08 de julho de 2026
Geral

Argentina rende-se à humildade?!

(*) José Almodova
| Tempo de leitura: 3 min

Em 23 de maio de 1996, publicamos nesta coluna o texto: Falta assunto, ou é picuinha do vizinho?. Ali, demonstramos repulsa a mais uma das tantas mostras da Argentina, dado que por via de manifestações sorrateiras e alfinetadas portenha, geralmente destilava a intenção de denegrir o Brasil no contexto da América do Sul. Na ocasião, eles discorreram sobre o assunto agressivo ao Brasil: sua mídia, em busca de um (furo jornalístico), antecipou-se à notícia em vias de ser veiculada por outro órgão conceituado. Assim, talvez este tipo de expediente tenha levado, no início deste mês - segundo noticiou a Folha de São Paulo de 3 do corrente de 1996 -, o jornal argentino Âmbito financeiro, de Buenos Aires a se antecipar, veiculando a notícia com o seguinte teor: A próxima edição da revista norte-americana Business Week, que chegará às bancas na segunda feira, apontará o Brasil como o primeiro de uma lista de países que podem sofrer uma importante desvalorização da moeda (grifo nosso).

O suposto despautério, entretanto, teria irritado visivelmente nosso já então ministro da Fazenda, Pedro Malan, manifestando-se em entrevista à Agência Brasil da Radiobrás (publicada na Folha do dia seguinte, 4/5/996), adiantando que a desvalorização do real seria da ordem de 25%, porém, no prazo de 12 meses. A atual argentina (dos dias de hoje, após cerca de dez anos da paridade peso/dólar), por fim parece render-se humildemente ao descer do gritante espírito de grandeza que viveu outrora. Já não pode viver o constante e habitual mantenimento da autoilusão de possuir a hegemonia do Cone Sul.

Assim, é passada a era que mandantes obcecados, peronistas e cidadãos iludidos se alegravam quando americanos - analfabetos no estudo da geografia política - se referiam à Capital do Brasil como sendo Buenos Aires. Noutro artigo, publicado em 6/3/1997 (intitulado Há fogo na barba do vizinho?), nos referimos ao início da via-crucis que teria vivido o presidente Carlos Menem, quando se desentendeu com o mentor do plano econômico (até então endeusado Domingo Cavallo), descartando-o juntamente com seus comparsas políticos. Menem, contudo, persistira em manter a continuidade do valor igualitário entre ambas as moedas peso/dólar, (uma experiência com cerca de seis anos de existência), que não obstante desde muito cedo vinha demostrando resultados negativos no comércio exterior do seu país.

Até que, recentemente, o presidente argentino Fernando de La Rúa (havendo politicamente admitindo a fragilidade econômico/administrativa imposta ao país, cujas rédeas percebeu não dominar) buscou solução reintegrando Domingo Felipe Cavallo no Ministério da Fazenda, sob total liberdade na ação ministerial. Grande parte dos argentinos, entretanto, se manifestou contra o retorno de Cavallo ao ministério, cujo endeusamento já houvera minimizado porque estava alicerçado em dúvidas públicas.

É tendo em vista as atuais circunstâncias que pouco crédito se pode dar à Argentina atual, cuja política econômico/monetária continua brutalmente fragilizada, porém, que tenta não render-se às necessárias mudanças nos seu regime monetário/cambial. Solução essa (que de nossa parte) vimos batendo na mesma tecla há mais cinco anos, isto é, a que qualquer economista - menos teimoso - indicaria a melhor solução. Como exemplo, entendemos que o país argentino palmilha um caminho do qual (em boa hora no Brasil) conseguimos safar-nos, quando ainda sonhávamos com a paridade real/dólar, conse-guindo evitar o modelo do país vizinho. Se não o fizéssemos, ao invés de termos que pagar a aquisição (do feijão preto de feijoada, a custo de dólar), que recentemente adquirimos do país vizinho, estaríamos vivendo o mesmo sufoco argentino, certamente sob piores conseqüências. Se contudo fôssemos a bola da vez, fustigaríamos a vida do vizinho com os estilhaços da economia, como os que vimos recebendo dele. Este, porém, sofre por seus procedimentos, sem qualquer proteção de curto prazo. - Fico por aqui.

(*) José Almodova é professor universitário-mestre em Projeto, Arte e Sociedade pela Unesp/Bauru. É jornalista e colaborador do JC. Escreve às quintas-feiras na coluna. E-mail: almodova@ig.com.br.