09 de julho de 2026
Geral

"Bicho..." questiona falta de diálogo

Ricardo Polettini
| Tempo de leitura: 3 min

Uma das mais bem-sucedidas produções cinematográficas recentes do Brasil estréia hoje em Bauru. O premiado Bicho de Sete Cabeças questiona, em suma, a falta de diálogo na sociedade brasileira, tomando como exemplo a família e o inferno das instituições manicomiais.

Baseado no livro Canto dos Malditos, um relato autobiográfico do curitibano Austregésilo Carrano Bueno, escrito no final dos anos 70, o filme é uma tragédia doméstica que fala da intolerância e incomunicabilidade na família de classe média e dos mecanismos de repressão da sociedade brasileira.

Neto (Rodrigo Santoro) é um adolescente de classe média baixa que leva uma vida normal, até o dia em que seu pai (Othon Bastos) encontra um baseado (cigarro de maconha) no bolso de seu casaco. O fato é considerado a gota dágua na já tumultuada relação familiar e o filho é internado num manicômio.

Lá, Neto conhece uma realidade absurda e desumana. A linguagem de documentário utilizada pela diretora Laís Bodansky dá ao filme grande impacto, deixando dúvidas se os personagens realmente são atores ou internos.

São todos atores, eu faço questão de dizer isso, porque muita gente pensa que eu liguei a câmera dentro de um manicômio. Na verdade, eu me inspirei na linguagem de documentário, usei-a como referência. Foi um trabalho grande que a gente fez com todo o elenco. A gente trabalhou mais na preparação do que na filmagem, disse a diretora à reportagem do JC Cultura, na quarta-feira, minutos antes de partir para o Canadá, onde exibe hoje o filme no Festival de Cinema de Montreal, concorrendo ao prêmio de Melhor Diretor Estreante (Bicho... é seu primeiro longa).

Premiação

Poucos filmes brasileiros tiveram tanto impacto em festivais nacionais e internacionais. A lista de premiações de Bicho de Sete Cabeças inclui 11 prêmios no 5.º Festival de Recife (abril-maio/2001) e outros nove no Festival de Brasília (novembro/2000). Selecionado oficialmente para o Festival de Locarno, na Suíça, ocorrido neste mês, foi um dos mais aplaudidos pelo exigente público cinéfilo do local. Também levou a Margarida de Prata, no CNBB 2001.

Sobre o sucesso do filme, Laís acredita ser a força de sua história a grande responsável. Eu acredito que o sucesso do filme aconteceu principalmente pela força da história. A linguagem de documentário eu terminei escolhendo porque achei que a própria história pedia. Uma história que é real, baseada em fatos reais, em cima de uma pesquisa sobre a questão manicomial no Brasil, e eu fiz questão de usar uma linguagem com a câmera solta, como um personagem, como se fosse um espectador ali na hora da cena, era justamente para provocar o espectador, para ele conhecer e ouvir, na verdade, essa denúncia que o filme faz, afirma.

Em nove semanas de exibição no circuito comercial, o filme já levou às salas de cinema 290 mil espectadores. Em Bauru, está em cartaz no Cine Center 2 (confira preços e horários na página 31) onde deve ficar em curta temporada, já que são poucas cópias em circulação no País.

Uma estratégia alternativa para driblar as grandes estréias internacionais. Bem-sucedida? Claro que é, senão não estaríamos conversando agora, comemora.