09 de julho de 2026
Geral

PICHAÇÃO, O RETRATO DA CULTURA

Ivan Garcia Goffi
| Tempo de leitura: 3 min

Gostaria de poder dizer que Bauru está feia. Não! Gostaria de dizer que está horrível. Desafio qualquer um a encontrar um único muro, numa única quadra de nossa cidade, que não esteja pichado. E não me refiro a qualquer pichação sutil, mas a garranchos incompreensíveis e grotescos, feitos com rolo de pintura ao longo de dezenas de metros. Não são poupados muros, portões, sacadas, fachadas, seja no térreo, seja no último andar dos edifícios, de periferia à periferia, do imóvel público ao particular. Cenário quase parecido (só que muito mais ameno) vemos pela TV, em países devastados por guerras civis.

A prática da pichação refoge ao simples vandalismo. É uma questão cultural, de desrespeito pelo patrimônio alheio e pelo direito coletivo; é uma ofensa ao bem estar, às regras de convivência e à paz social. Em razão das gigantescas proporções que esse crime é praticado aqui, tem-se a certeza de que não são alguns poucos jovens ou grupos, mas centenas ou milhares de jovens e marmanjos mal criados.

Parece que a juventude bauruense institucionalizou a pichação como divertimento noturno obrigatório e, quanto maior e mais extenso os dejetos rabiscados, mais adrenalina toma conta da parca atividade cerebral desses animais. Até hoje vi apenas uma pichação com um toque de verdade: em letras garrafais, feitas com rolo de pintura de 30 cm, ao longo de uns 25 metros de muro, escreveram OS SUB HUMANOS. Grande verdade! Os seres que ali passaram reconheceram sua natureza inferior à dos animais irracionais. Talvez fosse correto tentar comparar esses jovens às vacas no pasto, que onde passam deixam seu rastro, mas não seria justo: o esterco não só é uma necessidade fisiológica do animal, como serve também para algo produtivo.

Diz o ditado: a mente vazia é a oficina do capeta. Esses jovens são sábios aprendizes do inútil e não são punidos. Autoridades policiais, Câmara e Prefeitura parecem que não se preocupam nem com os danos visuais e ambientais, como também com o futuro que esse tipo de gente poderá proporcionar à nossa cidade. Como solução imediata, seria necessário criar armadilhas e fiscalizar melhor o período noturno, com processos sumários e punições severas e exemplares aos infratores, menores ou não; criar um serviço de disk-denúncia, palestras em escolas com esse único propósito, encaminhamento à autoridade judiciária, criar constrangimentos e embaraços aos pais, enfim, tudo o que até o momento não foi feito.

Esse final de semana estive em Barra Bonita e, acreditem, esforcei-me por procurar um muro pichado. Não encontrei nenhum; as paredes brancas, rosas, azuis e amarelas continuavam em suas cores originais, uma bela cidade realmente. Ah, mas Barra Bonita tem 1/3 dos habitantes de Bauru!, poderia alguém dizer; acontece que São Paulo tem 40 vezes mais habitantes e nem por isso está em situação sequer parecida à nossa cidade.

Por falar em cultura, olhemos para a nossa casa da cultura, o Teatro Municipal; alguém já imaginou cenas de divulgação de nosso Teatro pela TV ou Jornal Regional? Que vergonha seria? E a praça Luiz Zuiani, que recentemente foi pilhada e teve o pedestal de mármore destruído (e pichado) e o busto furtado. Sinceramente, fico em dúvida se me espanto mais com a demência juvenil ou com a falta de preocupação das autoridades policiais, judiciárias e administrativas de Bauru.

Enfim, a triste conclusão se chega: temos uma raça subumana, formada por jovens desprezíveis que apõe seus escarros mentais por nossa outrora bela cidade e o que é pior, provavelmente filhos de muitos leitores dessa tribuna, que não aprenderam e nem aprenderão a diferença entre o certo e o errado. Com a palavra, a Câmara Municipal, o Gabinete, o secretário de Educação, de Cultura, de Bem-Estar Social, a polícia... (Ivan Garcia Goffi - OAB/SP 165.173)