Ao sofrido povo brasileiro
Você acorda e de repente se vê sem emprego, sua empresa foi privatizada e sua seção terceirizou-se. Abre o jornal: estupros, violência, seqüestros, guerras, fome, miséria, corrupção, morte. Liga a tevê, imagens e sons lhe enchendo os sentidos de satisfação, deixando você anestesiado nesse mundo-sonho de consumo e ilusão, país democrático, educação e saúde que vão bem, obrigado, samba, futebol e pizza.
Aí você percebe que está num vazio maior que os buracos da cidade, pensa que vive um livro de Franz Kafka e se fecha como uma ostra, molusco de conchas bivalves que vive grudado nas pedras marítimas. E ali, no mais íntimo do seu ser de ostra, vai ruminando a realidade como um grão de areia dolorido, corpo estranho deixado em si por acaso, pouco a pouco recebendo o nácar de seu anticorpo, trabalho de escultor.
E quando alguém mais tarde o encontrar - um pescador, talvez uma criança, um mercenário, quiçá sereia -, ao abrir a sua casca bivalve demonstrará um leve espanto, um assombro, esboçará um sorriso por ver transformada em pérola a sua realidade machucada. (Angela Elys Gasparini Kiatake Bianchini - RG 16.155.759)