09 de julho de 2026
Geral

Sexo na adolescência pede flexibilidade

Redação
| Tempo de leitura: 6 min

A liberdade para conversar e para agir com relação ao sexo dentro de casa varia bastante de acordo com cada família

Sexo ainda é um tabu em muitas famílias e, muitas vezes, motivo de discórdia. Atualmente, a intensidade do choque entre as gerações varia de acordo com costumes e hábitos de cada família. Alguns pais permitem que seus filhos mantenham relações sexuais dentro de casa, por exemplo. Em outras casas, isso é assunto proibido. Para Maria Lúcia Bien, que é psicóloga e terapeuta de casais e familiar, e Luciana Bien, psicóloga e coordenadora do Centro de Estudos HS, a solução para eventuais problemas é a flexibilidade e muito diálogo.

A liberdade para conversar e para agir com relação ao sexo dentro de casa varia bastante de acordo com cada família. Na casa de Maria Ângela Dolores, de 17 anos, estudante do terceiro colegial no Colégio Interativo, o assunto não é discutido entre pais e filhos, por exemplo.

A estudante namora há três meses e afirma que leva o namorado para casa às vezes. No entanto, dormir juntos em casa, nem pensar! Eu não faço isso porque meus pais não gostariam. Respeito a decisão deles porque sei que eles não curtiriam, disse.

Apesar de respeitar a posição dos pais, Maria Ângela confessa que gostaria de desfrutar de um relacionamento mais aberto com seus pais, principalmente no que refere-se a sexo. Eles não perguntam se eu transei ou não, e eu também não falo. Não existe esse tipo de coisa aqui. Não pode, é errado. Eles consideram errado, então eu nem falo no assunto. Mas eu gostaria que fosse tranqüilo, que eles deixassem tudo, expôs.

Já a família de Fabrício Dorateu, de 19 anos, encara as relações sexuais dos filhos de maneira diferente. Ele afirma que, no período em que esteve namorando, a namorada dormia em sua casa todos os finais de semana, sem empecilhos por parte dos pais. É normal. É tranqüilo minha namorada dormir em casa. Eu e meus pais conversamos sobre tudo; esse é um assunto como outro qualquer, garantiu.

A mãe do adolescente, Marilene Soares Miranda, confirma que o assunto sexo, em sua casa, não é encarado como um bicho-de-sete-cabeças. Quando meu filho mais velho começou a trazer a namorada para dormir eu ficava sem graça. Hoje em dia, eu encaro com a maior naturalidade. Se eu não der essa abertura, eles vão fazer em outro lugar e esconder. Prefiro que eles façam em casa que em outro lugar. Eu sou muito aberta com eles e sempre procurei ser assim, afirmou.

No entanto, Marilene admite que não sabe se seu comportamento seria o mesmo com filhas mulheres. Meus filhos são todos homens. Eu não sei se eu agiria da mesma forma se tivesse uma filha, observou.

Na casa de Vanessa A. Guedes de Azevedo, de 17 anos, foi estabelecido entre pais e filhos um meio-termo. Através de um relacionamento aberto, baseado em muita conversa, foram estabelecidos limites com os quais ambas as partes concordaram. Conversamos bastante sobre isso, mas não tenho a liberdade de trazer o namorado para dormir em casa. Meus pais não colocam empecilhos, eles explicam os cuidados a tomar. Eu levo meu namorado em casa, mas ele nunca dormiu. E eu jamais convidaria, mesmo porque respeito meus pais. Antes de tudo, está o respeito, salientou.

Vanessa conta que concorda com a posição dos pais, que nunca foi motivo de conflito em sua casa. Não temos nenhum conflito em casa, em relação a isso. Estão todos de acordo. Não adianta, os pais sempre têm razão. Meu pai sempre disse não, mas explicou o por quê do não, disse.

A mãe de Vanessa, Vânia R. A. Guedes de Azevedo, afirma que conversa sobre todos os assuntos com sua filha, respondendo a todas as questões que ela apresenta. No entanto, impõe certos limites quando o assunto são as relações sexuais. Dormir na minha casa? Não. A não ser em caso de doença. Acima de tudo, prevalece o respeito entre eu e ela, ressaltou.

Diálogo

A psicóloga Maria Lúcia Bien afirma que o assunto tem sido motivo de muitas discussões entre pais e filhos. Com os pais, jamais acontecia de dormir na casa de namorado. Ao mesmo tempo, os pais também não acham que os filhos devam ir para um motel, expõe.

A psicóloga Luciana atenta para a mudança de valores ocasionada pelo choque entre diferentes gerações. Hoje, a infância está ficando cada vez mais curta. A entrada na adolescência está sendo cada vez mais rápida, com uma idade menor. Com isso, os adolescentes começam a namorar, a ficar mais cedo. Aí entra a mudança de valores e diferenças de hábitos. Os pais precisam de um preparo para lidar com essa nova geração, disse Luciana.

Maria Lúcia enfatiza que o importante é que pais e filhos estabeleçam um consenso sobre como devem comportar-se no que refere-se aos relacionamentos sexuais dos adolescentes. Se o pai e a mãe acham que a namorada pode dormir lá, tudo bem. Tem pais que até dão o preservativo para os filhos. Se esses pais estão de comum acordo, tudo bem, colocou Maria Lúcia.

A psicóloga ressalta que, quanto mais houver diálogo, mais as duas partes aprendem a ceder. Muitos pais sabem que os filhos estão tendo relação sexual, mas não querem admitir. Eles fingem que não sabem. Os pais têm que ser mais claros com os filhos, não falar por entrelinhas. Explicar para eles que nem toda a família tem a mesma maneira de educar e que eles têm regras a cumprir, de acordo com cada família, explicou.

Luciana destaca a importância de que sejam estabelecidos e respeitados os limites de cada família. Não é porque você tem um filho entrando na adolescência que ele vai fazer alguma coisa porque os pais dos outros garotos deixam, ou porque a sociedade hoje é assim. O limite é fundamental. O filho precisa saber até onde ele pode ir e até onde ele não pode ir, salientou.

De acordo com Luciana, a palavra-chave para um relacionamento harmonioso entre pais e filhos adolescentes, no que refere-se não somente a sexo, mas a qualquer assunto, é a flexibilidade. O diálogo continua sendo uma das armas principais na relação entre pais e adolescentes, desde que as atitudes de ambos sejam coerentes com as decisões estabelecidas, garante.

E acrescenta: Os pais temem que se eles tiverem esse tipo de diálogo dentro de casa, eles estão incentivando o sexo, e não é por aí. Eles estão preparando os filhos para que os filhos tenham uma maturidade. Quando mais os pais proíbem, mais os adolescentes sentem-se instigados, advertiu.

Da mesma forma, Luciana adverte os filhos adolescentes para que busquem as conversas com os pais. Não taxar o pai e a mãe como caretas, quadrados, que não entendem nada, que só pegam no meu pé. É importante que o filho vá reivindicar um diálogo. Ele não precisa falar dele, mas às vezes contando um caso de um amigo, ele pode começar a perceber a reação dos pais, afirmou.

Workshop

Maria Lúcia e Luciana ministram o workshop Pais e filhos: o despertar para uma relação, cujo público-alvo são pais e adolescentes. Os interessados podem obter mais informações pelo telefone 223-3101.