazzo, situada atrás do Terminal Rodoviário, continua ociosa, a exemplo do prédio que abrigava a Antarctica. Vale registrar que empresas públicas e privadas não se diferenciam apenas quanto aos objetivos (uma busca servir a sociedade e a outra visa a lucratividade acima de tudo), mas também quanto à estrutura física: enquanto a primeira é fixa e grandiosa, a segunda é errante (muda conforme o mercado) e diminuta.

O subaproveitamento de todas essas áreas citadas - e de outras várias não lembradas aqui - custa caro para o município e, especialmente, para quem mora na vizinhança delas. A desvalorização imobiliária é implacável e o reflexo social, grave. Zonas degradadas atraem a marginalidade e, simultaneamente, o interesse de potenciais investidores. Tome-se, por exemplo, a ausência contínua de novos empreendimentos na área central, que há tempos carece de um projeto de revitalização.

E quem pode mudar esse quadro? O poder público e apenas ele, seja através de medidas judiciais - como a ação da Prefeitura de Bauru que tramita no Ministério Público Federal cobrando a conservação do prédio ferroviário localizado no cruzamento das ruas Rio Branco e Agenor Meira - ou por meio de gestões políticas. É claro que não se pode exigir da administração municipal o dispêndio de milhões de reais na compra de prédios abandonados. Seria, inclusive, um contra-senso diante de tantas prioridades. Ao mesmo tempo, porém, não é possível eximi-la da responsabilidade de buscar, incessantemente, alternativas criativas e viáveis de contornar o problema.

A falta de dinheiro, pelo alarde que se fez e continua se fazendo, parece que tornou-se um problema crônico. Antes eram as dívidas herdadas, depois, o orçamento apertado, e, agora, a Lei de Responsabilidade Fiscal. Amanhã, certamente, haverão outras justificativas. Se não há solução, o jeito é se adaptar para não privar - ainda mais - a cidade de dias melhores. É procurar esforços como os que perdem a visão e, ao invés de passar a vida lamentando, encaram a deficiência aguçando o tato e os ouvidos. É sobreviver com qualidade de vida e dignidade.