10 de julho de 2026
Geral

História de Pescador: O "rei do armal"

Rinaldo Ricci (*)
| Tempo de leitura: 7 min

Senhor redator, mesmo sabendo que o mês de julho nunca foi bom para pesca, resolvemos ir pescar no rio Miranda/MS. Os leitores assíduos desta coluna vão se lembrar do meu amigo pescador de carteirinha, sim, aquele mesmo que eu disse ter caído no rio com roupa de missa, cigarros, documentos e celular. Então, este amigo, que residiu por mais de 12 anos naquelas paragens, convenceu-me que desta vez não haveríamos de voltar sem peixes, porque em julho, devido ao inverno, a água está mais fria e apropriada para peixes de couro e de grande porte tais como: pintado, jurupesen, jaú, cacharra, etc. Não acreditei, mas, estando de férias, resolvi conferir de perto.

Para que o custo ficasse menor, convidamos umas dez pessoas para nos acompanhar, logicamente que ninguém aceitou, exceto o marido de uma colega nossa de trabalho, o Sr. Gilmar, contador do Hotel Colonial. Resumindo, a caravana foi composta por mim, pelo Gilmar e pelo grande e azarado pescador Roberto.

O maior sonho do Gilmar, segundo declarações dele próprio, era um dia poder ir pescar no Estado do Mato Grosso do Sul. A oportunidade seria esta, porque devido à sua atividade, somente nesta época é que pode dispor de alguns dias destinados ao lazer.

Combinamos a viagem com dez dias de antecedência para que pudéssemos cuidar dos preparativos. Eu não tinha que arrumar nada, porque minhas tralhas da pescaria anterior estavam bem cuidadas e em condições de serem utilizadas novamente. As tralhas do Roberto também estavam ótimas, apenas para completar, comprou 50 mil metro de linha nº 050. O Gilmar não tinha nenhuma tralha, Portanto, precisou adquirir tudo novo. Sabe como é, marinheiro de primeira viagem, sem experiência, foi na loja e, ao invés de comprar somente o básico, deixou por conta do lojista. Não deu outra, comprou de tudo um pouco, mas o que mais chamou a atenção foi o tamanho dos anzóis, o peso das chumbadas, o carretel de linha importada nº 060 e o molinete de última geração. Os anzóis dariam para fisgar tubarões, de tão grandes que eram. As chumbadas pesavam 350 gramas cada uma!

Nossa viagem começou no dia 9 de julho, feriado estadual. Viajamos o dia inteiro, chegamos no rancho no entardecer. Logo escureceu, era noite de lua cheia, e só de olhar para o esplendor do luar fez com que esquecêssemos do cansaço da viagem. Logo no primeiro dia, como no decorrer dos demais, deu para perceber e compreender como é bom e importante ter como companhia um marinheiro de primeira viagem, uma vez que eu e o Roberto, fora arrumar a própria cama, não precisamos sequer lavar um copo, pois o Gilmar cuidou de tudo, provando ser um mestre-cuca dos bons, capaz de causar inveja a muitos profissionais da cozinha internacional.

Devido ao cansaço da viagem, fomos dormir cedo, mesmo assim, acordamos por volta das 8 horas local (que corresponde às 9 horas no horário paulista), tomamos o café matinal, e em seguida preparamos o material para iniciar a pescaria. Contratamos um piloteiro nativo, e lá fomos nós. Eu e o Roberto usamos o material apropriado, levando em consideração o fato de o rio, nesta época do ano, estar mais ou menos a três metros abaixo do seu nível normal. O Gilmar foi com seu molinete Shimano, anzol de pescar tubarão e chumbada de 350 gramas. Descemos uns dois Km, onde ancoramos numa margem, lugar de muita correnteza, aparentando ter uns 50 metros de distância entre uma margem e outra. Nós, mais experientes, arremessamos normalmente, mas o Gilmar, que nunca havia pescado com molinete... Seu primeiro arremesso foi um desastre de causar riso, ou seja, não houve arremesso, porque esqueceu de destravar o molinete, dando uma pancada forte e barulhenta na borda do barco.

Diante disto, o piloteiro orientou como se fazia para um correto arremesso. Instruções recebidas, coloca-se em prática o segundo arremesso, porém, este foi mais hilário do que o primeiro, veja o que aconteceu: juntando a força do arremesso com o peso da chumbada e com a leveza do molinete, não deu outra, o anzol caiu e enroscou numa moita de cipó, lá na outra margem do rio, com linha nº 060. Só conseguimos desenroscar depois que levamos o barco até lá. A partir do terceiro arremesso, foi se aperfeiçoando cada vez mais, chegando a ponto de conseguir escolher e acertar com precisão qualquer local onde queria que caísse o anzol, porém, ainda na fase de aperfeiçoamento, numa ocasião o anzol espetou seu dedo e em outra penetrou na barra da calça jeans. Estes episódios, (graça ao vendedor da loja), foram de fácil solução: para o furo do dedo, lá estava a caixa contendo produtos de primeiros socorros, e para o enrosco na calça jeans, a faca multiuso igual à do Rambo, justificou seu custo.

