09 de julho de 2026
Geral

Crime organizado chega à zona rural

Rose Araujo
| Tempo de leitura: 4 min

O crime organizado está chegando à área rural. Quadrilhas muito bem equipadas e especializadas atacam fazendas e levam em comboio dezenas ou centenas de cabeças de gado, deixando os pecuaristas temerosos e assustados. A polícia está investigando, mas ainda tem dificuldade para chegar ao paradeiro dos ladrões que, ao que tudo indica, estão espalhados por todo o Estado.

As áreas rurais estão se tornando alvo do crime organizado. Quadrilhas estão tirando o sono de muitos pecuaristas, que ainda não sabem como se defender do ataque dos ladrões. O alvo predileto tem sido o gado. Somente nos últimos meses, mais de 300 cabeças foram levadas de propriedades situadas na região de Bauru. Esse número é referente apenas a ações de grande vulto, nas quais o prejuízo ultrapassou as dezenas de animais.

De acordo com o titular da Delegacia de Investigações Gerais/Grupo Armado de Repressão a Roubo e Assalto (DIG/Garra), José Jorge Cardia, um detalhe que tem chamado a atenção nas investigações é que a maioria dos lugares roubados são aqueles que apresentam algum tipo de facilidade para o autor do crime. Geralmente, o roubo acontece em lugares ermos e distantes da presença de pessoas, salientou.

Cardia, que está à frente das diligências em alguns dos casos ocorridos na região, ressaltou que esse tipo de crime é muito difícil de prevenir, já que são muitas propriedades rurais na região e quase todas sem nenhuma proteção contra a invasão de estranhos. São locais longe da vigilância. Em muitos casos, os animais ficam em propriedades inabitadas, salientou.

De acordo com ele, diversas quadrilhas estão agindo pelo Interior do Estado. Muitas pessoas já foram presas e o gado, devolvido ao dono, disse.

Alguns frigoríficos estão sob a mira da polícia, segundo o delegado. Eles poderiam estar fazendo a receptação desta carne ou até mesmo abatendo os animais.

O fato é que as ações criminosas são feitas por profissionais do setor pecuário. Isso porque esse tipo de roubo necessita de certo conhecimento para ser executado. Não é qualquer pessoa que sabe colocar os animais nos caminhões e abatê-los, explicou.

Larga escala

O pecuarista Güido Herweg foi um dos mais atingidos por essa onda de crime rural. No dia 29 de julho, ele chegou à sua fazenda, na cidade de Avaí, e detectou o sumiço de 172 cabeças de gado, um prejuízo calculado em cerca de R$ 90 mil. O Estado de São Paulo está cheio de bandidos especializados nesse tipo de roubo. Percebi isso agora que estou em busca do meu rebanho, salientou.

Os animais levados da propriedade do pecuarista eram da raça Nelore. Herweg calcula que os bandidos levaram cerca de cinco horas para tirar toda essa boiada da propriedade. Eles usaram, no mínimo, oito caminhões, disse.

O gado levado pela quadrilha estava em um local distante cerca de dois quilômetros do curral, longe da vigilância do caseiro. Se os bandidos tivessem entrado pela porteira principal, teriam sido notados. Mas, eles invadiram a fazenda através das cercas vizinhas, pelo meio de um canavial, explicou.

Para ele, o roubo deve ter sido muito bem calculado pelos ladrões. As pessoas que fizeram isso estudaram muito bem a propriedade e tinham pleno conhecimento dos animais, disse.

Além dele, outros pecuaristas foram atacados nos últimos meses na região, principalmente nas cidades de Borebi, Agudos, Lençóis Paulista e Bauru.

Os que ainda não receberam a visita surpresa das quadrilhas estão assustados com a situação.

É o caso de Sérgio Lomani Passos. Ele tem duas áreas arrendadas para a criação de Nelore e já andou tomando algumas providências. Em uma das terras arrendadas não havia ninguém tomando conta dos animais. Resolvi trazer todo o rebanho para outra área arrendada por mim, onde há funcionários para tomar conta, explicou.

Precauções

Essa decisão de Passos foi acertada, segundo o delegado J.J. Cardia. Para ele, o principal cuidado que o pecuarista deve ter é o de manter pessoas vigiando o rebanho. Esse tipo de roubo não acontece em questões de minutos. Ele é demorado, pois tem todo um processo para colocar o gado no caminhão. Além disso, exige a presença de veículos para o transporte, o que já seria algo bastante estranho dentro de uma propriedade rural. Por isso, a principal recomendação é manter pessoas atentas nas fazendas, para que elas percebam qualquer movimentação estranha, disse o delegado.

Güido já estuda uma possibilidade mais futurista. Para ele, o ideal seria equipar os animais com chips que possam ser rastreados por satélites, o que indicaria o caminho tomado pelas quadrilhas. É algo que não é muito usado no Brasil. Mas, se a violência continuar do jeito que está, os pecuaristas terão que se prevenir da melhor forma possível, salientou.

À princípio, ele recomenda aos criadores desmancharem os embarcadores de animais e providenciarem fossas em torno do rebanho, para evitar a aproximação de caminhões. São medidas paliativas, mas que podem coibir a ação dos bandidos, acrescentou.