10 de julho de 2026
Geral

Há 47 anos, Vargas acionava o gatilho

Gilmar Dias
| Tempo de leitura: 3 min

Um estampido ecoou pelo Palácio do Catete - sede do Governo Federal, no Rio de Janeiro - no início da manhã do dia 24 de agosto de 1954, há 47 anos. Entrincheirado numa crise política, cuja única saída seria a renúncia, o ex-presidente Getúlio Dorneles Vargas preferiu mirar uma arma contra o próprio peito e pôr fim, de maneira trágica, à própria vida, fugindo de um embaraço que lhe perseguiria mesmo após a morte.

Amado e odiado, polêmico, simpatizante do regime nazista de Hitler, não se pode negar o nacionalismo de Vargas, que misturava rompantes de progresso com autoritarismo. Após a sua morte, o País ficou acéfalo de um chefe de Estado nacionalista ao estilo do gaúcho de São Borja.

Impulsionado na busca dos bastidores do Palácio do Catete na Era Vargas, o professor de História da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (Faac) da Unesp, Maximiliano Martin Vicente, apresentou à USP, em 1997, a tese de doutorado O Ateliê do Catete, relatando a maestria do ex-presidente em costurar acordos políticos.

Para o professor, vários fatores colaboraram para o suicídio de Vargas. Ele já era uma pessoa de idade e tinha toda uma vivência política. Nos últimos anos de sua vida, Vargas ficou praticamente abandonado, sem poder contar com ninguém, com acusações que chegavam muito próximo dele. O quadro era de desespero.

Na avaliação de Vicente, o suicídio do ex-presidente foi a forma encontrada por ele para dizer aos brasileiros que não concordava com toda a situação que lhe envolveram. Era uma pessoa de idade, isolada, no fim de carreira, desgostoso com a situação do País e não lhe restou outra saída senão o suicídio. Ele avaliou que era mais digna essa saída.

Para o professor, é evidente que Vargas tinha projetos progressistas para o País, o que incomodava muito alguns setores da elite brasileira. Era um projeto nacionalista, de desenvolvimento e infra-estrutura. Eu creio que é aí que se caminha um pouco a trajetória de Vargas.

Ele explica que o ex-presidente tinha a noção clara de que sem as indústrias de transformação o Brasil não conseguiria galgar o caminho do desenvolvimento. Era necessário, no ponto de vista dele, o País ter uma Companhia Siderúrgica Nacional (CSN).

A empresa foi instalada no País com a colaboração dos Estados Unidos, uma espécie de presente dos norte-americanos pelo decisão dos brasileiros de apoiar os países aliados na Segunda Guerra Mundial. A CSN, em termos estratégicos, é algo fenomenal e essencial para o País.

Com a CSN em operação, o Brasil viu nascer vários núcleos industriais.

Ele (Vargas) tinha uma visão de futuro nacionalista industrial. Essa é a grande herança que devemos a ele.

Carta Testamento

Por anos seguidos, creditou-se ao próprio ex-presidente a autoria de sua Carta Testamento, amplamente divulgada para o País. Segundo Vicente, o texto da carta que os brasileiros conheceram, e muitos até decoraram, não é de autoria de Vargas.

A Carta Testamento foi forjada pelo PTB - partido fundado por Vargas, o qual estava filiado na época. O presidente fez alguns rascunhos com algumas falas do desgosto. O livro do Hélio Silva conta toda essa história detalhadamente. A carta era um programa para o PTB. Ela foi forjada aproveitando-se de alguns escritos que Vargas já tinha feito. O PTB aproveitou politicamente a carta.

O professor diz que escolheu o ex-presidente Getúlio Vargas como figura principal de seu estudo para entender o autoritarismo no caso específico do ex-presidente. Foi um autoritarismo peculiar. Ele tinha um projeto político altamente progressista. Progressista, mas autoritário. Vargas manipulou politicamente o Estado para o Estado ficar com ele, ser dele, para poder levá-lo ao desenvolvimento. Isso foi diferente do Nazismo, do Facismo, do autoritarismo na Espanha e em Portugal.