As guerras modernas são expressões do caos ou por trás da visível irracionalidade ergue-se um modelo econômico muito mais articulado do que aparenta e que, além disso, produz benefícios para alguns dos atores internos e externos envolvidos? O arco de guerras atuais, da Colômbia à Indonésia, passando pelo Afeganistão, a zona do Cáucaso, Bálcãs e parte da África subsaariana, tem um imenso custo econômico e gera enormes movimentos de capital. O International Institute of Strategic Studies calcula, por exemplo, que o conflito colombiano custa aproximadamente US$ 1,5 bilhão por ano; o do Afeganistão, US$ 200 milhões; o do Sudão, US$ 184 milhões; e a guerra de Serra Leoa, US$ 14 milhões. Estas cifras são para orientação e limitadas, não mostrando a destruição em todas suas facetas. Num Estado em guerra, matam-se e ferem-se as pessoas, destróem-se núcleos familiares, rompe-se o consenso entre grupos sociais e arrasam-se as infra-estruturas que permitem o funcionamento interno da sociedade e, em parte, suas conexões com o Exterior. As oportunidades presentes e futuras se deformam.
A destruição não deixa espaços vazios. A economia ilegal substitui a legal ou formal. A corrupção ocupa o lugar da gestão transparente do Estado. A violência substitui a Justiça. Os Estados frágeis, como Somália, Serra Leoa ou Libéria, são entidades que existem apenas nos atlas. Na realidade, estão se desintegrando segundo linhas étnicas ou nos perímetros das zonas com recursos naturais. Um relatório realizado para o Conselho de Segurança da ONU sobre a exploração ilegal de recursos e outras formas de riqueza na República Democrática do Congo (RDC), por exemplo, indica que os recursos como café, madeira, gado e dinheiro desse país foram saqueados nos últimos anos pelos exércitos do Burundi, Ruanda e Uganda. Ao mesmo tempo, existe um planejamento e organização da qual participam governos, empresários, membros das forças armadas desses países e do Zimbábue e a própria RDC. As atividades ilícitas contribuem para prolongar a guerra e produzir uma sistemática exploração do país.
Essa política econômica de uma parte dos conflitos armados atuais fica clara num ensaio de William Reno, publicado no Anuário 2001 do Centro de Pesquisa para a Paz. O aparente caos das guerras de Serra Leoa, Somália, Angola ou RDC é desmentido pelo estudo de Reno. As elites promovem a corrupção e a debilidade do Estado, que vão unidas ao auge de economias à sombra e tráficos ilícitos. Trata-se de um modelo deliberadamente utilizado por governantes dos Estados afetados e seus aliados internos e externos para obter grandes benefícios. Nos conflitos mencionados, os recursos são a fonte essencial de disputa ou servem de base econômica a alguns dos atores envolvidos.
Por outro lado, um ensaio de Michael T. Klare indica que a competição pelos recursos será uma das fontes principais de conflitos armados nos próximos tempos. O consumo humano aumenta a demanda sobre terras cultiváveis e água. Os modelos industriais demandam determinados minerais e os modelos sociais de produção e consumo requerem mais gás e petróleo. Tal demanda é, em alguns casos, mais veloz do que a capacidade de reprodução dos recursos. Por sua vez, a globalização das relações econômicas, o crescimento da população nos países mais pobres e a urbanização rápida são três variáveis que condicionam a demanda de recursos.
Essa demanda poderá levar à luta pelo controle de recursos estratégicos, como o petróleo. Igualmente, determinados minerais com valores simbólicos e de investimento financeiro, como diamantes, esmeraldas e ouro, são objeto de conflitos. No decorrer dos anos 2000 e 2001, a relação entre exploração ilícita de pedras preciosas e conflitos armados foi amplamente debatida e denunciada, com especial atenção às guerras em Angola e Serra Leoa. Organizações como o Comitê Internacional da Cruz Vermelha e Oxfam, bem como as Nações Unidas, denunciaram a situação e exigiram uma regulamentação da exploração e do comércio de diamantes. O comércio ilícito aumenta a guerra: com o dinheiro ilegal compram-se armas, pagam-se mercenários e corrompem-se governos. As conseqüências são pagas pelas populações com sofrimento, pobreza sistemática e eventuais crises humanitárias.
(*) O autor, Mariano Aguirre, é diretor do Centro de Pesquisa para a Paz da Fundação Lar do Empregado, de Madri.