O rio não estava pra peixe, a isca chegava a ficar transparente de tanto tomar banho. O marinheiro de primeira viagem resolveu trocar de anzol, colocou um menor, foi só o tempo de deixar a isca chegar ao fundo do rio, que sentiu fisgar, pela força que fazia parecia ter fisgado um jaú, mas para surpresa geral era um armal de mais ou menos três quilos. O engraçado foi ver a alegria momentânea do já profissional se tornar em lamento ao devolver o peixe para o rio. Para quem não conhece, explico: armal é um peixe com aparência de pré-histórico, cascudo, constituído quase que de puro osso, rejeitado até pelos gatos, não serve nem para fazer ensopado. Este episódio aconteceu na manhã do primeiro dia. No período da tarde, talvez pela mudança da temperatura, deu uma melhorada, eu e o Roberto fisgamos peixes de várias espécies, tais como: piranha, jurupesen, mandi e bagre. Inexplicavelmente, não fisgamos nenhum armal, mas o Gilmar, mesmo variando as iscas, não fisgou nenhuma outra espécie. Com certeza, deve ter fisgado mais de quinze armal, que foram devolvidos ao rio.

Nos quatro dias seguintes, a história se repetiu, eu continuei fisgando as espécies de peixes já citadas, acrescentando que consegui fisgar uma espécie denominada de peixe cachorra, de onde tiramos uns filés deliciosos. O Roberto conseguiu fisgar um dourado e dois pintados. E o Gilmar, coitado, não fisgou nenhuma outra espécie, chegou a fisgar um mandizinho, mas por azar o peixinho escapou. Dava pena, ao vê-lo sofrendo toda hora para tirar um armal do anzol, mas, mesmo assim, passamos a chamá-lo de rei do armal.

No quinto dia, por conta do desânimo do Gilmar, paramos de pescar e fomos conhecer a cidade de Corumbá, distante 230 Km de onde estávamos. Eu nunca tinha visitado o Pantanal, e, mesmo estando na estação da seca, foi uma viagem deslumbrante, foi possível ver e fotografar os animais e aves que lá vivem, sem contar a beleza da ponte nova que transpõe o rio Paraguai.

A cidade de Corumbá, em si, para nós que vivemos em outra realidade, talvez pela distância, não chamou muita a atenção, mas, valeu, porque eu e o Roberto tivemos o prazer de pagar e degustar um lauto almoço à base de peixe no urucum, oferecido ao nosso amigo de primeira viagem, em reconhecimento às boas refeições que nos preparou nos dias anteriores. Em seguida, passamos na Capitania dos Portos para saber qual o valor da multa que nos foi imposta por estarmos num barco cuja licença estava vencida há mais de 20 anos. Na saída, paramos na Peixaria do Lulu, onde o rei do armal finalmente conseguiu pescar peixes de espécies diferentes. Depois de voltarmos da viagem, já na sua casa, tentamos ajudá-lo, afirmando que testemunhamos sua batalha para tirar da água o pintado de mais de quinze quilos, mas, infelizmente, o carimbo do SIF, acabou denunciando tudo.

Os leitores já devem ter percebido que o azarado, desta vez, foi outro. Quanto a mim, tirando a demora para conseguir dormir, por causa dos roncos dos dois amigos, que vinham do outro quarto, até que tenho me saído bem e me sinto estimulado a querer voltar novamente. Espero que o Roberto consiga descobrir e nos levar onde realmente tenha peixes e que o Gilmar, vulgo rei do armal, também possa estar na próxima comitiva, pois, além da boa companhia, cá pra nós, pescaria sem comida gostosa, sem piadas infames e sem algumas atrapalhadas verdadeiras que contadas ninguém acredita, com certeza, não é pescaria. É isso.

Manifesto meus agradecimentos, mandando um grande abraço para os meus amigos: Sebastião Roberto e Gilmar Sneideris, por terem proporcionado e vivenciado comigo mais esta verdadeira história. Abraços também aos demais leitores desta coluna, que gostam de uma boa pescaria, e que curtem a natureza, sem degradar e destruir o meio ambiente.

Deste que escreve.

(*) Rinaldo Ricci é pescador e contador de histórias.