08 de julho de 2026
Geral

Inventaram a dúzia de dez

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 3 min

Cheguei em casa com a caixa de ovos debaixo do braço, para garantir a omeleta aux-fines-hérbes do brunch de domingo. Ao depositar as unidades no porta-ovos da geladeira notei que os produtores passaram a adotar a dúzia de dez. Compro caixas fechadas de uma dúzia desde o tempo em que se contava com o ovo na bunda (na hora da raiva usei outro substantivo mas resolvi substituí-lo) da galinha. Agora, os atravessadores resolveram inovar o tradicional. Descobriram o ovo de Colombo.

Busquei explicações com o dono do mercadinho do bairro e ele me disse que a coisa agora está assim. No invólucro é mencionada a quantidade. Portanto, não haveria como alegar má-fé. O preço é o mesmo da dúzia, com ligeira diferenciação em centavos, como forma de disfarce. À noite, pela televisão, descobri que o engodo é ainda maior. A prática foi estendida para pacotes de biscoitos de 400 gramas em vez de 500, caixas de fraldas de 10 unidades em vez de 12 ou rolos de papel higiênico de 30 metros em vez de 40 - sem redução equivalente no valor final. Seria ética essa indução do público a erro? Seja qual for a motivação do fabricante, o consumidor precisa ser informado de forma clara por que tem que pagar mais por menos quantidade de produto, como em alguns casos.

Compreendo que este país esteja à deriva e o empresário precisa pisar em ovos para driblar os efeitos da alta do câmbio e dos juros. Podem até alegar que se trata de uma estratégia de marketing, como o utilizado pelos donos de postos de gasolina que colocam aquele nove minúsculo na placa que anuncia o combustível mais barato, porém só em um milésimo de real.

Voltamos à maquiagem de preços, típico dos períodos de congelamento. Criam-se marcas novas com quantidades menores ou matérias-primas de qualidade inferior. Sinal que a inflação vem chegando de mansinho para solapar o salário do trabalhador. Já vimos esse filme.

Observe você, meu possível leitor, o quanto essa prática é danosa: com esse expediente em que as mercadorias perdem peso ou quantidade mas o valor se mantém, o consumidor perde duplamente. Explico melhor: além de pagar mais pela unidade, deixa de ser computado esse artifício nos índices de inflação, já que as pesquisas realizadas regularmente pelos institutos especializados não conseguem captá-lo. Em conseqüência, é imprescindível que essa tendência seja examinada com o máximo de transparência, para se conciliar os interesses das empresas com o dos consumidores. Embora ainda não ocorram de forma generalizada, manipulações de preço como as atuais constituíam-se em prática comum durante as malsucedidas tentativas de enfrentamento da inflação antes do real. São injustificáveis, porém, numa economia que, mesmo num ambiente de dificuldades crescentes mantém-se estável e fiel às regras de mercado. Nem mesmo a contenção das margens de lucro e a dificuldade de repasse da elevação de matérias-primas importadas justificam por si sós essa prática.

Também não estamos pregando nenhum modelo intervencionista para pôr fim ao golpe. Chega daquelas regulações que impunham até mesmo os preços finais e acabavam provocando desabastecimento. Acho que a grande lição deve partir do próprio consumidor repudiando os produtos de fabricantes que adotam essa estratégia de joão-sem-braço. Ninguém deve ficar com aquela cara de chupa-ovo própria de quem se indigna mas não reage. Não compre. Pronto.

Enquanto isso, indústrias e fornecedores estão diante de uma oportunidade importante para aproveitarem os canais de contato direto com o consumidor e sair na frente, expondo com clareza as razões da mudança. Seria lamentável se, mais uma vez, práticas condenáveis como a de reajustes disfarçados de preços viessem a tumultuar as relações entre quem vende e quem compra. Isso daria margem a ações deploráveis de intervencionismo oficial nas relações econômicas. Seria uma volta ao passado ainda recente, mas de tão triste memória que o País nem quer dele se lembrar.