A cada dia mais se alastra pelo mundo uma noção equivocada sobre o que seja ser prático. Ou objetivo. Ou pragmático. Supõem muitos, e tal suposição é promovida e divulgada maciçamente por poderosíssimos meios de comunicação social, que ser objetivo, ou realista, consiste em levar em conta e dar importância, primordial, se não exclusiva, ao que é concretamente apreensível pelos nossos sentidos corpóreos. O resto, constituir-se-ia de devaneios e especulações abstratas cuja validade, portanto, seria mais do que, discutível. Em tal clima, em semelhante disposição de espírito, torna-se viável, entre outras coisas, o esquecimento sobre o fato de que para que se estabeleçam metas e objetivos a serem conquistadas pelos seres humanos, o prático, o sensato, o objetivo, diríamos mesmo, o indispensável, é que se cogite sobre o que ele é. Afinal, apenas o encontro casual de substâncias químicas que, por sua complexidade, adquirem a propriedade de perceber o ambiente em que vive e de interagir como ele ou, se além dessas substâncias existe algo mais, não perceptível pelos sentidos corpóreos, mas nem por isso menos verdadeiro e menos importante. Afinal, no dintel do pórtico do templo de Delphos estava gravada a sentença: Homem, conhece-te a ti mesmo.
Conhecer-se a si mesmo, porém, significa dedicar tempo ao pensamento introspectivo, e tal tempo vem sendo praticamente anulado pela multiplicidade de estímulos externos que nos convidam à extroversão. Daí, e do fato de tais estímulos serem voltados para a sensibilização de necessidade, ou melhor, de desejos corpóreos, a loucura de um consumismo insensato, subordinado a uma nova espécie de baal Moloch, como temos assinalado tantas vezes, erigido absurdamente em ente autônomo ao qual nós, sem cuja atividade ele não existiria, devemos nos submeter. Invertem-se, assim, as posições: em lugar de servir o mercado àqueles que o criam, passa a subordiná-los e a fazê-lo em proveito dos pouquíssimos que detêm o seu contrôle originado, como acabamos de ver, de um equívoco fatal. Por isso, por tais razões, embora à primeira vista possa não parecê-lo, sociedades nacionais inteiras passam a trabalhar e a sofrer para honrar os compromissos, direta ou indiretamente nascidos e determinados pelo equívoco a que nos estamos referindo.
Já quando a meia dúzia dos detentores do poder de emitir o referencial financeiro internacional, o dólar americano, que adquiriram o privilégio sob o compromisso de que a cada dólar emitido fariam corresponder uma certa quantidade de ouro, guardada em Fort Knox, convidados a trocar os dólares que a França possuia pelo ouro que a eles deveria corresponder, a resposta foi que o ouro não estava disponível. E a isso não se chamou desonrar compromisso ou passar brutal e desabusado calote; simplesmente, noticiou-se que havia sido quebrado o padrão ouro. Mas continuou a ser o dólar, sem outro lastro além da capacidade intimidatória dos que, por detrás das cortinas, detêm efetivamente o poder, a ser o referencial financeiro internacional... O brutal calote a que nos estamos referindo ocorreu em 1971, quando o presidente Georges Pompidou, da França, tentou obter o ouro correspondente aos dólares que o seu país possuia. O relato que acabamos de fazer parece inacreditável, mas é rigorosamente verdadeiro. E o seu significado dá a medida da perversidade que vem sendo cometida contra nós e contra tantas outras nações. E tudo isso porque, respondendo à pergunta do pórtico do temlo de Delphos, temos nos esquecido da que figura nos alicerces da cultura judaico-cristã a que pertencemos e segundo os quais, somos criaturas de Deus, feitas à Sua imagem e semelhança. Acima, portanto, dos balls que nos são impingidos, em nome de um falso pragmatismo e de um falsíssimo espírito prático.
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